Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma única Revelação, uma única Tradição possível? A esta questão respondemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição; ora, quem diz forma, diz diversidade, portanto pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação. O que entra na forma, entra também no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinidade da Possibilidade divina — confere a essa repetição a diversidade. Continuar lendo
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O amor, a mulher, a música

Fundamentalmente, todo amor é uma busca da Essência ou do Paraíso perdido; a melancolia doce ou potente que intervém frequentemente no erotismo poético ou musical manifesta essa nostalgia de um Paraíso longínquo e sem dúvida também da evanescência dos sonhos terrestres, cuja doçura, precisamente, é a de um Paraíso que não mais percebemos, ou que ainda não percebemos. Os violinos ciganos evocam não somente os altos e baixos de um amor demasiado humano, eles cantam também, em seus acentos mais profundos e mais pungentes, a sede desse vinho celeste que é a essência da Beleza; toda música erótica reencontra, na medida de sua autenticidade e de sua nobreza, os sons ao mesmo tempo encantatórios e liberadores da flauta de Krishna. (*) Continuar lendo
A virtude espiritual é uma forma de objetividade
Se nos perguntassem — de encontro à evidência das coisas — o que tem a ver a virtude com as questões de realização espiritual, portanto de técnica rigorosa e extra-individual, responderíamos o que se segue, colocando-nos no mesmo ponto de vista estritamente prático: a realização espiritual impõe à alma uma imensa desproporção, pelo fato de que ela introduz a presença do sagrado nas trevas da imperfeição humana; ora, isso provoca fatalmente reações desequilibrantes que comportam em princípio o risco de uma queda irremediável, reações que a beleza moral, combinada com as graças que ela atrai por própria sua natureza, pode grandemente impedir ou atenuar. É precisamente essa beleza que os diletantes ambiciosos e desprovidos de imaginação creem poder desdenhar, pois eles não veem nela senão um sentimentalismo alheio ao que eles creem ser a técnica realizadora; no entanto, quando a alma se vê como suspensa entre dois mundos, um já perdido e o outro ainda não atingido, só uma virtude fundamental e a graça podem salvá-la da vertigem, e só essa virtude a imuniza logo de vez contra as tentações e as desviações.
No plano da alquimia espiritual, é importante não confundir uma moralidade puramente extrínseca com a virtude intrínseca — esta podendo de resto parecer amoral em certos casos —, nem uma virtude natural de envergadura fraca com uma virtude profundamente enraizada no coração e englobando a alma inteira. É importante compreender antes de tudo este princípio: é intrinsecamente moral o que, mesmo comportando um benefício num grau qualquer, não prejudica ninguém; é intrinsecamente imoral o que, sem ser proveitoso a ninguém, prejudica outros ou a nós mesmos; sempre levando em conta a hierarquia de valores.
As virtudes, por um lado, favorecem ou mesmo condicionam as atitudes contemplativas e, por outro, resultam delas na medida em que essas atitudes são sinceras. Uma virtude é profunda na medida em que ela coincide com uma superação de si, a qual é sinônimo de objetividade, de imparcialidade fundamental, de serenidade já celeste. Pois o virtuoso é virtuoso porque sua inteligência e sua sensibilidade percebem o próprio ser das coisas.
Frithjof Schuon, L’Esoterisme comme Principe et comme Voie (O Esoterismo como Princípio e como Via), Dervy-Livres, Paris, 1978, pp. 109-110.
A ciência moderna ignora o que são a inteligência, a existência, o ser humano
A ciência moderna, que é racionalista quanto ao sujeito e materialista quanto ao objeto, pode nos situar fisicamente e de uma maneira aproximativa, mas ela não pode dizer nada sobre nossa situação extra-espacial no Universo total e real. Os astrônomos sabem mais ou menos onde nos encontramos no espaço, em que “lugar” relativo, em qual braço periférico da Via Láctea, e eles sabem talvez onde esta se situa entre as outras poeiras de estrelas; mas eles ignoram onde estamos nos “espaço” existencial: a saber, num estado de endurecimento e no centro ou no cume deste, e ao mesmo tempo na borda de uma imensa “rotação”, a qual não é senão a corrente das formas, o escoamento “samsárico” dos fenômenos, o panta rhei de Heráclito. A ciência profana, querendo penetrar até o fundo do mistério dos recipientes — o espaço, o tempo, a matéria, a energia —, esquece o dos conteúdos: ela quer explicar as propriedades quintessenciais de nosso corpo e o funcionamento íntimo de nossa alma, mas ela ignora o que são a inteligência e a existência; e, por consequência, ela não pode não ignorar — dados os seus princípios — o que é o homem.
(Frithjof Schuon, O Homem no Universo)
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La science moderne, qui est rationaliste quant au sujet et matérialiste quant à l’objet, peut nous situer physiquement, et d’une façon approximative, mais elle ne peut rien dire sur notre situation extra-spatiale dans l’Univers total et réel. Les astronomes savent à peu près où nous nous trouvons dans l’espace, à quel « endroit » relatif, dans quel bras périphérique de la Voie Lactée, et ils savent peut-être où celle-ci se situe parmi les autres poussières d’étoiles ; mais ils ignorent où nous sommes dans l’« espace » existentiel : à savoir dans un état de durcissement et au centre ou au sommet de celui-ci, et en même temps au bord d’une immense « rotation », laquelle n’est autre que le courant des formes, l’écoulement « samsârique » des phénomènes, le panta rhei d’Héraclite. La science profane, en voulant percer à fond le mystère des contenants – l’espace, le temps, la matière, l’énergie – oublie celui des contenus : elle veut expliquer les propriétés quintessentielles de notre corps et le fonctionnement intime de notre âme, mais elle ignore ce qu’est l’intelligence et l’existence ; et par conséquent, elle ne peut pas ne pas ignorer – vu ses principes – ce qu’est l’homme.
(Frithjof Schuon, Regards sur les Mondes Anciens)
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Modern science, which is rationalist as to its subject and materialist as to its object, can describe our situation physically and approximately, but it can tell us nothing about our extra-spatial situation in the total and real Universe. Astronomers know more or less where we are in space, in what relative “place”, in which of the peripheral arms of the Milky Way, and they may perhaps know where the Milky Way is situated among the other assemblages of stardust; but they do not know where we are in existential “space”, namely, in a state of hardness and at the center or summit thereof, and that we are simultaneously on the edge of an immense “rotation”, which is not other than the current of forms, the “samsaric” flow of phenomena, the panta rhei of Heraclitus. Profane science, in seeking to pierce to its depth the mystery of the things that contain — space, time, matter, energy — forget the mystery of the things that are contained: it tries to explain the quintessential properties of our bodies and the intimate functioning of our souls, but it does not know what intelligence and existence are; consequently, given what its “principles” are, it cannot be otherwise than ignorant of what man is.
(Frithjof Schuon, Light on the Ancient Worlds)
A absurdez que nos cerca
“Uma das coisas mais difíceis de suportar é a absurdez humana; aceitá-la a título de necessidade ontológica faz parte do Islã. Há pessoas que acreditam que é virtuoso não ver o mal e fingir que o preto é branco, o que é a própria negação da inteligência; na realidade, trata-se de discernir exatamente entre o bem e o mal ao mesmo tempo em que se se resigna, não ao mal enquanto tal, mas à existência metafisicamente inevitável do mal. Tudo isto é evidente, mas eu o escrevo porque o espetáculo do mal faz sofrer e porque já é algo de santidade saber combinar um discernimento implacável com uma serenidade inalterável; a qual não exclui, aliás, a santa cólera, diga-se de passagem.”
Frithjof Schuon, carta de 7 de fevereiro de 1980.
Três extratos de Schuon sobre a Virgem
K.I. escreve que há muitos santuários cristãos na India que são visitados por hindus. Isso não tem nada de surpreendente; é um aspecto do espírito hindu, baseado na Bhagavadgîtâ: “Sob qualquer forma que vós me adoreis, diz Krishna, é sempre a Mim que adorais.” Se hindus obtêm graças em tais lugares, são graças hindus; é o Céu hindu que atende às orações através de uma forma cristã ou outra. Fazendo-se exceção para a Virgem Santíssima, que pode ela mesma atender a um hindu se ela quer. […]
A Virgem Santíssima não é fundadora de religião, seu caso é portanto diferente do do Cristo; e como ela é — em linguagem hindu — uma encarnação plena e direta de Shrî Lakshmî, ou da Shakti enquanto tal, portanto também de Sarasvatî ou de Pârvatî, ela pode irradiar além das formas; é portanto concebível que ela atenda diretamente as preces dos hindus, dada a atitude característica deles baseada na Bhagavadgîtâ e em outros Textos sagrados.
[Carta de 22 de junho de 1970.]
Já me perguntaram mais de uma vez sobre a função respectiva do Logos masculino e do Logos feminino. Ora, o Cristo é a “Via” e a Virgem é o “Lugar”; ele é o Sacrifício e ela é o Templo. Eu poderia também dizer, o mais concretamente possível, que o Cristo personifica as Perfeições espirituais, enquanto que a Virgem Santíssima personifica o Retiro; ela é o ambiente santo sem o qual não há floração. Isto eu sei por experiência; a graça marial exclui toda curiosidade mundana e toda dissipação alienante; ela é como uma aura pura e bem-aventurada que nos acompanha em toda parte e de que não devemos sair. E isto não deixa de ter relação com o simbolismo de seu véu ou de seu manto, que protege e que é o abrigo dos santos.
[Carta 24 de de novembro de 1980]
A Virgem Santíssima personifica a beleza do Céu, ela é algo da Beleza de Deus.
[Carta de 4 de maio de 1971]
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Publico estes três extratos de cartas de Frithjof Schuon em função dos 300 anos, completados hoje, de Nossa Senhora Aparecida, Padroeira do Brasil.
Ao moldar a obra, o artista tradicional molda a si mesmo

A arte tradicional provém de uma criatividade que combina uma inspiração celeste com um gênio étnico, e isto à maneira de uma ciência que inclui regras, não de uma improvisação individual; ars sine scientia nihil. Continuar lendo
Convém ser prudente ao julgar fenômenos de outros mundos religiosos
(…) cada religião possui uma aura energética — uma barakah — que produz fenômenos em conformidade com a perspectiva da religião considerada: num ambiente sufi, fenômenos miraculosos se produzem — ou são produzidos — que corroboram sobrenaturalmente a perspectiva que descrevemos [no que precede este extrato], a saber, a confiança na Causa divina única, e que encorajam eventualmente que se recorra a atitudes em grande parte irrazoáveis, mas heroicamente piedosas. Muitos fatos desse gênero parecem inverossímeis do ponto de vista cristão, mas é porque o estilo do Cristianismo é outro e produz, por consequência, outros prodígios; além disso, convêm ser prudente ao julgar fenômenos que se situam num mundo religioso que não o nosso, e cuja aparente inverossimilhança só faz ilustrar de uma maneira particularmente concreta a diferença profunda entre os universos tradicionais.
Frithjof Schuon, Approches du Phénomème Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 136.
A sexualidade deve englobar a devoção e a verdade

Em ambiente cristão, a sexualidade em si, portanto isolada de todo contexto que a distorça, é carregada facilmente com o opróbrio da “bestialidade”, enquanto que na realidade nada do que é humano é bestial por sua natureza; é por isso que somos homens e não animais. Contudo, para escapar à animalidade da qual participamos é preciso que nossas atitudes sejam integralmente humanas, ou seja, conformes à norma que nos impõe nossa deiformidade; elas devem englobar nossa alma e nosso espírito, ou, em outros termos, a devoção e a verdade. De resto, só é bestial a paixão cega do homem caído, não a sexualidade inocente dos animais; quando o homem se reduz a sua animalidade, ele se torna pior do que os animais, que não traem nenhuma vocação e não violam nenhuma norma.
Frithjof Schuon, L’Ésotérisme comme principe et comme voie, Dervy-Livres, Paris, 1978, p. 126.
O fervor, a Virgem, a luz
A qualidade de fervor é, com efeito, a disposição da alma que incita ao cumprimento do que chamaremos de “dever espiritual”; se este se impõe por uma lei exterior, é porque ele se impõe interiormente e a priori por nossa “natureza sobrenatural”; um hindu diria que é nosso dharma libertar nossa alma, como é o dharma da água correr ou o do fogo, queimar. Essa lei imanente, no Islã, se manifesta sob a forma da “lembrança de Deus” (dhikru ‘Llâh); ora, o Alcorão especifica que é preciso lembrar-se de Deus “muito” (dhikran kathîran) — o Novo Testamento diz “sem se cansar” — e é essa frequência ou essa assiduidade, junto com a sinceridade do ato de oração, que constitui a qualidade de fervor.
[Nota a esta passagem:]
“Ó Maryam, permanece em oração diante de teu Senhor; prosterna-te e inclina-te com aqueles que se inclinam.” (Sura A Família de Imrân, 43.) É nestes termos que o Alcorão apresenta o fervor como fazendo parte da própria substância de Maria, o Mandamento divino sendo, aqui, não uma ordem dada a posteriori, mas uma determinação existencial. A notar que a Virgem Santa é Stella Matutina, o que se liga ao Leste, que, em nosso simbolismo, indica o fervor. À parte esta significação particular, o Leste exprime a vinda da luz, e é assim que a tradição cristã entende o título marial de “Estrela da Manhã”; ora, o fervor é função da luz como esta e o calor, em princípio, formam um par.
(Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, p. 168.)
A ideia-força do Islã
“A ideia-força do Islã é o conceito da Unidade; este determina não somente a doutrina e a organização da sociedade, mas também toda a vida dos indivíduos e em particular sua piedade, a qual não se deixa, aliás, dissociar dos comportamentos legais deles. Trata-se, não somente de aceitar a ideia de Unidade, mas também de tirar dela todas as consequências que ela implica para o homem; ou seja, é preciso aceitá-la ‘com fé’ e ‘sinceridade’ a fim de se beneficiar da virtude salvadora que ela contém. Isto quer dizer que, em última análise, a ideia de Unidade implica fundamentalmente o mistério da União; assim como, numa ordem de ideias vizinha, a Unicidade implica complementarmente a Totalidade. Quem pode apreender o ponto geométrico pode apreender o espaço inteiro; a unicidade do objeto divino exige a totalidade do sujeito humano.”
[Frithjof Schuon, Approches du Phénomène Religieux, Le Courrier du Livre, Paris, 1984, pp. 161-162]
A beleza também leva a Deus
Mencionamos (…) o isolamento do homem-centro em face da absurdez do mundo; ora, o fato de que seus comportamentos são eventualmente os mesmos que os do homem-periferia poderia dar a impressão de uma solidariedade com a ambiência mundana, mas essa é uma aparência enganosa, dado que maneiras de agir semelhantes podem esconder intenções dissemelhantes. Além de que o homem superior pode se mostrar “como os outros” para mascarar sua superioridade [1], precisamente — quer por caridade, quer por “instinto de conservação” —, há isto a considerar, e é o essencial: no homem contemplativo, o prazer não incha a individualidade, ele, ao contrário, convida a uma dilatação transpessoal, de modo que a “consolação sensível” dá lugar a uma abertura para o alto e não a um inchaço para baixo. Uma graça análoga intervém, aliás, em todo crente sincero quando ele aborda o prazer “em Nome de Deus” e se abre, assim, à Misericórdia: ele “convida” Deus e ao mesmo tempo busca refúgio junto a ele.
Extrinsecamente — em relação à fraqueza humana —, a norma moral pode ser “contra a natureza”; intrinsecamente, ela não o poderia ser. “Eles não têm vinho”, disse Maria nas bodas de Caná, com uma intenção que não podia se limitar à “carne”, não mais do que os simbolismos do Cântico dos Cânticos ou do Gîta Govinda. A ascese é útil ou necessária ao homem tal como ele é feito — ao homem excluído dos Paraísos terrestre e celeste —, mas a perspectiva ascética não poderia com isso ter o apanágio da verdade total, nem, por consequência, da legitimidade pura e simples. Os partidários de um ascetismo desconfiado ignoram usualmente que “il y a fagot et fagot”, como diria Molière: sem dúvida, toda diversão é um prazer, mas disso não se segue que todo prazer seja uma diversão, sem o que todo casamento seria coisa frívola, incluindo as bodas de Caná.
Levam a Deus não somente a verdade, o mérito e o sacrifício, mas também a beleza; a própria criação dá testemunho disso, e depois a arte sacra, incluindo a liturgia, as formas do culto. Afastam de Deus não somente o erro, o crime e a luxúria, mas também a feiura; não quando ela é acidental, pois então ela é neutra [2], mas quando é desejada e produzida, como é o caso deste universo de feiura organizada e desesperante que é o mundo moderno. De resto, o vício é uma espécie de feiura, como a virtude é uma espécie de beleza; “és toda bela, minha amada, não há nenhum vício em ti.”
A deiformidade do homem implica a beleza moral, nem que seja — de facto — a título de potencialidade. O pneumático é o homem que se identifica a priori a sua substância espiritual e por consequência permanece sempre fiel a si mesmo; ele não é uma máscara que ignora quem a porta, como o é o homem encerrado nos acidentes.
(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, pp 46-48.)
[1] O mestre está ensinando a nós, homens comuns, como se comportam os verdadeiros espirituais. (N. do T.)
[2] E neutralizada por um contexto de beleza; é esse, sob certo aspecto, o sentido das quimeras sobre as catedrais. Por outro lado, não se censura a um homem o ser feio, mas pode-se censurar-lhe a feiura de sua expressão.
“O sentimento do adversário é o critério do verdadeiro e do falso”
Um extrato de Frithjof Schuon escrito em 1968, quando os efeitos devastadores do Concílio Vaticano II ainda não estavam tão claros. Mas Schuon sabia bem de que se tratava:
“O sucesso do materialismo ateu explica-se em parte pelo fato de ser uma posição extremada, e de um extremismo fácil, dado o mundo escorregadio que é sua moldura e dados os elementos psicológicos aos quais recorre; o Cristianismo também é uma posição extrema, mas, em vez de valorizá-la, dissimula-se esta posição — ao menos é esta tendência que parece prevalecer — e faz-se com que se adapte ao adversário, enquanto é precisamente o extremismo da mensagem cristã que, se se afirma sem disfarce — mas também sem “dinamismo” de encomenda —, tem o dom de fascinar e convencer. Ao capitular consciente ou inconscientemente diante dos argumentos do adversário, busca-se evidentemente lhe dar a impressão de que o absoluto cristão realiza o mesmo gênero de perfeição do absoluto progressista e socialista, e renegam-se aqueles aspectos — não obstante essenciais — do absoluto cristão que se chocam com as tendência adversas, de maneira que não há nada mais a lhe opor senão um semi-absoluto sem originalidade; pois as duas atitudes são falsas: dizer que o que sempre se teve em vista não é senão o progresso social, o que não passa de uma mentira ridícula e sem relação com a perspectiva cristão, e acusar-se — prometendo ao mesmo tempo fazer melhor no futuro — de ter negligenciado este progresso, o que é uma traição pura e simples; o que se deveria fazer é colocar cada coisa em seu lugar e lembrar a cada passo o que são, do ponto de vista religioso, o homem, a vida, o mundo, a sociedade. O Cristianismo é uma perspectiva escatológico, ele encara as coisas em função do mundo vindouro ou não as considera em absoluto; fingir que se adota outra maneira de ver as coisas — ou adotá-la realmente — e permanecer ao mesmo tempo na religião é um contra-senso ininteligível e ruinoso (…)
“Que a religião possa e deva, dependendo das ocasiões, adaptar-se a novas circunstâncias, é evidente e inevitável; mas é preciso atentar para não dar a priori razão às circunstâncias e nelas ver normas simplesmente porque existem e agradam à maioria. Ao proceder a uma adaptação, é importante ater-se estritamente à perspectiva religiosa e à hierarquia de valores que ela implica; é preciso inspirar-se numa criteriologia metafísica e espiritual e não ceder a pressões, ou mesmo deixar-se contaminar por uma falsa avaliação das coisas. Não se fala de ‘uma religião voltada para o social’, o que é um pleonasmo ou um absurdo, e até mesmo de uma ‘espiritualidade do desenvolvimento econômico’, o que, à parte a monstruosidade, é uma contradição de termos? Segundo estas tendências, o erro ou o pecado já não devem submeter-se aos imperativos da verdade e da espiritualidade, é, ao contrário, a verdade, a espiritualidade que deve se adaptar ao erro e ao pecado; e é o sentimento do adversário que é o critério do verdadeiro e do falso, do bem e do mal.”
Extraído de O Homem no Universo, Editora Perspectiva, São Paulo 2001, pp. 178-180.
Emoção e objetividade
Por um lado, admiramos corretamente uma coisa porque a compreendemos; por outro lado, compreendemos uma coisa admirável ao admirá-la, isto é, nossa admiração amplia e aprofunda nossa compreensão primeira. A emoção ou o sentimento, neste caso, é um modo de assimilação; é, portanto, um modo subordinado de conhecimento, o qual intervém logicamente a posteriori, mas que, de fato, pode coincidir com a percepção física ou intelectual. Também a nobreza de caráter, ou a virtude, é antes de tudo uma predisposição à adequação quase existencial, paralelamente ao conhecimento propriamente dito; o que significa que ela é uma maneira de ser objetivo, de estar em conformidade com a realidade, o que, conforme o caso, exige certa abnegação; ser perfeitamente objetivo é um pouco morrer, já escrevemos em algum lugar.
Em nossos dias, louva-se a “objetividade” de um homem que afirma calmamente e friamente que dois mais dois são cinco, e acusa-se de subjetividade ou de emotividade o homem que replica com indignação que dois mais dois são quatro; não se quer admitir que a objetividade é a adequação ao objeto, não tal ou qual modo de expressão; que o critério da objetividade é a realidade, não o tom, nem a mímica; nem, sobretudo, uma placidez fictícia, inumana e insolente. Esquece-se, sobretudo, também, que a emoção tem seus direitos no arsenal da dialética humana, e que estes – dado que são direitos – não poderiam ser contrários à objetividade; mesmo o pensamento mais estritamente objetivo – intelectual ou racional – acompanha-se de um fator psíquico, portanto subjetivo, a saber, o sentimento de certeza; sem o que o homem não seria o homem. Ora, o homem é “feito à imagem de Deus”, esta é toda a sua razão de ser; censurar um traço natural e fundamental do homem equivaleria a censurar não somente a intenção criadora, mas a natureza mesma do Criador.
O “objetivismo” antiemocional e ficticiamente impassível trai a sua falsidade pela contradição seguinte: aqueles que se fazem porta-vozes de uma racionalidade imperturbável e impertinente são ao mesmo tempo aqueles que preconizam o amor livre – eles não têm nenhum gosto pelo ascetismo – ou que se inflamam a partir do momento em que se fala de política, e outras inconsequências desse gênero; o que prova que sua “objetividade” não é senão erro e ostentação, que ela é aparentada ao orgulho e à amargura; de onde a propensão a pintar de branco os homens vis – salvo quando, por acaso, são adversários políticos – e a pintar de negro os homens de bem, calmamente e sem paixão, ao menos sem paixão visível; é um exemplo daquela moral de mão única tão característica de todos os gêneros de hipocrisia. Seja como for, é preciso reagir contra a opinião psicanalítica – muito disseminada – de que tanto a indignação quanto o entusiasmo revelam sempre um preconceito ou uma parcialidade; opinião simplista que é vizinha de outro erro não menos tolo, a saber, que numa discórdia ninguém jamais tem razão por completo, e que aquele que se inflama está sempre errado.
(Extraído de “Ambiguidade do Elemento Emocional”, de Frithjof Schuon, capítulo do livro Résumé de Métaphysique Intégrale (Resumo de Metafísica Integral, inédito em português), Courrier du Livre, 2000.
A oração e as obras
“A fé não exige que o homem ganhe sua salvação por tais ou quais obras; ela exige a oração e, como uma espécie de prolongamento desta, o cumprimento do dever, tanto na ação como na abstenção. Esse cumprimento, quer seja habitual, quer se imponha por circunstâncias particulares, encontra-se santificado pela obra por excelência, a primeira de todas, a oração; e ele participa assim, mais ou menos indiretamente, conforme sua natureza, da alquimia libertadora de que a oração é o principal suporte.”
Frithjof Schuon, Resumo de Metafísica Integral, tradução portuguesa inédita.
