O amor, a mulher, a música

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Fundamentalmente, todo amor é uma busca da Essência ou do Paraíso perdido; a melancolia doce ou potente que intervém frequentemente no erotismo poético ou musical manifesta essa nostalgia de um Paraíso longínquo e sem dúvida também da evanescência dos sonhos terrestres, cuja doçura, precisamente, é a de um Paraíso que  não mais percebemos, ou que ainda não percebemos. Os violinos ciganos evocam não somente os altos e baixos de um amor demasiado humano, eles cantam também, em seus acentos mais profundos e mais pungentes, a sede desse vinho celeste que é a essência da Beleza; toda música erótica reencontra, na medida de sua autenticidade e de sua nobreza, os sons ao mesmo tempo encantatórios e liberadores da flauta de Krishna. (*)

Como o da mulher, o papel da música é equívoco, e o mesmo vale para as artes aparentadas, a dança e a poesia: há quer um inchaço narcisista do ego, quer a interiorização e a extinção beatífica na essência. A mulher, encarnando Mâyâ, é dinâmica num duplo sentido: seja no da irradiação exteriorizante e alinenante, seja no da atração interiorizante e reintegrante; enquanto o homem, sob o aspecto fundamental de que se trata, é estático e unívoco.

O homem estabiliza a mulher; a mulher vivifica o homem; além disso, e evidentemente, o homem traz em si mesmo a mulher, e inversamente, dado que eles são ambos homo sapiens, homem puro e simples; e, se definimos o ser humano como pontifex, é evidente que essa função engloba também a mulher, ainda que esta lhe acrescente um caráter mercurial próprio ao seu sexo.

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(*) As formas visíveis manifestam as essências celestes cristalizando-as; a música interioriza, de certa maneira, as formas lembrando-nos de sua qualidade de essência por meio de uma linguagem feita de doçura unitiva e de ilimitação. A música terrestre evoca na alma a “lembrança” transformante da música celeste, ainda que, diante desta, ela pareça dura e dissonante: “Qualunque melodia più dolce suona / qua giù e più a sé l’anima tira, / parrebbe nube che squarciata tona, // comparata al sonar di quella lira
onde si coronava il bel zaffiro / del quale il ciel più chiaro s’inzaffira. (Dante, Paradiso, XXIII, 97-102).

Frithjof Schuon, L’Ésoterisme comme Principe et comme Voie, Dervy-Livres, Paris, 1978, pág. 134.

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Tradução dos versos de Dante:

Seja qual for a melodia que mais doce soe / Aqui e mais a si a alma atraia, / Pareceria ela uma nuvem que, abrindo-se com violência, estronda, / Comparada ao soar daquela lira, / Onde se coroava a bela safira, / Da qual o céu mais claro se ensafira.

Imagem: Radha e Krishna.

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