Uma descrição do pacto iniciático sufi

Shaikh_Sayidna_Ahmed_Al_Alawi

“Este rito, que tem inegável suporte na Escritura, é hoje a forma comum de se ligar a um mestre e à sua via espiritual. Ele re-efetua o pacto feito no começo dos tempos entre Deus e a humanidade (Alcorão, 7:172). De uma maneira mais tangível, este rito renova o compromisso contraído pelos Companheiros com o Profeta, em Hudaybiyya:

Em Verdade, aqueles que fazem o pacto contigo [Muhammad], fazem-no com Deus. A Mão de Deus está sobre suas mãos. E todo aquele que quebra este pacto, quebra-o apenas para com si mesmo. E a todo aquele que mantém seu pacto com Allâh, Ele conferirá uma imensa recompensa. (Alcorão, 48:10)

Deus ficou satisfeito com os crentes quando eles juraram lealdade a ti [Muhammad] sob a árvore. (Alcorão, 48:18)

“Como o primeiro verso especifica, o pacto é selado com um ‘aperto de mão’ (musâfaha). O ritual se desenrola desta maneira: O mestre e o discípulo estão num estado de pureza ritual (…) então o aspirante põe sua mão direita sob a do cheikh; desta forma, é o próprio Deus que, além do Profeta, põe sua ‘Mão’ sobre a do noviço. Esta conversão, ou retorno a Deus (tawba),é vista como o primeiro estágio da Via. Depois de pegar a mão do discípulo, o mestre recita várias fórmulas em voz baixa — entre elas os versos mencionados acima — afirmando que ele recebe o discípulo como ‘filho’ ou ‘irmão’ e que concorda em guiá-lo na Via. O aspirante promete respeitar o pacto, obedecer ao seu cheikh e, por meio dele, a Deus. ”

(Introduction to Sufism: the Inner Path of Islam, de Eric Geoffrey, World Wisdom Books, 2010, p. 154.)

Sobre a gravidade do pacto, um grande mestre tradicional faz o seguinte comentário:

O significado desta fórmula [a primeira fórmula citada acima: ‘…quebra-o apenas para com si mesmo’] deve ser sempre tido em mente [pelo discípulo]. Deus é bom, mas Ele também pode ser terrível. Não há verdadeira Mahabbah [Amor a Deus] sem Makhâfah [Temor a Deus].

Talvez valha a pena reproduzir aqui um interessante comentário sobre o critério da ortodoxia de um mestre, feito por Titus Burckhardt, em documento inédito:

“[Conhece-se] sem dúvida a regra sufi, citada por al-Qushairî, segundo a qual o discípulo não deve nunca olhar com maus olhos os atos de seu mestre, ‘mesmo se crê surpreendê-lo em flagrante adultério’. Poder-se-ia então perguntar: em quê o discípulo reconhece a ortodoxia do mestre? A resposta é esta: em tudo o que diz respeito ao próprio discípulo, e não no que diz respeito ao mestre. Adere-se a um mestre em virtude das Verdades divinas que se encontram em seu ensinamento e em seu método. É fiando-nos nisto que ‘obrigamos’ Deus em relação a nós: Deus não nos enganará; Ele não exige de nós que analisemos os atos pessoais do mestre, que façamos ‘psicologia’, mas, se quiser nos mostrar a falsidade do mestre, Ele no-la mostrará no próprio plano dessas Verdades divinas em virtude das quais aderimos ao mestre. Al-Qushairî quer portanto dizer: se um mestre ensina erros ou um método contrário à revelação, deixai-o; mas, se ele aparentemente comete atos imorais, desconfiai de vossa própria desconfiança. (…)

“Quanto às imperfeições de um mestre (…) podemos ter certeza de que são nossas próprias imperfeições projetadas no mestre; são elas que se erguem à nossa frente como um muro: imperfeições que só fossem do mestre não causariam perturbações*, pois não as sentimos subjetivamente, mas as constatamos objetivamente, de modo que as situamos em seu justo lugar como imperfeições fatalmente inerentes à natureza humana; elas não constituirão um véu sobre aquilo que o mestre manifesta, num ou noutro grau, da Verdade divina.

“Os falsos mestres parecem geralmente dotados de uma perfeição psicológica, portanto puramente humana; eles são as mais das vezes puristas da moral, mas ensinam erros.

“Um mestre espiritual é como um espelho que nos mostra nossa verdadeira natureza; um erro de niya — de orientação interior — bastará para que aí projetemos nossos defeitos, e o diabo se apressará a nos fazer atribuí-los ao espelho. É por esta razão que aquele que se revolta contra seu mestre espiritual geralmente não volta sobre seus passos.”

*Nota: “O critério é, em suma, este: o diabo não está interessado em imperfeições que podemos constatar serenamente num outro e que perdoamos.”

(Fim da citação de Titus Burckhardt.)

* * *

A foto no começo desta nota é do santo Cheikh Al-Alawî (1869-1934), mestre sufi argelino, polo espiritual (qutb) de seu tempo.

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