Um extrato sobre a gnose cristã

A fim de tornar mais claro que a diferença entre o Islã e o Cristianismo é realmente uma diferença de perspectiva metafísica e de simbolismo – ou seja, que as duas espiritualidades convergem – procuraremos caracterizar sucintamente a gnose cristã, partindo da ideia-chave de que o Cristianismo consiste no fato de que “Deus se fez o que nós somos, para nos tornar aquilo que ele é” (Santo Irineu); o Céu tornou-se terra, a fim de que a terra torne-se Céu; o Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que ocorre, o tempo todo, no mundo interior da alma.

No homem, o Espírito se faz ego a fim de que o ego se torne puro Espírito; o Espírito ou o Intelecto (intellectus, não mens ou ratio) se faz ego encarnando-se na mente sob a forma de intelecção, de verdade, e o ego torna-se Espírito ou Intelecto unindo-se a este. [1] O Cristianismo é, assim, uma doutrina de união, ou a doutrina da União, antes que a da Unidade [2]: o Princípio se une à manifestação, a fim de que esta se una ao Princípio; daí o simbolismo do amor e a predominância da via “bháktica” . Deus tornou-se homem “por causa de seu imenso amor” (Santo Irineu) e o homem deve se unir a Deus pelo “amor” também, seja qual for o sentido – volitivo, emotivo ou intelectivo – que se dê a esse termo. “Deus é Amor”: Ele é – enquanto Trindade – União, e Ele quer a União.

Ora, qual é o conteúdo do Espírito, ou, dito de outro modo: qual a mensagem sapiencial do Cristo? Pois o que é essa mensagem é também, em nosso microcosmo, o conteúdo eterno do Intelecto. Essa mensagem ou esse conteúdo é: ama a Deus com todas as tuas faculdades e, em função desse amor, ama ao próximo como a ti mesmo; ou seja: une-te – pois “amar” é essencialmente “unir-se” – ao Coração-Intelecto e, em função ou como condição dessa união, abandona todo o orgulho e toda a paixão e discerne o Espírito em todas as criaturas. “O que fizerdes a um desses pequeninos tereis feito a Mim.” O Coração-Intelecto – o “Cristo em nós” – é, não somente luz e discernimento, mas também calor ou bem-aventurança, portanto “amor”: a “luz” torna-se “quente” na medida em que ela se torna nosso “ser”. [3]

Essa mensagem – ou essa verdade inata – do Espírito prefigura a cruz, pois há nela duas dimensões, uma “vertical” e outra “horizontal”, a saber, o amor a Deus e o amor ao próximo, ou a união ao Espírito e a união à ambiência humana, considerada, esta, como manifestação do Espírito ou “corpo místico”. Conforme uma maneira de ver um pouco diferente, essas duas dimensões são representadas respectivamente pelo conhecimento e pelo amor: “conhece-se” Deus e “ama-se” o próximo, ou ainda: ama-se mais a Deus conhecendo-o e conhece-se mais o próximo amando-o. Quanto ao aspecto doloroso da cruz, é preciso dizer que do ponto de vista da gnose mais que de qualquer outro, e em nós mesmos como entre os homens, é profundamente verdadeiro que “a Luz luziu nas trevas, mas as trevas não a compreenderam.” [4]

Todo o Cristianismo se enuncia na doutrina trinitária, e esta representa fundamentalmente uma perspectiva de união; ela considera a união já in divinis: Deus prefigura em sua própria natureza as relações entre Ele mesmo e o mundo, relações que, de resto, só se tornam “externas” em modo ilusório.

Como já tivemos ocasião de notar, a religião cristã põe o acento no conteúdo “fenomemal” da fé antes que na qualidade intrínseca e transformante desta; dizemos “antes” e falamos de “acento” a fim de indicar que não se trata aqui de uma definição incondicional; a Trindade não é de ordem fenomenal, mas, não obstante, está relacionada ao fenômeno crístico. Na medida em que o objeto da fé é “principial”, ele coincide com a natureza “intelectual” ou contemplativa da fé [5]; na medida em que o conteúdo da fé é “fenomenal”, a fé será “volitiva”. O Cristianismo é, a grosso modo, uma via “existencial” [6] – “intelectualizada” na gnose – , enquanto o Islã, ao contrário, é uma via “intelectual fenomenalizada”, o que significa que ele é intelectual a priori, de uma maneira indireta ou direta conforme se trate da shari‘ah ou de haqiqah; o muçulmano, firme em sua convicção unitária – em que a certeza coincide no fundo com a própria substância da inteligência e portanto com o Absoluto [7] – vê facilmente tentações “associadoras” (shirk, mushrik) nos fenômenos, enquanto que o cristão, centrado como é ele no fato crístico e nos milagres que dele decorrem essencialmente, experimenta uma desconfiança inata em relação à inteligência – que ele reduz de bom grado à “sabedoria segundo a carne” opondo-a à caridade paulina – e àquilo que ele crê serem as pretensões da “mente humana”.

Ora, se do ponto de vista “realização” ou “via” o Cristianismo opera como “amor a Deus” – em resposta ao amor divino pelo homem, Deus sendo ele próprio “Amor” –, o Islã, por sua vez, procederá mediante a “sinceridade da fé unitária”.

(Extraído de Compreender o Islã, livro de Frithjof Schuon.)


[1] “ O Espírito penetra tudo, até as próprias profundezas de Deus. Entre os homens, quem conhece as coisas dos homens, à parte o espírito do homem que é nele? Da mesma forma, ninguém conhece as coisas de Deus, a não ser o Espírito de Deus. Ora, não é o espírito do mundo que recebemos, mas o espírito que vem de Deus para conhecer isso com que fomos agraciados por Deus.” (I Cor., II, 10-12). – Para Dante, os danados são aqueles “que perderam o bem do Intelecto” (Inferno, III, 18), o que pode se referir ao reflexo microcósmico e humano do Intelecto divino bem como a este último.

[2] Nota do tradutor: O que é a doutrina do Islã, como o autor explica, no livro, antes desta passagem.

[3] É por isso que o “amor” (mahabbah) dos sufis não pressupõe de nenhuma forma uma via de bhakti, assim como o emprego deste último termo pelos vedantinos shivaítas não implica uma perspectiva dualista de Vaishnava.

[4] A dimensão gnóstica – e entendemos este termo sempre em seu sentido etimológico e intemporal – aparece de uma forma tão nítida quanto possível nesta passagem do Evangelho de Tomás, recentemente descoberto: o Cristo, após ter falado aos Apóstolos, sai com São Tomás e lhe diz três palavras, ou três sentenças. Quando Tomás volta só, os outros discípulos insistem com ele com perguntas; ele lhes diz que, se lhes confiasse uma só dessas sentenças, eles o apedrejariam, e que, então, do fogo surgiriam pedras para os devorar.

[5] É o que se exprime ao dizer que a alma, desde seu nascimento, é “cristã” – ou “muçulmana”, segundo as religiões – e que são os homens que a desviam, conforme o caso, de sua fé inata, ou que, ao contrário, a “confirmam”. O que faz pensar na “reminiscência” platônica.

[6] Baseada no elemento Sat (“Ser”) dos vedantinos e não diretamente no elemento Chit (“Consciência”), ainda que o Logos proceda intrinsecamente desse segundo elemento, o que abre a dimensão gnóstica. O Intelecto tornou-se fenômeno a fim de que o fenômeno torne-se Intelecto.

[7] Mas é evidente que esta definição vale para toda gnose.

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