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O misticismo é natural ao homem

Sioux Oglala, em foto de Edward S. Curtis.

O misticismo, ou a mística, resulta da tendência ao aprofundamento, à experiência interior; ele é “sobrenaturalmente natural” ao homem, ou seja, ele corresponde a uma necessidade inata e se encontra em toda parte onde há uma religião, o legalismo desta não podendo satisfazer todas as aspirações. Portanto, o misticismo não poderia não existir.

Frithjof Schuon, “Enigma e mensagem de um esoterismo”, in Nos Caminhos da Religião Perene, publicado neste sítio.

Assimilar a Divindade por meio de um símbolo

São Bernardino de Sena com o Monograma Sagrado IHS — Iesus Hominum Salvator.

Na Eucaristia, o Absoluto — ou o divino Si [1] — tornou-se Alimento; em outros casos, ele se tornou Imagem ou Ícone e, em outros ainda, tornou-se Palavra ou Fórmula: é o mistério da assimilação concreta da Divindade por meio de um símbolo propriamente sacramental: visual, auditivo ou outro.

Um desses símbolos, e mesmo o mais central, é o próprio Nome de Deus, quintessência de toda oração, seja um Nome de Deus em si ou um Nome de Deus tornado homem. [2]

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A forma humana tem algo do Absoluto

Pintura de Schuon

O fato de que o homem é centro e totalidade, de modo que Deus pode se encarnar nele, prova que ele não é de forma nenhuma suscetível de uma evolução essencial e transformadora, que mude as próprias constantes de sua forma ao ponto de separá-la do homem de facto numa proporção igual àquela que separa o homem do macaco; isso é totalmente impossível, pois o Infinito só se encarna no finito em função de uma característica absoluta (…) que não poderia mudar em sua essência e em seu arquétipo.


Frithjof Schuon, “Les stations de la sagesse”, capítulo de livro homônimo, Édition Maisonneuve & Larose, Paris, 1992, p. 115.

Ser homem sem ser homem

Há no homem algo que pode conceber o Absoluto e mesmo alcançá-lo, e que, por consequência, é absoluto. Partindo deste dado, pode-se medir toda a aberração daqueles que acham totalmente natural ter o direito ou a chance de ser homem, mas que querem sê-lo fora da natureza integral do homem e fora das atitudes que ela implica. Por certo, a possibilidade paradoxal de negá-la também faz parte dessa natureza — pois ser homem é ser livre, no sentido do “relativamente absoluto” —, da mesma maneira que é uma possibilidade humana aceitar o erro ou lançar-se num abismo.

Frithjof Schuon, O Homem no Universo, “Queda e decadência”, Ed. Perspectiva.

O amor a Deus é a base de toda caridade

Krishna e as gopis: uma das formas do amor a Deus.

Uma sociedade não apresenta nenhum valor em si mesma ou pelo simples fato de sua existência. Disso resulta que as virtudes sociais não são nada por si mesmas e fora do contexto espiritual que as orienta para nossos fins últimos. Pretender o contrário é falsificar a própria definição do homem e do humano.

A Lei suprema é o perfeito amor a Deus — amor que deve engajar todo o nosso ser, segundo a Escritura — e a segunda Lei, a do amor ao próximo, é “semelhante” à primeira; ora, “semelhante” não significa “equivalente”, nem, sobretudo, “superior”, mas “do mesmo espírito”: Cristo quer dizer que o amor a Deus se manifesta extrinsecamente pelo amor ao próximo, onde há um próximo, ou seja, que não podemos amar a Deus odiando nossos semelhantes.

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Viver neste mundo de acordo com a Eternidade

Taití c. 1910.

O monge ou o eremita, ou todo contemplativo, mesmo que seja um rei, vive como numa antecâmara do Céu; na própria terra e no corpo carnal, ele se ligou ao Céu e se fechou num prolongamento dessas cristalizações de Luz que são os estados celestes.

Compreende-se, assim, que religiosos possam ver na vida monástica seu “Paraíso na terra”; em suma, eles repousam na Vontade divina e, neste mundo, não esperam mais do que a morte, e, desta forma, eles já a atravessam. Eles vivem neste mundo de acordo com a Eternidade.

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Ninguém pode se privar das virtudes essenciais

O conjunto da inteligência e da vontade constitui o que poderíamos chamar de “capacidade”, seja qual for a sensibilidade moral e estética do indivíduo.

Do mesmo modo, o conjunto da sensibilidade e da vontade constitui o “caráter”, seja qual for a inteligência do indivíduo.

Do mesmo modo, ainda, o conjunto da inteligência e da sensibilidade constitui a “envergadura”, seja qual for a força de vontade do indivíduo.

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“Não desculpar o indesculpável”

A partir de um certo grau de perversão, não há mais circunstâncias atenuantes, precisamente porque esse grau abole aquelas que poderia haver. Não há jamais nenhuma desculpa para o elemento satânico, e procurar uma desculpa provém desse mesmo elemento; desculpar a infâmia é gravíssimo.

E é importante saber que o homem que se tornou perverso carrega sempre a total responsabilidade por sua baixeza ou sua decadência; o que quer dizer: a infâmia de um não pode nunca ser culpa de outros. Um trauma tem limites que permitem desculpas; a infâmia supera esses limites.

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Para o metafísico, é eficaz o que é verdadeiro

As religiões não tinham escolha: a cisão, no homem comum da “idade de ferro”, entre o intelecto e uma inteligência extravertida e superficial obrigava-as a tratar os adultos como crianças, sob pena de ineficácia psicológica, moral e social. As ideologias profanas, ao contrário, tratam como adultos homens tornados quase irresponsáveis por suas paixões e suas ilusões, o que equivale a dizer que elas os incitam a brincar com fogo; é bem fácil ver os resultados sinistros disso em nossa época.

No exoterismo religioso, a eficácia assume por vezes o lugar da verdade, e com razão, dada a natureza dos homens aos quais ele se dirige; em outros termos, para o teólogo voluntarista e moralista, é verdadeiro o que dará bom resultado; para o metafísico nato, ao contrário, é eficaz o que é verdadeiro; “não há direito superior ao da verdade”. Mas nem todo mundo é um “pneumático”, e é preciso equilibrar as sociedades e salvar as almas como for possível.


Frithjof Schuon, “O pensamento: luz e perversão”,
em A Transfiguração do Homem, Sapientia, 2008, pág. 18.

Uma intenção pode ser ao mesmo tempo boa e má?

“Não são as ações que importam em primeiro lugar, são as intenções, nos diz tanto a sabedoria tradicional quanto o senso comum; muito bem, mas é evidente que isso não poderia significar, como alguns imaginam, que se possa desculpar toda ação imperfeita, ou mesmo má, supondo que a intenção foi boa ou mesmo alegando que toda intenção é boa no fundo, unicamente por ser subjetiva e, segundo alguns, a subjetividade ter sempre razão.”

“É equivocadamente que Pascal atribui aos jesuítas a ideia de que ‘o fim santifica os meios’ — citamos a versão que se tornou proverbial —, pois, de fato, eles tinham tido o cuidado de especificar: com a condição de que os meios não sejam intrinsecamente viciosos; se esta reserva não fosse suficiente, não haveria legítima defesa possível.”

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O patriotismo natural é humilde e caridoso

O monastério de Pecherska Lavra, em Kyiv (Kiev), na Ucrânia. [Foto: Jean & Nathalie, Wikimedia Commons]

“Concretamente, a pátria é, não necessariamente um Estado, mas a terra, ou a paisagem, onde se nasceu, e o povo ou o grupo étnico ou cultural ao qual se pertence; não é senão natural que o homem ame sua ambiência de origem, assim como é natural, nas condições normais, que o homem ame seus pais ou que os esposos se amem reciprocamente e amem seus filhos; e não é menos natural que todo homem contribua, segundo sua função e seus meios, à defesa de seu país ou de seu povo quando eles são atacados.”

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A importância da pureza da inteligência

The Spirituality and Symbology of the Mandala - Kashgar

A qualificação intelectual reside muito menos na capacidade — sempre relativa e frequentemente ilusória — de compreender determinadas concepções metafísicas do que na qualidade puramente contemplativa da inteligência; essa qualidade implica a ausência de elementos passionais, não no homem, mas em seu espírito **. A pureza da inteligência é infinitamente mais importante do que sua capacidade efetiva: “Bem-aventurados os que têm o coração puro”, disse Cristo, e não: “aqueles que são inteligentes”.

O “coração” significa o intelecto, e por extensão a essência individual, a tendência fundamental, do homem; nos dois sentidos, ele é o centro do ser humano.


Schuon, Perspectives Spirituelles et Faits Humains, 1989, p. 102.

** Nota do editor: esprit, em francês, significa aqui o “pensamento”.

São Luís, Luís XIV e o sentido das formas exteriores

Vetores de Saint Louis Rei Da França Gravura 1894 e mais imagens de Luís IX  - iStock
São Luís, Rei de França.

Quando multiplicamos 3 por 4, o produto é 12; não é nem 11, nem 13, mas exprime exatamente as potências conjugadas do multiplicando e do multiplicador. Da mesma forma — metaforicamente falando —, quando se multiplica a religião cristã pela humanidade ocidental, o produto é a Idade Média; não é nem a época das invasões bárbaras, nem a do Renascimento. Quando um organismo vivo atingiu seu crescimento máximo, ele é o que ele deve ser; ele não deve nem deter-se no estado infantil, nem continuar a crescer. A norma não é a hipertrofia, ela é o limite exato do desenvolvimento normal. E o mesmo vale para as civilizações.

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A essência do ser humano é “natureza do Buda”

Quando se parte da ideia sumária — voltada unicamente para uma certa eficácia — de que o mundo  é impermanente  e nada mais, que ele é composto de “categorias” ou de “átomos” cambiantes e impermanentes e que só o Nirvana possui a permanência, esquece-se, estranhamente — a menos que se ache supérfluo pensar nisso — que seria impossível escapar à impermanência ou mesmo simplesmente conceber a ideia de impermanência e de libertação se não houvesse um elemento de permanência no impermanente ou de absolutez no relativo. Inversamente e a priori, é preciso que haja um elemento de relatividade no Absoluto, sem o que não existiriam nem o relativo, nem, com maior razão, a noção de relatividade e a saída do relativo; é o que mostra à sua maneira o símbolo do Yin-Yang, que mencionamos muitas vezes noutras ocasiões. 

Ora, esse elemento de absolutez ou de permanência no seio mesmo do contingente e do impermanente é precisamente nossa própria essência, que é “natureza do Buda”; recuperar nossa própria natureza fundamental é realizar a Permanência e escapar à “roda da existência”.

Frithjof Schuon, “Observações elementares sobre o enigma do Koan”, capítulo do livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur, Dervy Livres, Paris, 1974). Imagem: estátua de Buda em Gal Vihara, Sri Lanka. Foto de Bernard Gagnon, via Wikimedia Commons. #frithjofschuon #sophiaperennis