Por que há várias Revelações?

Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma única Revelação, uma única Tradição possível? A esta questão respondemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição; ora, quem diz forma, diz diversidade, portanto pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação. O que entra na forma, entra também no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinidade da Possibilidade divina — confere a essa repetição a diversidade. Poder-se-ia conceber, é verdade, que só houvesse uma única Revelação ou Tradição para nosso mundo humano e que a diversidade se realizasse através de outros mundos, desconhecidos dos homens ou mesmo incognoscíveis para eles; mas isso seria não compreender que o que determina a diferença das formas da Verdade é a diferença dos receptáculos humanos. Há já milênios que a humanidade está dividida em vários ramos fundamentalmente diferentes, que constituem uma série de humanidades totais, portanto mais ou menos encerradas em si mesmas; a existência de receptáculos espirituais tão diferentes e tão originais exige a refração diferenciada da Verdade una. Notemos que não se trata sempre de raças, mais, as mais das vezes, de grupos humanos talvez bem variados, mas, não obstante, submetidos a um conjunto de condições mentais que fazem deles recipientes espirituais suficientemente homogêneos, o que não poderia impedir que os indivíduos possam sair desses marcos, pois o humano coletivo não tem nunca nada de absoluto. Isto posto, diremos que as diversas Revelações não se contradizem realmente, pois elas não se aplicam ao mesmo receptáculo, e Deus não dirige nunca uma mesma mensagem a dois ou mais receptáculos de características divergentes, ou seja, que correspondem analogicamente a dimensões formalmente incompatíveis; só se contradiz aquilo que se situa no mesmo plano. As antinomias aparentes das Tradições são como diferenças de linguagem ou de símbolo; as contradições estão do lado dos receptáculos humanos, não do lado de Deus; a diversidade no mundo depende de seu afastamento do Princípio divino, o que equivale a dizer que o Criador não pode querer que o mundo seja, mas que ele não seja o mundo.

Se as Revelações mais ou menos se excluem, isso acontece necessariamente porque Deus, quando fala, exprime-se em modo absoluto; mas essa absolutez diz respeito mais ao conteúdo universal do que à forma; ela só diz respeito a esta de uma maneira relativa e simbólica, porque a forma simboliza o conteúdo e, por consequência, também a humanidade inteira à qual se dirige, precisamente, esse conteúdo. Deus não pode comparar as diversas Revelações desde o exterior, como o faria um acadêmico; ele se mantém de certa forma no centro de cada Revelação, como se ela fosse a única. A Revelação fala uma linguagem absoluta, porque Deus é absoluto, não porque a forma o é; em outras palavras, a absolutez da Revelação é absoluta em si, mas relativa por sua forma.

A linguagem das Escrituras sagradas é divina, mas, ao mesmo tempo, é forçosamente a linguagem dos homens; ela é, portanto, feita para os homens e só poderia ser divina de uma maneira indireta. Essa incomensurabilidade entre Deus e nossos meios de expressão transparece nas Escrituras, onde nem nossas palavras, nem nossa lógica estão à altura da intenção celeste; a linguagem dos mortais não considera as coisas, a priorisub especie aeternitatis. O Verbo incriado rompe a palavra criada ao mesmo tempo em que a ordena em vista da Verdade; ele manifesta assim sua transcendência em relação às limitações da lógica humana; o homem deve poder superar esses limites, se ele quer atingir o sentido divino das palavras, e ele os supera no conhecimento metafísico, fruto da intelecção pura, e, de certa forma, também no amor, quando este toca as essências. Querer reduzir a Verdade divina aos condicionamentos da verdade terrestre é esquecer que não há medida comum entre o finito e o Infinito.

Frithjof Schuon, Sentiers de Gnose, capítulo 2, extrato.

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