Sobre a definição do Ser

“A intuição intelectual implica, entre outras, a compreensão do Ser, em si e em conexão com as coisas; ela permite, por consequência, compreender, por um lado, que o Ser não tem de ser definido em todos os casos e em virtude de uma necessidade artificial de causalidade e, por outro lado, que ele não é de forma nenhuma difícil de definir, precisamente porque o senso do Ser é inerente ao intelecto: quem diz ‘intelecto’, diz ‘senso do Ser’.

“Gostaríamos de responder, aqui, sempre em conexão com a questão da intuição intelectual, a uma dificuldade levantada por Pascal: ‘Não se pode tentar definir o ser sem cair nesta absurdez: pois não se pode definir uma palavra sem começar por esta, é, e portanto sem empregar a palavra definida em sua definição.’ (Pensées et Opuscules.) É, com efeito, impossível, nas línguas europeias, dar uma definição sem se servir da palavra ‘é’; se em outras línguas, como por exemplo o árabe, uma definição pode ser feita sem o concurso dessa palavra ou de outra cópula qualquer, é exatamente pela mesma razão, a saber, a de que tudo está mergulhado no Ser e este, por consequência, é evidente a priori; se o Ser não pode ser definido fora de si mesmo, assim como o conhecimento, é porque esse ‘fora’ não existe; a separação necessária para toda definição situa-se, portanto, no interior mesmo da coisa a definir, e, com efeito, ainda que sejamos ‘no Ser’, não somos o Ser. A cópula ‘é’ indica uma ‘determinação’ ou um ‘atributo’, conforme o caso, e isso mostra o sentido da palavra: definiremos o Ser em si como a determinação universal, ou seja, como o Princípio supremo ‘enquanto ele se determina’, conforme a expressão de Guénon; se partimos do ternário ‘Sobre-Ser’, ‘Ser’ (1) e ‘Manifestação’, vemos que o Ser é ‘Princípio’ em relação ao mundo, mas ‘determinação’ em relação ao ‘Sobre-Ser’. Agora, dado que o Ser é determinação em relação ao ‘Sobre-Ser’ e fonte de todo atributo em relação ao mundo, toda determinação e todo atributo podem se exprimir mediante a palavra ‘ser’, portanto por ‘é’, e a dificuldade de Pascal encontra-se resolvida assim: o ‘ser’ manifesta (ou ‘é’ a manifestação de) um aspecto de sua ilimitação interna, portanto uma possibilidade, um atributo. Quando dizemos: ‘a árvore é verde’, é, por analogia, como se disséssemos: ‘o Ser comporta tal aspecto’, ou, ainda, no sentido mais profundo: ‘o Sobre-Ser se determina como Ser’; a coisa a definir — a determinar — faz função, analogicamente, de ‘Ser’, e a definição — a determinação — faz função de ‘atributo divino’; em vez de falar de ‘Ser’ e de ‘atributo do Ser’, poderíamos nos referir à distinção primeira: ‘Sobre-Ser’ e ‘Ser’. Quando o verbo ‘ser’ designa uma existência, ele não tem complemento; por outro lado, quanto ele tem um complemento, ele não designa uma existência como tal, mas um atributo; dizer que tal ou qual coisa ‘é’ significa que ela não é inexistente; dizer que a árvore ‘é verde’ significa que ela tem tal atributo e não tal outro. Por consequência, o verbo ‘ser’ exprime, sempre, quer uma ‘existência’, quer uma ‘característica da existência’, assim como Deus, por um lado, ‘é’ e, por outro lado, ‘é isto ou aquilo’, ou seja, Luz, Amor, Potência etc. É por isso que Santo Tomás disse muito bem que, se o Ser, e os princípios primeiros que dele decorrem, não têm prova, é porque eles não têm necessidade disso: prová-los é ao mesmo tempo inútil e impossível, ‘não por causa de uma falta, mas por causa de uma superabundância de luz’. (2)”

“Quando a intuição intelectual opera, não há nenhum problema em relação ao Ser, e as enunciações consideradas ‘sumárias’ e ‘dogmatistas’ bastam; mas quando o intelecto está paralisado, todo esforço para definir o Ser é vão, pois é evidente que não se pode definir o que não se conhece. Se, para alguns modernos, a noção do ‘ser’ é ‘a mais obscura’ que há, não há aí nada que deva nos surpreender; mas o que é desagradável é que a cegueira se pretenda luz, ou ‘encaminhamento’ para a luz, o que dá no mesmo. Não se pode criar a intuição intelectual onde sua ausência está na essência do indivíduo, mas ela pode ser actualizada [N. do T.: passar da potência ao ato] onde sua ausência não é mais que acidental, sem o que seria insensato falar dela; o conhecimento — Santo Agostinho insiste neste fato, assim como Platão e muitos outros —não se acrescenta desde fora; o ensinamento não é senão a causa ocasional da tomada de consciência de uma verdade que estava latente em nós. O ensinamento é uma lembrança; a compreensão é uma reminiscência. No intelecto, o sujeito é o objeto, o ‘ser’, e o objeto é o sujeito, o ‘conhecer’: de onde a certeza absoluta.”

Frithjof Schuon, Les Stations de la Sagesse, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, pp. 29-32.

Notas:

(1) O Sobre-Ser — ou ‘Não-Ser’ — é a Realidade absolutamente incondicionada, ao passo que o Ser é a Realidade enquanto ela se determina em vista da manifestação e, com isso, se torna o Deus pessoal.

(2) No Cogito ergo sum, tudo está perdido, pois a consciência de ser é subordinada à experiência do pensamento; o ser assim esfumado arrasta o pensamento em sua queda, pois, se é preciso provar o ser, é preciso provar também a eficácia da inteligência, portanto a validade de suas conclusões, a fundamentação do ergo. Guénon, que, aliás, teve o grande mérito de dar às noções de intelectualidade e de ortodoxia seu sentido verdadeiro e universal, escreveu-nos isto a respeito do Cogito: “Para ver bem tudo o que está contido no “penso, logo sou” de Descartes, é preciso considerar a dupla redução que ele opera: 1º do ‘eu’ à alma somente (com a exceção do corpo); 2º da própria alma ao pensamento (‘uma substância da qual toda a natureza não é senão pensar’; a distinção que ele sustenta entre as substâncias e seu atributo principal parece ser sobretudo verbal, dado que, para ele, o atributo principal exprime integralmente a essência ou a natureza da substância). Já se discutiu muito a questão de saber se a fórmula cartesiana deveria ser considerada realmente como um argumento ou como um raciocínio; o logo não parece, no entanto, poder ser interpretado de outra forma que não como marcando uma dedução. — A mesma objeção pode também se aplicar ao famoso ‘argumento ontológico’: “Tudo o que ele contém de verdadeiro e de válido metafisicamente se reduz à afirmação ‘o Ser é’, na qual não há nenhum sinal de argumentação. — Poder-se-ia lembrar, aqui, a questão filosófica absurda do ‘critério da verdade’, ou seja, a busca de um sinal exterior pelo qual a verdade deveria ser reconhecida; essa questão é daquelas que são insolúveis porque não têm realmente de ser postas.'”

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