20 mil acessos, e um excerto

Completamos vinte mil acessos. Curiosamente, depois do Brasil, o maior número de visitantes, no último ano, veio dos Estados Unidos, não de Portugal como nos anos anteriores.

Continuamos esperando que esta humilde iniciativa ajude àqueles que, em meio ao deserto espiritual do mundo de hoje, amam a Verdade, a Oração, a Virtude e a Beleza.

A seguir, um excerto do primeiro capítulo de Tesouros do Budismo, de Schuon, ainda inédito em português.

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Frithjof Schuon

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Quando contemplamos uma paisagem, apreendemos-lhe as principais características sem sermos distraídos por tal ou qual detalhe que, se demasiado perto, de certa forma nos encerraria em seus traços particulares; de maneira análoga, quando consideramos uma das grandes tradições espirituais de forma a poder abarcar com o olhar tudo o que lhe pertence fundamental e exclusivamente, nenhuma de suas expressões essenciais nos escapa, e nenhuma esconde as outras.

Contemplando assim o sistema espiritual que é o Budismo, podemos discernir em sua base uma mensagem de renúncia e em seu cume uma mensagem de mistério; e, numa outra dimensão, em certo sentido “horizontal”, vemos uma mensagem de paz e outra de misericórdia.

A mensagem de renúncia é como o enquadramento das outras mensagens: ela se mostra como o próprio corpo do Budismo, enquanto que o elemento mistério é-lhe o coração; esta mensagem de mistério encontrou sua expressão mais direta nos derivados chinês, tibetano e japonês do Dhyâna original. A mensagem de paz, por sua vez, penetra toda a tradição búdica: sua cristalização central e culminante é a imagem sagrada do Buda, a qual se encontra, com efeito, no Budismo do Sul tanto quanto no do Norte, e, no quadro deste, no Lamaísmo tanto quanto no Budismo sino-japonês. Quanto à mensagem de misericórdia, ela se exprime de maneira geral pela doutrina dos Bodhisattva e de maneira particular e quintessencial pelo culto do Buda Amitâbha ; é esta a mensagem da “fé que salva”, e ela é um complemento de fervor ou de intensidade que se acrescenta harmoniosamente ao desapego sereno que o Budismo apresenta em primeiro lugar; a oposição só é aparente, pois todas as realidades espirituais se unem em sua raiz comum.

Aos homens de hoje em dia, que só vivem para o sensível e que, por esse fato, ignoram o que é a condição humana considerada em sua totalidade e em seus fins últimos, é difícil fazer compreender o alcance de uma atitude aparentemente tão negativa e insensata quando a renúncia; eles não verão nela nada mais que uma superstição contrária à natureza. Na realidade, a renúncia não se explica, evidentemente, por si mesma; longe de ser um fim em si, ela não é senão o suporte provisório de uma tomada de consciência que supera infinitamente nosso ego. A renúncia não teria sentido se não se tratasse de apreender com todo o nosso ser – e não apenas com a mente – o que somos realmente e, sobretudo, o que é a Realidade total, esse “algo” pelo qual somos e ao qual não podemos escapar. A renúncia quer impedir que o homem se encerre numa ilusão efêmera, que ele se identifique na prática com ela e que ele pereça com ela; ela quer ajudar o homem a se liberta da tirania dos sonhos sem saída. O sábio não perde nunca de vista o contexto universal da vida; ele não se entrega aos fragmentos de consciência, tal como os eventos agradáveis ou desagradáveis, alegres ou dolorosos, mas mantém sempre a consciência da totalidade, de modo que,no fim das contas, para ele a questão da “renúncia” já nem se coloca; ele não se compromete na experiência fragmentária, não se fecha nela, não se torna ela, não é consumido por ela. Poder-se-ia objetar, aqui, que o homem não pode escapar às experiência sensoriais ou psíquicas, já que ele vive; a isto é preciso responder que há sempre e necessariamente, na “alquimia” espiritual, uma margem suficiente para as “consolações sensíveis”, e isto de duas maneiras ou por duas razões: em primeiro lugar, toda vida, e por consequência todo esforço, está submetido a um ritmo; tudo procede por ondas, por repetições, por alternâncias e por compensações, no espírito como no mundo; nenhuma via pode se permitir ser somente negativa, pois um arco esticado demais se quebra. Em segundo lugar, a partir de uma certa tomada de consciência da Realidade total ou do “Vazio” , as próprias coisas deixam transparecer essa Realidade, quer o queiram, quer não; as “consolações sensíveis” podem esconder-nos o Real e nos afastar dele, mas elas podem também no-lo revelar e nos aproximar dele, e elas não podem se impedir de fazê-lo, segundo a qualidade espiritual de nossa “percepção”. Isto é verdadeiro, não somente em relação às belezas da natureza e da arte sacra ou simplesmente tradicional, onde a coisa é evidente , mas mesmo em relação às satisfações vitais, na medida em que permanecem no equilíbrio do Céu e a Lei.

Tanto quanto a ideia de renúncia, a de paz – de paz interior e transcendente – não é acessível à mentalidade que predomina em nossa época. A mensagem de paz se refere metafisicamente ao Ser puro, do qual somos como que a espuma; ele é a Substância, nós somos os acidentes . A imagem canônica do Buda nos mostra “O que é” e o que nós “devemos ser”, ou mesmo o que nós “somos” em nossa realidade eterna: pois o Buda visível é o que é sua essência invisível, ele é conforme à natureza das coisas. Ele tem uma atividade, dado que suas mãos falam, mas essa atividade é essencialmente “ser”; ele tem uma exterioridade, dado que tem um corpo, mas ela é “interior”; ele é manifestado, dado que ele existe, mas ele é “manifestação do Vazio” (shûnyamûrti). Ele é a personificação do Impessoal ao mesmo tempo que a Personalidade transcendente ou divina dos homens; pois o véu se rasga e a alma retorna à sua budeidade eterna, como a luz, diversificada por um cristal, retorna à unidade indiferenciada quando já nenhum objeto dispersa seus raios. Em cada grão de poeira, há a Existência pura, e é neste sentido que se pôde dizer que nele se encontra um buda, ou o Buda.

O que está no fundo das coisas é a paz e a beleza. As coisas como tais se situam “fora de si mesmas”; se elas pudessem estar totalmente “em si mesmas”, elas se identificariam ao Buda, no sentido de que elas seriam a Substância imutável e bem-aventurada; imutável porque escapando a toda oposição, a toda coerção causal, a todo devir, e bem-aventurada porque gozando da essência de todas as belezas possíveis ou de todas as felicidades. O símbolo natural do Buda é o lótus, essa flor contemplativa aberta para o céu e pousada sobre uma água que nenhuma vento agita.

Quem diz paz, diz beleza. A beleza é como o sol: ela age sem desvios, sem intermediários dialéticos; seus caminhos são livres, diretos, incalculáveis; como o amor, do qual é interdependente, ela pode curar, desatar, apaziguar, unir, libertar por sua simples irradiação. A imagem do Buda é como que um som dessa música celeste que faria florescer uma roseira na neve; assim era Shâkyamuni – pois se diz que os budas não salvam somente por sua doutrina, mas também por sua beleza sobre-humana –, e assim é sua imagem sacramental . A imagem do Mensageiro é também a da Mensagem; não há diferença entre o Buda, o Budismo e a Budeidade Universal; a imagem indica, por consequência, a via, ou, mais precisamente, seu ponto de chegada, ou o quadro humano dessa chegada, ou seja, ela nos mostra esse “sono santo” que interiormente é vigília e claridade; ela sugere, por sua “presença” profunda e inaudita, “a detenção da agitação mental e o apaziguamento supremo”, para usar a linguagem de Shankara.

Assim era Shâkyamuni, dissemos. Duas opiniões são, com efeito, inadmissíveis: pretender que a vida do Buda não é mais que um “mito solar” , e pretender que a questão de saber o que o Buda histórico foi não tem importância; nos dois casos, é, na prática, admitir que há efeitos sem causa. A vida de Shâkyamuni se situa historicamente num passado por demais próximo de nós, ela é por demais importante, para pode não ser mais que uma lenda; suas analogias com determinado simbolismo preexistente só fazem corroborar seu caráter sagrado; o fato de que para os próprios hindus o Buda é um Avatâra de Vishnu manifesta a natureza transcendente do personagem, sem a qual não poderia ser questão nem da eficácia de sua Lei, nem da potência salvadora de seu Nome. As tradições emergem do Infinito como flores; não se poderia fabricá-las, assim como à arte sacra que é sua manifestação e sua prova.

Quem diz paz, diz beleza: a efígie do Tathâgata – e de seus derivados ou suas concomitâncias metafísicas e cósmicas – mostra que a beleza, em sua raiz ou em sua essência, é feita de serenidade e de misericórdia; a harmonia formal nos atrai porque ela é feita de bondade profunda e de inesgotável riqueza, de apaziguamento e de plenitude. A beleza do Buda aspira como um ímã todas as contradições do mundo e as transforma num silêncio irradiante; a imagem que daí deriva é como uma gota de néctar de imortalidade, tombada na frieza do mundo das formas e cristalizada sob uma forma humana, uma forma acessível aos homens.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, Ed. Nataraj, 1999, cap. 1º)

4 ideias sobre “20 mil acessos, e um excerto

    1. Alberto Queiroz Autor do post

      Bem-vindo. O website não está parado. É que entendemos que há nele conteúdo suficiente para muito aprendizado. Publicamos algo a mais de quando em vez. Saudações. (Alberto Queiroz)

      Resposta
    1. Alberto Queiroz Autor do post

      Não, creio que não. O Sabedoria Perene teve suas publicações interrompidas já há vários anos. Mas o conteúdo, muito bom, está ali, disponível para quem quiser.

      Resposta

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