Escatologia universal

Ensaio que integra o livro Nos Caminhos da Religião Perene, de Frithjof Schuon | Todos os direitos reservados para World Wisdom Inc.  Proibida a reprodução total ou parcial esta obra sem autorização dos detentores dos direitos. | Tradução de Alberto Queiroz / Revisão de Adriana Bonadio e Alberto Queiroz. | Publicado no website FSchuon.net em dezembro de 2015. | Esta tradução portuguesa desta obra não foi publicada em papel.


 Índice

Página de rosto | Prefácio | Premissas epistemológicas | Dimensões, modos e graus da Ordem divina | Especulação confessional: intenções e impasses  | Obstáculos da linguagem da fé | Notas de tipologia religiosa | Enigma e mensagem de um esoterismo | Escatologia universal | Síntese e conclusão


Escatologia universal

A escatologia faz parte da cosmologia, e esta prolonga a metafísica, a qual se identifica essencialmente com a sophia perennis. Pode-se perguntar com que direito a escatologia pode fazer parte dessa sophia, dado que, epistemologicamente falando, a pura intelecção não parece revelar nossos destinos de além-túmulo, enquanto que ela nos revela os princípios universais; mas, na realidade, o conhecimento desses destinos é acessível graças ao conhecimento dos princípios, ou graças a sua justa aplicação. É, com efeito, em compreendendo a natureza profunda da subjetividade, e não exclusivamente por esta via exterior que é a Revelação [1], que podemos conhecer a imortalidade da alma, pois quem diz subjetividade total ou central – e não parcial e periférica como a dos animais – diz por isso mesmo capacidade de objetividade, intuição do Absoluto e imortalidade [2]. E dizer que somos imortais significa que já existíamos antes de nosso nascimento humano – pois o que não tem fim não poderia ter um começo – e, mais ainda, que estamos submetidos a ciclos; a vida é um ciclo, e nossa existência anterior teve, também ela, de ser um ciclo num encadeamento de ciclos. Nossa existência posterior também pode proceder por ciclos, ou seja, ela estará condenada a isso se não tivermos podido realizar a razão de ser do estado humano, que, sendo central, permite, precisamente, escapar da “ronda das existências”.

A condição humana é, com efeito, a porta para o Paraíso: para o Centro cósmico, que, mesmo fazendo parte do Universo manifestado, situa-se, não obstante – graças à proximidade magnética do Sol divino –, além da rotação dos mundos e dos destinos, e por isso mesmo além da “transmigração”. E é por isto que “o nascimento humano é difícil de alcançar”, segundo um texto hindu; basta, para se convencer disso, considerar a incomensurabilidade entre o ponto central e os inumeráveis pontos da periferia.

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Há almas que, plena ou suficientemente conformes à vocação humana, entram diretamente no Paraíso: são quer os santos, quer os santificados. No primeiro caso, são as grandes almas iluminadas pelo Sol divino e dispensadoras de raios benfazejos; no segundo caso, são as almas que, não tendo nem defeitos de caráter, nem tendências mundanas, estão livres – ou foram libertadas – de pecados mortais, e santificadas pela ação sobrenatural de meios de graça de que elas fizeram seu viático. Entre os santos e os santificados há sem dúvida possibilidades intermediárias, mas só Deus é juiz de sua posição e de seu nível.

Contudo, entre os santificados – os salvos pela santificação ao mesmo tempo natural e sobrenatural [3]–, há os que não são suficientemente perfeitos para poder entrar diretamente no Paraíso; eles esperarão sua maturidade num lugar que os teólogos chamaram de “prisão honorável”, mas que, na opinião dos Amidistas, é mais que isso, pois, dizem eles, esse lugar se situa no próprio Paraíso; eles o comparam a um botão de lótus dourado, o qual se abre quando a alma está madura. Esse estado corresponde ao “limbo dos patriarcas” (limbus = “orla”) da doutrina católica: os justos da “Antiga Aliança”, segundo esta perspectiva muito particular, nele se encontravam antes da “descida aos infernos” do Cristo-Salvador [4]; concepção antes de tudo simbólica e muito simplificadora; mas perfeitamente adequada quanto ao princípio, e mesmo literalmente verdadeira em casos que não temos de definir aqui, dada a complexidade do problema.

Depois do “lótus”, devemos considerar o “purgatório” propriamente dito: a alma fiel à sua vocação humana, ou seja, sincera e perseverante em seus deveres morais e espirituais, não pode cair no inferno, mas pode passar, antes de aceder ao Paraíso, por este estado intermediário e doloroso que a doutrina católica chama de “purgatório”: ela deve passar por ele se tem defeitos de caráter, ou se tem tendências mundanas, ou se está carregada com um pecado que ela não pôde compensar nem com sua atitude moral e espiritual, nem pela graça de um meio sacramental. Segundo a doutrina islâmica, o “purgatório” é uma estada passageira no inferno: Deus salva do fogo “quem Ele quer”, o que quer dizer que só Ele é o juiz dos imponderáveis de nossa natureza; ou, dito de outro modo, só Ele sabe qual é nossa possibilidade fundamental ou nossa substância. Se há confissões cristãs que negam o purgatório, é, no fundo, pela mesma razão: porque as almas daqueles que não estão danados, e que ipso facto estão destinados à salvação, estão nas mãos de Deus e só a Ele dizem respeito.

No que tange ao Paraíso, é preciso abordar aqui suas regiões “horizontais” tanto quanto seus graus “verticais”: as primeiras correspondem a setores circulares, e os segundos, a círculos concêntricos. As primeiras separam os diversos mundos religiosos ou confessionais, e os segundos, os diversos graus em cada um desses mundos: por um lado, o Brahma-Loka dos hindus, por exemplo, que é um local de salvação como o Céu dos Cristãos, não coincide, no entanto, com este último [5]; e, por outro lado, num mesmo Paraíso, o local de Beatitude dos santos modestos ou dos “santificados” não é o mesmo que o dos grandes santos. “Há muitas moradas na casa de meu Pai” [6], sem que haja, contudo, separações estanques entre os diversos graus, pois a “comunhão dos santos” faz parte da Beatitude [7]; e também não é o caso de admitir que não haja nenhuma comunicação possível entre os diversos setores religiosos, no plano esotérico, em que ela pode ter um sentido [8].

Antes de ir mais longe, e no que tange à escatologia em geral, gostaríamos de fazer a seguinte observação: sustentou-se, com frequência, que nem o Confucionismo, nem o Xintoísmo admitem expressamente as ideias de Além e de imortalidade, o que não significa nada, pois que eles têm o culto dos ancestrais; se não houvesse pós-vida, esse culto não teria nenhum sentido, e não haveria nenhum motivo para um imperador do Japão ir informar solenemente as almas dos imperadores defuntos de tal ou tal acontecimento. Sabe-se, de resto, que uma das características das tradições de tipo xamanista é a parcimônia – não a ausência total – das informações escatológicas.

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É preciso que abordemos, agora, por um lado a possibilidade infernal, a qual mantém a alma no estado humano, e por outro lado certas possibilidades de “transmigração”, as quais, ao contrário, fazem-na sair dele. Rigorosamente falando, também o inferno é, no fim das contas, uma fase da transmigração, mas, antes de liberar a alma para outras fases ou outros estados, ele a aprisiona “perpetuamente”, mas não “eternamente”; a eternidade só pertence a Deus e, de certa maneira, ao Paraíso em virtude de um mistério de participação na Imutabilidade divina. O inferno cristaliza uma queda vertical; ele é “invencível” porque ele dura até o esgotamento de um certo ciclo de que só Deus conhece a extensão. Entram no inferno não aqueles que pecaram acidentalmente, com sua “casca”, por assim dizer, mas aqueles que pecaram substancialmente ou com seu “núcleo”, e essa é uma distinção que pode não ser perceptível desde fora; são, em todo caso, os orgulhosos, os maus, os hipócritas, portanto todos aqueles que são o contrário dos santos e dos santificados.

Exotericamente falando, o homem é danado porque ele não aceita determinada Revelação, determinada Verdade, e não obedece a determinada Lei; esotericamente, ele se dana a si mesmo porque ele não aceita sua própria Natureza fundamental e primordial, a qual lhe dita determinado conhecimento e determinado comportamento [9]. A Revelação não é senão a manifestação objetiva e simbólica da Luz que o homem traz em si mesmo, no fundo de seu ser; ela não faz senão lembrar-lhe o que ele é, e o que ele deveria ser dado que ele esqueceu o que ele é. Se todas as almas humanas, antes de sua criação, devem atestar que Deus é seu Senhor – de acordo com o Alcorão [10] –, é porque elas sabem “preexistencialmente” o que é a Norma; existir é, para a criatura humana, saber “visceralmente” o que é o Ser, a Verdade, a Lei; o pecado fundamental é um suicídio da alma.

Resta-nos falar de outra possibilidade de sobrevida, a saber, a “transmigração” [11], a qual fica totalmente fora da “esfera de interesse” do Monoteísmo semítico, que é uma espécie de “nacionalismo da condição humana” e por esta razão só leva em conta o que diz respeito ao ser humano enquanto tal. Fora do estado humano, e sem falar dos anjos e dos demônios [12], só há para esta perspectiva uma espécie de nada; ser excluído da condição humana equivale, para o Monoteísmo, à danação. Contudo, há, entre esta maneira de ver e a dos transmigracionistas – particularmente os hindus e os budistas – um ponto de junção, que é a noção católica do “limbo das crianças”, onde se considera que permaneçam, sem sofrer, as crianças mortas sem batismo; ora, este lugar, ou esta condição, não é senão a transmigração, em mundos que não o nosso e por consequência através de estados não-humanos, inferiores ou superiores, conforme o caso [13]. “Pois larga é a porta e amplo o caminho que leva à perdição, e numerosos são os que entram por ela”: como, por um lado, Cristo não pode querer dizer que a maior parte dos homens vão para o inferno, e como, por outro lado, a “perdição”, em linguagem monoteísta e semítica, significa também a saída do estado humano, deve-se concluir que a palavra citada diz respeito de fato à massa dos fracos e dos mundanos, que ignoram o amor a Deus – incluindo aqueles entre os descrentes que se beneficiam de circunstâncias atenuantes – e que merecem, se não o inferno, ao menos a expulsão desse estado privilegiado que é o homem; privilegiado porque dando imediatamente acesso à Imortalidade paradisíaca. De resto, os “paganismos” só ofereciam o acesso aos Campos Elíseos ou às Ilhas dos Bem-aventurados aos iniciados nos Mistérios, não à massa dos profanos; e o caso das religiões “transmigracionistas” é mais ou menos similar. O fato de que a transmigração a partir do estado humano comece quase sempre por uma espécie de purgatório reforça evidentemente a imagem de uma “perdição”, ou seja, de uma desgraça definitiva do ponto de vista humano.

O batismo dos recém-nascidos tem por objetivo – além de sua finalidade intrínseca – salvá-los dessa desgraça, e ele tem de facto por efeito mantê-los, em caso de falecimento, no estado humano, que, em seu caso, será um estado paradisíaco, de modo que o resultado prático – visado pelo “nacionalismo do estado humano” – coincide com a finalidade que visa o sacramento para os adultos; e é com a mesma motivação que os muçulmanos pronunciam no ouvido dos recém-nascidos o Testemunho de Fé, o que, de resto, evoca todo o mistério da potência sacramental do Mantra. A intenção é inversa no caso muito particular da transmigração voluntária dos bodhisattvas, a qual só passa por estados “centrais”, portanto análogos ao estado humano; pois o bodhisattva não quer se manter na “prisão dourada” do Paraíso humano, mas quer, ao contrário, poder irradiar em mundos não-humanos até o fim do grande ciclo cósmico. Trata-se aí de uma possibilidade que a perspectiva monoteísta exclui e que é mesmo característica do Budismo Mahâyana, sem com isso se impor a todos os mahâyânistas, mesmo que fossem santos; os amidistas, particularmente, só aspiram ao Paraíso de Amitâbha, o qual equivale na prática ao Brahma-Loka hindu e ao Paraíso das religiões monoteístas, e que é considerado, não como um “impasse celeste”, se assim se pode dizer, mas, muito ao contrário, como uma virtualidade do Nirvâna.

Não podemos passar sob silêncio aqui outro aspecto do problema dos destinos de além-túmulo; é o seguinte: a teologia – islâmica tanto quanto cristã – ensina que os animais estão compreendidos na “ressurreição da carne” [14]: mas, enquanto que os homens são enviados quer ao Paraíso, quer ao inferno, os animais serão reduzidos ao estado de poeira, pois se considera que não têm “alma imortal”; esta opinião se baseia no fato de que nos animais o Intelecto não se encontra actualizado, de onde a ausência da faculdade racional e da linguagem. Na realidade, a situação infra-humana dos animais não poderia significar que eles não têm subjetividade submetida à lei do karma e comprometida na “ronda dos nascimentos e das mortes” [15]; isto diz respeito, também, não a tal ou qual planta isolada, sem dúvida, mas às espécies vegetais, cada uma das quais corresponde a uma individualidade, sem que se possa discernir quais são os limites da espécie e quais grupos constituem simplesmente modos dela.

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Distinguimos aqui cinco saídas póstumas da vida humana terrestre: o Paraíso, o limbo-lótus, o purgatório, o limbo-transmigração e o inferno. As três primeiras saídas mantêm o estado humano; a quarta faz sair dele; a quinta o mantém para no final fazer sair dele. O Paraíso e o lótus estão além do sofrimento; o purgatório e o inferno são estados de sofrimento em diversos graus; a transmigração não é necessariamente sofredora no caso dos bodhisattvas, mas é uma mescla de prazer e de dor nos outros casos. Ou então: há duas esperas do Paraíso, uma doce e uma rigorosa, a saber, o lótus e o purgatório; e há duas exclusões do Paraíso, também uma doce e uma rigorosa, a saber, a transmigração e o inferno; nestes dois casos, há perda da condição humana, seja imediatamente, no caso da transmigração, seja no fim das contas, no caso do inferno. Quanto ao Paraíso, ele é o ápice bem-aventurado do estado do homem, e ele não tem, propriamente falando, contrário simétrico, a despeito das esquematizações simplificadoras de intenção moral [16]; pois o Absoluto, do qual deriva “por adoção” o Mundo celeste, não tem oposto, a não ser em aparência.

A eternidade só pertence a Deus, dissemos; mas também evocamos, por alusão, o fato de que o que se chama “eternidade” no caso do inferno não poderia coincidir com o que se pode chamar assim no caso do Paraíso, pois não há simetria entre essas duas ordens, uma alimentando-se da ilusão cósmica e a outra, da Proximidade divina. A perenidade paradisíaca nem por isso deixa de ser relativa, e ela forçosamente o é no sentido de que ela desemboca na Apocatástase, pela qual todos os fenômenos positivos retornam a seus Arquétipos in divinis; no que não poderia haver nenhuma perda ou privação, em primeiro porque Deus jamais faz menos do que Ele promete, ou não promete jamais mais do que Ele faz, e depois – ou antes, acima de tudo – por causa da Plenitude divina, que não poderia carecer de nada.

Considerado sob este aspecto, o Paraíso é realmente eterno [17]; o fim do mundo “manifestado” e “extra-principial” não é uma cessação senão do ponto de vista das limitações manifestantes, mas não do da Realidade intrínseca e total, que, ao contrário, permite aos seres voltarem a ser “infinitamente” o que eles são em seus Arquétipos e em sua Essência una.

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Todas as nossas precedentes considerações poderiam parecer arbitrárias e imaginativas no mais alto grau a quem se apega a essa imensa simplificação que é a perspectiva cientificista, mas elas se tornam, ao contrário, plausíveis quando, por um lado, reconhece-se a autoridade dos diversos dados tradicionais – e não temos de voltar aqui à fundamentação dessa autoridade, a qual coincide com a própria natureza desse fenômeno “naturalmente sobrenatural” que é a Tradição sob todas as suas formas – e, por outro lado, sabe-se tirar da subjetividade humana todas as consequências próximas e longínquas que ela implica. É precisamente essa subjetividade – mistério fulgurante de evidência – que os filósofos modernos, incluindo aí os mais pretensiosos dos psicólogos, jamais apreenderam nem quiseram apreender, e não há nisso nada de surpreendente, pois que ela oferece a chave tanto para as verdades metafísicas como para as experiências místicas, umas como as outras exigindo tudo o que somos.

“Conhece-te a ti mesmo”, dizia a inscrição do templo de Delfos [18]; é também o que exprime este hadîth: “Quem conhece sua alma, conhece seu senhor”; e da mesma forma o Veda: “Tu és Isso”; a saber, Atmâ, o Si ao mesmo tempo transcendente e imanente, o qual se projeta em miríades de subjetividades relativas; submetidas, elas, a ciclos bem como a localizações, e estendendo-se da menor flor até esta Manifestação divina direta que é o Avatâra.


Notas

[1] Ainda que esta constitua sempre a causa ocasional, ou a condição inicial, da intelecção correspondente.

[2] Como demonstramos em outras ocasiões, sobretudo em nosso livro Du Divin à l’humain, no capítulo “Conséquences découlant du mystère de la subjectivité”.

[3] Isto não é uma contradição, pois a natureza específica do homem comporta por definição elementos disponíveis de sobrenaturalidade.

[4] É neste local que Dante coloca de facto – tudo bem considerado – os sábios e os herois da Antiguidade, ainda que ele os associe ao Inferno, por razões de teologia, dado que foram “pagãos”.

[5] Aqueles entre os Paraísos hindus de que se é expulso após o esgotamento do “bom karma” são locais não de salvação, mas de recompensa passageira; locais “periféricos” e não “centrais”, e situados fora do estado humano, pois que fazem parte da transmigração.

[6] Esta palavra comporta também, e implicitamente, uma referência esotérica aos setores celestes das diversas religiões.

[7] E especifiquemos que, se há nos Paraísos graus, há também ritmos, o que o Alcorão exprime ao dizer que os bem-aventurados terão seu alimento “de manhã e de noite”. De resto, não há mundo sem níveis hierárquicos nem ciclos, ou seja, sem “espaço” nem “tempo”.

[8] Essa possibilidade de comunicação interreligiosa também tem um sentido, evidentemente, quando um mesmo personagem ao mesmo tempo histórico e celeste aparece em religiões diferentes, como é o caso dos Profetas bíblicos; ainda que suas funções sejam então diferentes conforme a religião em que eles se manifestem.

[9] “Deus não prejudica os homens, mas os homens se prejudicam a si mesmos.” (Alcorão, Surata “Yûnus”, 44.)

[10] “E quando teu Senhor tirou uma descendência dos rins dos filhos de Adão, e Ele os fez testemunhar contra eles mesmos: Não sou Eu vosso Senhor?, eles disseram: Sim, damos testemunho disso. (E isto) a fim de que vós não digais, no Dia da Ressurreição: Estávamos inconscientes disso. Ou que não digais: Nossos ancestrais deram outrora associados (a Deus); (ora) nós somos seus descendentes…” (Surata “As Elevações”, 172 e 173). – Essas criaturas preexistenciais são as possibilidades individuais contidas necessariamente na Onipossibilidade e chamadas à Existência – não produzidas por uma Vontade moral – pela Irradiação existenciante.

[11] Não confundir com a metempsicose, onde elementos psíquicos em princípio perecíveis de um morto se inserem na alma de um vivo, o que pode dar a ilusão de uma “reencarnação”. O fenômeno é benéfico ou maléfico, conforme se trate de um psiquismo bom ou mau; de um santo ou de um pecador.

[12] O Islã admite também os djinn, os “espíritos”, como os gênios dos elementos – gnomos, ondinas, silvanos, salamandras – e também outras criaturas imateriais, ligadas por vezes a montanhas, cavernas, árvores, por vezes a santuários; que intervêm na magia branca ou negra, ou seja, quer no xamanismo terapêutico, quer na bruxaria.

[13] Quer “periféricos”, quer “centrais”: análogos ao estado dos animais, no primeiro caso, e ao dos homens, no segundo; o fato de que há algo de absoluto no estado humano – como há algo de absoluto no ponto geométrico – exclui, aliás, a hipótese evolucionista e transformista. Como as criaturas terrestres, os anjos são, também eles, quer “periféricos”, quer “centrais”: quer personifiquem determinada Qualidade divina, que lhes confere ao mesmo tempo determinada perfeição e determinada limitação, quer reflitam o próprio Ser divino, e então eles, no fundo, não são senão um: é o “Espírito de Deus”, o Logos celeste, que se polariza em Arcanjos e que inspira os Profetas.

[14] A morte corporal e a separação subsequente do corpo e da alma são a consequência da queda do primeiro casal humano; situação provisória que será reparada no fim deste ciclo cósmico, a não ser para alguns seres privilegiados – como Enoque, Elias, o Cristo e a Virgem – que subiram ao Céu com seu corpo, então “transfigurado”.

[15] No Sufismo, admite-se “não oficialmente” que tal ou qual animal particularmente abençoado tenha podido seguir seu mestre ao Paraíso, cheio como estava de uma barakah de força maior; o que, tudo considerado, não tem nada de inverossímil. Quanto à questão de saber se há animais no Céu, não poderíamos negá-lo, e isto porque o mundo animal, como o mundo vegetal que constitui o “Jardim” (Jannah) celeste, faz parte da ambiência humana natural; mas os animais paradisíacos, assim como as plantas do “Jardim”, não têm de vir do mundo terrestre. Segundo os teólogos muçulmanos, as plantas e os animais do Céu foram criados ali mesmo e para os eleitos, o que equivale a dizer que eles são de substância quase angélica; “e Deus é mais sábio”.

[16] O “face-a-face” cósmico inverso do Paraíso é, não o inferno somente, mas também a transmigração, o que a transcendência e a independência do primeiro ilustram. Acrescentemos que há ahâdith que atestam o desaparecimento – ou a vacuidade final – do inferno; “crescerá nele o agrião”, teria dito o Profeta, e também que Deus perdoará ao último dos pecadores.

[17] O que indica, aliás, em Sufismo, a expressão “Jardim da Essência”, Jannat adh-Dhât; o qual transcende divinamente os “Jardins das Qualidades”, Jannat aç-Çifât.

[18] Formulada por Tales e depois comentada por Sócrates.