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O significado espiritual da Divina Comédia

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Publicamos hoje neste espaço um profundo e surpreendente artigo de Titus Burckhardt a respeito da Divina Comédia, intitulado “É Porque Dante está Certo”.

Ele começa assim:

Entre os traços que atestam a grandeza incomparável da Divina Comédia, não é dos menos importantes o fato de que, a despeito de a amplitude e a variedade de sua influência terem sido excepcionalmente grandes — ela chegou mesmo a moldar a língua de uma nação —, tal obra foi raramente compreendida na totalidade de seu significado. Já durante a vida de Dante, aqueles que se aventuraram no oceano do espírito na trilha de sua nau (Paradiso, II, 1 ss.) estavam destinados a ser uma companhia reduzida. Eles mais ou menos desapareceram com o Renascimento; o modo de pensamento individualista desse período, oscilando entre a paixão e a razão calculista, já estava muito afastado do espírito de Dante, voltado para o interior. Mesmo Miquelângelo, embora tivesse por seu conterrâneo florentino a mais alta consideração, já não o podia compreender (continue a ler clicando aqui).

Um conhecimento doutrinal é suficiente?

Gostaria de trazer à atenção do leitor dois extratos do livro de Titus Burckhardt intitulado Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam, publicado por Dervy-Livres, Paris, em 1985.

Os dois extratos tratam da seguinte questão: o conhecimento doutrinal basta para a realização espiritual? O grande sábio suíço diz que não, e que, se não há uma via espiritual, a compreensão das verdades espirituais despertada pelo estudo da doutrina pode facilmente, aos poucos, se desvanecer.

Vejamos o que diz Burckhardt:

“O presente trabalho é uma introdução ao estudo da doutrina sufi. Mas é importante antes de tudo definir o ponto de vista segundo o qual abordamos este tema: este ponto de vista não é o da erudição pura e simples, seja qual for o interesse científico dos resumos doutrinais que figuram neste estudo; queremos sobretudo contribuir com os esforços daqueles que, no mundo moderno, procuram compreender as verdades permanentes e universais de que toda doutrina sagrada é um modo de expressão.

“Digamos logo de início que a ciência acadêmica é uma ajuda totalmente secundária e muito indireta para que se assimile o conteúdo intelectual das doutrinas orientais, e, aliás, nem é esse o objetivo de um método científico, que aborda as coisas necessariamente desde o exterior, portanto sob seu aspecto puramente histórico e contingente. Há doutrinas que só se compreendem ‘desde o interior’, por um trabalho de assimilação ou de penetração cujas modalidades, que são essencialmente intelectuais [1], superam, por isso mesmo, o pensamento discursivo; este chega mesmo a se tornar um obstáculo na medida em que ele está marcado por convenções mentais, sem falar das ideias preconcebidas agnósticas e evolucionistas que determinam o espírito da maioria dos ocidentais. É por esta razão que quase todos os eruditos europeus que estudaram o Sufismo se enganam a respeito de sua verdadeira posição: o homem de cultura moderna, com efeito, não mais está habituado a pensar em símbolos (…) a formação universitária e o saber livresco autorizam aqui a ocupar-se de coisas que, no Oriente, estão naturalmente reservadas àqueles que são dotados de intuição espiritual e que se consagram ao estudo dessas coisas em virtude de uma afinidade real e sob a direção dos herdeiros de uma tradição viva.” (pp. 9-10)

“A assimilação das verdades doutrinais é indispensável; contudo, ela não opera por si só uma transformação na alma, salvo em certos casos muito excepcionais, em que a alma está tão bem disposta à contemplação que elementos de doutrina bastam para a fazer nela [na contemplação] mergulhar, como uma solução supersaturada que, sofrendo um mínimo impulso, pode subitamente se transmutar em cristais. Em si, a inteligência doutrinal é puramente estática; ela pode livrar a alma de certas tensões, mas não pode realmente transformá-la sem o concurso da vontade, a qual representa o elemento dinâmico da via. Ocorre mesmo, muito facilmente, que a intuição das verdades metafísicas, a princípio despertada pelo estudo da doutrina, se esfarele pouco a pouco no espírito daquele que, crendo possuir essas verdades, só adere a elas mentalmente, como se a vontade não devesse tomar nisso nenhuma parte. Ora, a vontade deve tornar-se ‘pobre’ perante Deus, o que equivale a dizer que ela deve se conformar à virtude espiritual: esta representa uma espécie de concentração latente da alma, uma base sólida e natural da concentração diretamente operativa, cujo objetivo é transpassar o véu da consciência continuamente absorvida pela corrente das formas. ‘A virtude espiritual (al-ihsân) – disse o Profeta – é que tu adores a Deus como se tu O visses, e, se tu não O vês, Ele no entanto te vê’.

“Conforme a natureza particular do ‘caminho’ (…) a compreensão doutrinal exerce um papel mais ou menos importante; ela não exige necessariamente um saber doutrinal muito extenso, pois é em profundidade, não na superfície, que ela deve se desenvolver.” (pp. 115-117)

Nota [1]: Por ‘intelecto’ entendemos não a razão ou o pensamento discursivo, mas o ‘órgão’ do conhecimento imediato, da certeza, ou seja, a pura inteligência, que supera a razão. Este ‘órgão’, a teologia ortodoxa, particularmente Máximo, o Confessor, chama de Noûs.

Da Sacralidade das Águas

Publicamos hoje um novo texto de Titus Burckhardt, intitulado Da Sacralidade das Águas. Este ensaio já foi publicado antes com o título O Simbolismo da Água, em tradução feita a partir da excelente tradução inglesa de William Stoddart. Esta versão que aqui oferecemos é traduzida do original alemão.

Embora hoje já se dê maior atenção ao problema da contaminação das águas do que na época em que o autor escreveu o texto, este continua plenamente válido, não só por tratar acima de tudo de princípios e da relação simbólica entre a água e a alma, mas também porque, se hoje se dá mais atenção a este assunto, nem por isso se conseguiu deter essa contaminação ou deterioração, muito ao contrário, excetuando-se alguns casos isolados.

Leia o texto seguinto este enlace.

O Homem Conservador

Publicamos hoje mais um belo ensaio de Titus Burckhardt, intitulado “O Homem Conservador”. Este ensaio, em tradução nossa, já está na internet há muitos anos, publicado por outros, mas achamos que vale a pena reproduzi-lo também neste espaço.

Eis o começo:

“Deixando de lado quaisquer matizes políticos que a palavra possa ter, o conservador é alguém que procura conservar. E para dizer se ele está certo ou errado deveria ser suficiente analisar o que é que ele quer conservar. Se as formas sociais que defende – pois sempre se trata de formas sociais – estão em conformidade com o objetivo mais elevado do homem e correspondem à suas necessidades mais profundas, por que não deveriam elas ser tão boas quanto – ou mesmo melhores que – qualquer coisa de novo que a passagem do tempo possa trazer à luz? Pensar desta maneira seria normal, mas o homem de hoje já não pensa normalmente. Mesmo quando não despreza  automaticamente o passado e vê o progresso técnico como fonte de todo bem da humanidade, ele normalmente tem um preconceito contra qualquer atitude conservadora, pois, consciente ou inconscientemente, está influenciado pela tese materialista de que todo ‘conservar’ é inimigo de uma vida que está em constante mudança, e portanto leva à estagnação.”

 

Para lê-lo, siga este enlace.

Ensaio de Burckhardt sobre a Odisseia

Publicamos hoje um belíssimo ensaio de Titus Burckhardt, extraído do livro Symboles (Arché, Milão, 1980), com uma interpretação simbólica da Odisseia. Seu título é: “O Retorno de Ulisses”. Veja o começo:

“Toda via que conduz a uma realização espiritual exige que o homem se despoje de seu eu comum e habitual a fim de se tornar verdadeiramente ‘si mesmo’, transformação que não acontece sem o sacrifício de riquezas aparentes e de pretensões vãs, portanto sem humilhação, nem sem combate contra as paixões das quais o ‘velho eu’ é tecido. É por isso que se encontra na mitologia e no folclore de quase todos os povos o tema do herói real que volta ao seu próprio reino sob a aparência de um estrangeiro pobre ou mesmo de um saltimbanco ou de um mendigo, para reconquistar, depois de muitas provas, o bem que lhe pertence legitimamente e que um usurpador lhe havia roubado.”

Siga este enlace para ler o ensaio inteiro.

Para ler sobre Burckhardt, siga este enlace.