“Respiramos a Presença de Deus…”

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A Presença divina tem, na ordem sensível, dois símbolos ou veículos — ou duas “manifestações naturais” — de primeira importância: o coração em nós, que é nosso centro, e o ar à nossa volta, que nós respiramos. O ar é a manifestação do éter, que tece as formas, e ele é ao mesmo tempo o veículo da luz, a qual, também ela, manifesta o elemento etéreo (1). Quando respiramos, o ar penetra em nós, e — simbolicamente falando — é como se ele introduzisse em nós o éter criador junto com a luz; nós respiramos a Presença universal de Deus. Há também uma relação entre a luz e o frescor, pois as duas sensações são libertadoras; o que no exterior é luz, é, no interior, frescor. Nós respiramos o ar luminoso e fresco, e nossa respiração é uma oração, assim como o batimento de nosso coração; a luminosidade se refere ao Intelecto, e o frescor, ao Ser puro (2).

O mundo é um tecido cujos fios são de éter; nós somos aí tecidos como todas as outras criaturas. Todas as coisas sensíveis vêm do éter, que contém tudo; todas as coisas são éter cristalizado. O mundo é um tapete imenso; nós possuímos o mundo inteiro em cada respiração, dado que respiramos o éter de que tudo é feito (3) e que “somos” éter. Assim como o mundo é um tapete imensurável no qual tudo se repete no ritmo de uma contínua mudança, ou, ainda, no qual tudo permanece semelhante no quadro da lei de diferenciação, assim também o Alcorão — e com ele todo o Islã — é um tapete ou um tecido onde o centro se repete em toda parte de uma maneira infinitamente variada, e onde a diversidade não faz senão desenvolver a unidade; o “éter” universal — o elemento físico não lhe é senão um reflexo longínquo e pesado — não é senão a Palavra divina que é em toda parte “ser” e “consciência”, e que é em toda parte “criadora” e “libertadora”, ou “reveladora” e “iluminadora”.

A natureza que nos rodeia — sol, lua, estrelas, dia e noite, estações, águas, montanhas, florestas, flores —, essa natureza é uma espécie de Revelação; ora, essas três coisas: natureza, luz e respiração estão profundamente ligadas. A respiração deve se aliar à lembrança de Deus; é preciso respirar com veneração, com o coração, por assim dizer. Diz-se que o Espírito de Deus — o Sopro divino — foi “acima das Águas”, e que foi “insuflando” que Deus criou a alma, e ainda que o homem  que “nasceu do Espírito” é semelhante ao vento “que tu ouves, mas do qual não sabes nem de onde ele vem, nem para onde ele vai.”

Notas

(1) Os Gregos silenciaram a respeito do éter, sem dúvida porque o concebiam como oculto no ar, que, também ele, é invisível. Em hebraico, a palavra avir designa ao mesmo tempo o ar e o éter; a palavra aor, “luz”, tem a mesma raiz.

(2) Ensina-se, no Islã, que no final dos tempos a luz se separará do calor e que este será o inferno, enquanto aquela será o Paraíso; a luz celeste é fresca, e o calor infernal, escuro.

(3) Maneira simbólica de falar, pois o éter, sendo perfeita plenitude, é imóvel e não poderia se mover.

Frithjof Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, pp. 62 e 63.

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