Os abusos estão na natureza humana

“Quando se confronta o mundo moderno com as civilizações tradicionais, não se trata simplesmente de buscar em cada lado os bens e os males; como há bem e mal em tudo, trata-se essencialmente de saber de qual lado acha-se o mal menor. Se alguém nos diz que há, fora da tradição, tal ou qual bem, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o bem mais importante, e é necessariamente a tradição que o representa; e, se nos dizem que há na tradição tal ou qual mal, responderemos: sem dúvida, mas é preciso escolher o menor mal, e é ainda a tradição que o comporta. É ilógico preferir um mal que comporta alguns bens a um bem que comporta alguns males.

“Certamente, limitar-se a admirar os mundos tradicionais é ainda manter-se num ponto de vista fragmentário,pois toda civilização é uma ‘faca de dois gumes’; ela só é um bem total por seus elementos invisíveis que a determinam positivamente. Sob certos aspectos, toda sociedade humana é coisa problemática; se se lhe retira todo caráter transcendente — o que equivale a desumanizá-la, visto que esse caráter é essencial ao homem, mesmo que dependendo de um consentimento livre —, retira-se da sociedade, do mesmo modo, toda a sua razão de ser, e ela se torna nada mais que um bando de formigas, de nenhuma maneira superior a qualquer outro bando de formigas, pois as necessidades vitais e, por consequência, o direito à vida são os mesmos para todos, quer se trate de homens ou insetos. É um erro dos mais perniciosos crer que a coletividade humana, por um lado, e o bem-estar dessa coletividade, por outro, representam um valor absoluto e, portanto, um fim em si.

“As civilizações tradicionais, enquanto fatos sociais e à parte seu valor intrínseco — mas neste caso não há delimitação rigorosa —, são, malgrado suas imperfeições inevitáveis, diques erguidos contra a maré montante da mundanidade, do erro, da subversão, da queda a todo momento renovada; essa queda é cada vez mais invasora, mas será vencida, por sua vez, pela irrupção final do fogo divino, esse fogo do qual as tradições já são cristalizações terrestres. Rejeitar os arcabouços tradicionais por causa dos abusos humanos equivale a admitir que os fundadores das religiões não sabiam o que faziam e, também, que os abusos não estão na natureza humana, que eles seriam, portanto, evitáveis mesmo nas sociedades que contam com milhões de homens, e que eles seriam evitáveis graça a meios puramente humanos, o que é verdadeiramente a contradição mais flagrante que se possa imaginar.”

  • Frithjof Schuon, O Homem no Universo, Ed. Perspectiva, São Paulo, 2001, pp. 61 e 62.

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