O que é a verdadeira intelecção

Uma prova não é convincente porque ela é absoluta – pois, isto, ela não poderia ser –, mas porque ela actualiza [traz da “potência” ao “ato”] no espírito uma evidência.

Uma prova só é possível em função de um conhecimento prévio. É preciso toda a artificialidade de um pensamento destacado de seu Princípio transcendente para querer enxertar uma prova num vazio; é como se se quisesse buscar no tempo a origem da eternidade.

É injusto rejeitar uma “prova de Deus” pela simples razão de que lhe ignoramos as premissas implícitas, e evidentes para o autor da prova.

Provar o Absoluto é ou a coisa mais fácil, ou a mais difícil, conforme as condições intelectuais do meio.

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Há, correlativamente a toda prova, um elemento que escapa ao determinismo da simples lógica, e que é quer uma intuição, quer uma graça; ora, este elemento é tudo. Na ordem intelectual, a prova lógica não é senão uma cristalização muito provisória da intuição, cuja modalidades são incalculáveis em função da complexidade do real.

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Pode-se certamente provar toda verdade; mas nem toda prova entra em todos os espíritos. Nada é mais arbitrário do que rejeitar as provas clássicas de Deus, pois cada uma é válida em relação a uma certa necessidade de explicação. Essa necessidade de explicação cresce não em proporção do conhecimento, mas em proporção da ignorância. Para o sábio, cada estrela, cada flor prova metafisicamente o Infinito.

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O “progresso teológico”: é explicitar o que os predecessores não tinham considerado necessário dizer, ou limitar as coisas a um certo grau de entendimento. A escolástica – no que ela tem de limitativo – não teria podido nascer sem uma compreensão defeituosa dos Padres gregos.

Há alguma coisa de análogo na heresia, que arromba ruidosamente portas abertas a fim de melhor poder dissimular seus vícios fundamentais; mas, aqui, já não se trata de uma “verdade menor”, nem de limitação dialética, mas de erro puro e simples.

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Os espíritos racionalistas têm a obsessão dos “pensamentos”; eles veem os conceitos, não as “coisas”, de onde suas críticas falhas das doutrinas inspiradas e tradicionais. Eles não veem nem as realidades de que falam essas doutrinas, nem as coisas inexprimidas que são autoevidentes. Eles criticam como juristas aquilo que surpreende seus hábitos mentais; não podendo atingir as “coisas”, eles se põem a mastigar as palavras; é próprio dos filósofos objetivar suas limitações.

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Uma doutrina metafísica é a encarnação mental de uma verdade universal.

Um sistema filosófico é a tentativa racional de resolver certas questões que se se coloca a si mesmo. Um conceito só é um “problema” em função de determinada ignorância.

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Para atingir a verdade, é preciso despertar em si – se isso é possível – a faculdade intelectiva, e não se esforçar em “explicar” pela razão realidades que não se “vê”; ora, a maior parte das filosofias partem de uma espécie de cegueira axiomática, de onde suas hipóteses, seus cálculos, suas conclusões, todas coisas mais ou menos desconhecidas em metafísica pura, a dialética desta estando antes de tudo fundada na analogia e no simbolismo.

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A filosofia não se limita a “expor” levando em conta a necessidade de explicação do intelectivo ao qual a sabedoria normalmente se dirige, mas ela quer “explicar” de uma maneira quase absoluta, ou seja, visando a uma necessidade de explicação desproporcional, artificial e “profana”, e tomando suas explicações extrínsecas por fatores essenciais da verdade; ela objetiva o que não é senão subjetivo, e ela arrasta a verdade em suas próprias escavações.

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Viver de pensamentos é substituir indefinidamente conceitos por outros conceitos. Na raciocinação, os conceitos são usados sem jamais poderem ser substituídos, nesse plano, por qualquer coisa de melhor. Nada é mais nocivo do que esse consumo mental de uma verdade; dir-se-ia que as ideias verdadeiras se vingam daquele que se limita a pensá-las.

Aquele cujo ser está por demais exclusivamente ancorado no pensamento, que quer tudo realizar na mente e que só faz esgotar as virtualidades de conhecimento, escorrega finalmente para o erro, se ainda não está nele, como a curva ascendente de um círculo se transmuta imperceptivelmente em curva descendente. Malgrado certas flutuações que podem iludir, é esse todo o drama da filosofia.

O pensamento humano é aberto a todas as tendências e a todas as inspirações; o homem pode pensar mesmo o tédio e o nada.

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A virtuosidade mental que brinca indefinidamente com conceitos sem poder nem querer chegar a um resultado definitivo não tem absolutamente nada a ver com o gênio especulativo, cujas fórmulas parecerão, aliás, “ingênuas” à dita virtuosidade; esta, de resto, se opõe à intuição intelectual como Lúcifer se opõe a Deus.

“O espírito sopra onde quer” (spiritus ubi vult spirat); isto não poderia significar que ele deva soprar em toda parte.

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O homem moderno coleciona chaves sem saber abrir uma porta; cético, ele se debate entre conceitos sem suspeitar-lhes nem o valor intrínseco, nem a eficácia: ele “classifica” ideias, na superfície do pensamento, e não “realiza” nenhuma delas em profundidade. Ele se dá ao luxo do desespero, o que é realmente a forma mais paradoxal da comodidade; ele crê ter feito experiências, enquanto ele não faz senão evitar aquelas que se impõem e que ele não tem nem mesmo a possibilidade intelectual de fazer; sua experiência é a de uma criança que, tendo-se queimado, quer abolir o fogo.

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O pensamento contemplativo é uma “visão”; ele não está em “ação” como o pensamento passional. Sua lógica externa depende de sua visão interna, enquanto que, no pensamento passional, o processo lógico é como que cego: ele não “descreve” realidades diretamente percebidas, mas “constroi” justificativas mentais em função de ideias preconcebidas que podem ser verdadeiras, mas que são mais “aceitas” que “compreendidas”.

A palavra “pensador” implica que se atribui ao conhecimento uma atividade individual, o que é significativo. Quanto ao “contemplativo”, ele pode não “pensar”: o ato de contemplação é principial, o que significa que sua atividade está em sua essência, não em suas operações.

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O raciocínio não poderia desempenhar, no conhecimento, um papel que não o de causa ocasional da intelecção; esta intervém de uma maneira súbita – e não contínua ou progressiva –, desde que a operação mental, condicionada, por sua vez, por uma intuição intelectual, possua a qualidade que faz dela um símbolo puro. Quando o calor produzido pela fricção de dois pedaços de madeira – ou por uma lente captando um raio de sol – atingiu o grau preciso que é seu ponto culminante, a chama surge subitamente; da mesma forma, a intelecção, desde que a operação mental seja suscetível de fornecer um suporte adequado, se introduz instantaneamente nesse suporte. É assim que a inteligência humana assimila sua própria Essência universal graças a uma espécie de reciprocidade entre o pensamento e a Realidade. O racionalismo procurará, ao contrário, em seu próprio plano o ponto culminante do processo cognitivo; ele procura “resolver” a verdade metafísica, como se houvesse nela um problema a resolver, ou, ainda, ele procura a verdade na ordem das formulações mentais e rejeita a priori a possibilidade de um conhecimento acessível além dessas formulações e que escapa, por consequência – em certa medida, ao menos –, dos recursos da linguagem humana; o mesmo valeria buscar uma palavra que fosse inteiramente o que ela designa ! É dessa contradição de princípio que decorre a incapacidade, em primeiro lugar, de fornecer as formas mentais próprias a veicular a intuição intelectual e portanto a verdade – pois as questões mal formuladas não atraem a luz, assim como não derivam dela – e, depois, de perceber as dimensões intelectuais atingidas virtualmente por tal ou qual formulação, mesmo defeituosa; o racionalismo procede como o homem que tentasse desenhar o ponto geométrico esforçando-se por fazê-lo o menor possível, ou que quisesse atingir, em algum plano criado, uma perfeição absoluta, por um lado negando a imperfeição necessária desse plano e por outro a transcendência da Perfeição pura.

Ora, uma formulação doutrinal é perfeita não por esgotar no plano da lógica mental a Verdade infinita, o que é impossível, mas porque ela realiza uma forma mental suscetível de comunicar, àquele que é intelectualmente apto a recebê-lo, um raio dessa Verdade; é o que explica porque as doutrinas tradicionais serão sempre aparentemente “ingênuas”, ao menos do ponto de vista dos homens que não compreendem que a razão suficiente da sabedoria não se situa no plano de sua afirmação formal, e que não há nenhuma medida comum e nenhuma continuidade entre o pensamento – cuja evoluções, em suma, só tem um valor simbólico – e a Verdade pura, a qual se identifica ao que “é” e, por este fato, engloba aquele que pensa.


Extraído de: Frithjof Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, Cahiers du Sud, 1953, pp. 9-15.

4 ideias sobre “O que é a verdadeira intelecção

    1. Alberto Queiroz Autor do post

      Prezado amigo. Grato pelo comentário. Fico contente de saber que está sendo útil a diversas pessoas. É realmente um texto excepcional, que abre um livro excepcional. Saudações. (AQ)

      Resposta

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