A virtude espiritual é uma forma de objetividade

Se nos perguntassem — de encontro à evidência das coisas — o que tem a ver a virtude com as questões de realização espiritual, portanto de técnica rigorosa e extra-individual, responderíamos o que se segue, colocando-nos no mesmo ponto de vista estritamente prático: a realização espiritual impõe à alma uma imensa desproporção, pelo fato de que ela introduz a presença do sagrado nas trevas da imperfeição humana; ora, isso provoca fatalmente reações desequilibrantes que comportam em princípio o risco de uma queda irremediável, reações que a beleza moral, combinada com as graças que ela atrai por própria sua natureza, pode grandemente impedir ou atenuar. É precisamente essa beleza que os diletantes ambiciosos e desprovidos de imaginação creem poder desdenhar, pois eles não veem nela senão um sentimentalismo alheio ao que eles creem ser a técnica realizadora; no entanto, quando a alma se vê como suspensa entre dois mundos, um já perdido e o outro ainda não atingido, só uma virtude fundamental e a graça podem salvá-la da vertigem, e só essa virtude a imuniza logo de vez contra as tentações e as desviações.

No plano da alquimia espiritual, é importante não confundir uma moralidade puramente extrínseca com a virtude intrínseca — esta podendo de resto parecer amoral em certos casos —, nem uma virtude natural de envergadura fraca com uma virtude profundamente enraizada no coração e englobando a alma inteira. É importante compreender antes de tudo este princípio: é intrinsecamente moral o que, mesmo comportando um benefício num grau qualquer, não prejudica ninguém; é intrinsecamente imoral o que, sem ser proveitoso a ninguém, prejudica outros ou a nós mesmos; sempre levando em conta a hierarquia de valores.

As virtudes, por um lado, favorecem ou mesmo condicionam as atitudes contemplativas e, por outro, resultam delas na medida em que essas atitudes são sinceras. Uma virtude é profunda na medida em que ela coincide com uma superação de si, a qual é sinônimo de objetividade, de imparcialidade fundamental, de serenidade já celeste. Pois o virtuoso é virtuoso porque sua inteligência e sua sensibilidade percebem o próprio ser das coisas.

Frithjof Schuon, L’Esoterisme comme Principe et comme Voie (O Esoterismo como Princípio e como Via), Dervy-Livres, Paris, 1978, pp. 109-110.

Uma ideia sobre “A virtude espiritual é uma forma de objetividade

  1. fernando figueira borgomoni

    “Uma virtude é profunda na medida em que ela coincide com uma superação de si, a qual é sinônimo de objetividade, (…)” A falsa virtude, por conseguinte, serve ao ego e não se realiza para fora, é pura subjetividade. Matheus 6, 3-4 (falsa virtude) 5-6 (falsa oração). A falsa virtude cai na terra e é absorvida como o orvalho, seca e morre. A virtude verdadeira sobe aos céus e “dá frutos abundantes no tempo preciso.” Essas reflexões devem ser aprofundadas. É fato que muitos cristãos e mesmo os perdidos, entendendo-se por estes os que declaram alguma religião, mas não a professam de fato, já não têm claro a necessidade da atitude moral e da virtude. Apontam tanto a moral como o conceito de virtude, como algo cambiável pelo tempo e pela história que, por isso mesmo, não pode ser tão importante para a salvação. Restou para eles apenas um raciocínio quase contábil pelo qual ganhamos como que pontos pelos nossas boas ações e trocamos por um lugar no Céu.

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