Arquivo da categoria: Religio Perennis

Um vídeo de Schuon

Este é um trecho de entrevista muito mais longa de Schuon em inglês, que está em grande parte disponível, em pequenos vídeos curtos, no Youtube. Em pouquíssimas mas profundas palavras, o grande filósofo dá uma síntese da perspectiva da Religio Perennis.

(Vídeo disponibilizado em canal do Youtube em nome de Jesper Sampaio)

Sobre quem foi e como viveu Frithjof Schuon

Publicamos hoje um texto diferente e muito importante: um relato de Catherine Schuon — que, como esposa, esteve ao lado de Frithjof Schuon por quase 50 anos — sobre quem realmente foi o grande porta-voz da Religio Perennis e como ele viveu. Um texto revelador.

Antes de mais nada, devo avisar ao leitor que, quando me refiro a Frithjof Schuon, sempre digo “o Cheikh”, pois nunca me dirigi a ele senão por este título; eu usava seu primeiro nome apenas na presença dos membros de minha família, e mesmo assim evitava fazê-lo, já que me parecia totalmente inadequado. Durante os cinquenta anos de nossa vida em comum, jamais deixei de sentir em sua presença uma admiração reverente e, na medida em que sua grandeza espiritual e moral me eram desvendadas através da leitura de seus livros e das qualidades que ele manifestava, uma veneração cada vez mais profunda.

É verdade que, na intimidade, eu costumava acrescentar à palavra Cheikh o sufixo afetuoso “-li”, usado no dialeto suíço-alemão; realmente, o Cheikh suscitava a ternura por sua inocência e por seu lado às vezes quase benevolente demais. Com uma pureza de coração desconcertante, ele acreditava no que lhe diziam e preferia ignorar o fato de que pessoas com aspirações espirituais podiam ser hipócritas ou mesmo mentirosas. A propósito da santa ingenuidade, ele sempre citava a história de Santo Tomás de Aquino, que foi chamado por um monge à janela para ver um boi voando; quando o monge caçoou do santo por ter acreditado nele, Santo Tomás replicou: “Prefiro acreditar que um boi voa a crer que um monge mente”. O Cheikh reagiria do mesmo modo.

Eu o encontrei pela primeira vez na primavera de 1947 (…)

Esperamos que o leitor aprecie a narrativa. Para lê-la, deve-se clicar aqui.

A tradução é de Iara Biderman.

“Um mundo de cenários”

O texto abaixo foi escrito por Schuon em 1957, muito antes dos computadores pessoais e muito antes da internet. O que queremos ressaltar publicando-o é a ligação entre crer em Deus e o ambiente — as formas — em que vivemos. O trecho foi extraído de Castes et Races, Lyon, Derain, 1957, pp. 17 e 18. Há versão brasileira: O Sentido das Raças, São Paulo, Ibrasa, 2002, pp. 33 e 34.

* * *

Como definir a posição ou a qualidade do operário moderno? Responderemos em primeiro lugar que o “mundo operário” é uma criação totalmente artificial, devida à máquina e à vulgarização científica que a esta se liga; dito de outro modo, a máquina cria infalivelmente o tipo humano artificial que é o “proletário” ou, antes, ela cria um “proletariado”, pois se trata, em tal caso, essencialmente de uma coletividade quantitativa e não de uma “casta” natural, ou seja, que tivesse seu fundamento em determinada natureza individual. Se se pudesse suprimir as máquinas e reintroduzir o antigo artesanato, com todos os seus aspectos de arte e de dignidade, o “problema operário” deixaria de existir; isto vale mesmo para as funções puramente servis ou para os ofícios mais ou menos quantitativos, pela simples razão de que a máquina é inumana e anti-espiritual em si. A máquina mata, não somente a alma do operário, mas a alma enquanto tal, portanto também a do explorador: o par explorador-operário é inseparável do maquinismo, pois o artesanato impede esta alternativa grosseira por sua própria qualidade humana e espiritual. O universo maquinista é acima de tudo o triunfo da ferragem pesada e dissimulada; é a vitória do metal sobre a madeira, da matéria sobre o homem, da astúcia sobre a inteligência; expressões tais como “massa”, “bloco”, “choque”, tão frequentes no vocabulário do homem industrializado, são totalmente significativas para um mundo que está mais perto dos insetos do que dos humanos. Não há nada de surpreendente no fato de que o “mundo operário”, com sua psicologia “maquinista-cientificista-materialista” seja particularmente impermeável às realidades espirituais, pois ele pressupõe uma “realidade ambiente” totalmente artificial: ele exige máquinas, portanto metal, ruídos, forças ocultas e pérfidas, uma ambiência de pesadelo, do vaivém ininteligível, numa palavra, uma vida de insetos na feiúra e na trivialidade; no interior de tal mundo, ou antes de tal “cenário”, a realidade espiritual parecerá uma ilusão patente ou um luxo desprezível. Em não importa qual ambiência tradicional, ao contrário, é a problemática do “operário” — portanto maquinista — que não teria mais nenhuma força persuasiva; para torná-la verossímil é preciso portanto começar por criar um mundo de cenários que lhe corresponda e cujas próprias formas sugerem a ausência de Deus; o Céu deve ser inverossímil; falar de Deus deve soar falso.

 

Um extrato de Cristianismo/Islã, livro de FS

Para compreender o antagonismo entre o Cristianismo e o Judaísmo, por um lado, e entre o Cristianismo e o Islã, por outro, é preciso antes de mais nada levar em conta isto: toda religião é uma forma, o que significa, primeiramente, que cada uma possui um caráter destinado a captar e a ativar determinadas predisposições mentais; e, em segundo lugar, que os postulados e meios das religiões — na medida em que o caráter de forma particular ou de upaya nelas se encontra acentuado — têm em sua literalidade um alcance relativo e não absoluto, ainda que eles reflitam à sua maneira realidades absolutas e não relativas. Os dogmas e os sacramentos são chaves para a Realidade divina, mas não a representam de uma maneira exclusiva e insubstituível.

No que diz respeito ao Cristianismo, ele tem de particular o fato de constituir um mârga, uma via especial, a saber, uma bhakti (*), e que ele opera mediante uma perspectiva de amor sacrificial, de onde seu caráter ao mesmo tempo dramático e ascético. O fato de que a mensagem cristã — não obstante suas implicações puramente metafísicas — seja uma verdade segundo a bhakti e não a Verdade pura e simples já resulta do fato de que ele se apresenta como uma novidade; ora, esse caráter de novidade prova um caráter de particularidade, não de alcance geral. A “nova lei” do amor, e outras inovações em relação ao Mosaismo, se explica pelo particularismo da bhakti oposta ao alcance geral da Lei mosaica, e também pelo esoterismo relativo que a bhakti representa, com suas reivindicações de interioridade, em relação ao exoterismo que representam evidentemente as prescrições práticas de Moisés. Que a interiorização e a sentimentalização — seja dito sem nenhuma intenção pejorativa — operadas pelo Cristianismo tenham sido os únicos meios para corrigir espiritualmente o mundo ocidental é, retrospectivamente, mais que provável, mas isto não poderia significar que esse “estratagema divino” constitua a Verdade única, exclusiva, total, e que todo o resto não seja senão erro e barbárie. A teologia é intelectual na medida em que explica a verdade intrínseca — portanto essencial e universal — das fórmulas dogmáticas, e ela é sentimental na medida em que defende a “letra” — que, no entanto, “mata”, segundo São Paulo — contra outras formulações possíveis da verdade; o que ela está obrigada a fazer, mas o que não basta para torná-la verdadeira num sentido absoluto.

Se o Cristianismo se apresenta como uma novidade, dir-nos-ão, toda outra religião também o faz; mas, evidentemente, não é do simples fato de que todo começo é novo que se trata aqui, sem o que não pensaríamos em atribuir o caráter de novidade somente ao Cristianismo. O Sinai marca uma etapa nova do Judaísmo, mas ele não quer abolir a religião dos Patriarcas; seu espírito é tal que ele não convida nem encoraja de forma nenhuma à inovação; o messianismo ortodoxo dos Judeus, é preciso insistir nisso, se opõe à ideia de progresso. O mesmo vale para o Islã: longe de se apresentar como uma novidade, ele só quer ser uma restauração — não uma “reforma” — do que existia desde o começo; o Profeta é o último de uma série de Profetas conhecidos e desconhecidos, e ele não traz nada que seus predecessores não terão trazido sob uma ou outra forma; segundo o Alcorão, “não há mudança nas palavras de Deus”. A situação é totalmente análoga no Hinduísmo e no Budismo: cada ciclo cósmico tem seu Avatâra ou seu Buddha; mesmo o Buddha histórico não quer inovar em nada, ele manifesta a Bodhi, a iluminação, como inumeráveis Buddhas a manifestaram antes dele e a manifestarão depois dele; sua Iluminação não é em si um fato novo, ela não é senão a actualização (**) de uma realidade eterna, a do Nirvâna, que irrompe quando os ciclos humanos o permitem ou exigem.

Notas:

(*) Lembremos, para todos os fins, que os Budistas entendem por upâya um “estratagema divino” ou um “milagre salvador”: não é a verdade intrínseca que conta em primeiro lugar, mas a eficácia salvadora. Quanto ao termo hindu bhakti, sabe-se comumente, no Ocidente, que ele designa uma via do amor, não de conhecimento nem de obras obedienciais. O Hinduísmo, menos ainda que o Budismo, não se reduz nem a um upâya nem, com mais forte razão, a um mârga, mas comporta vários deles, o que constitui ao mesmo tempo sua força e sua fraqueza.

(**) No sentido de trazer da potência ao ato, de tornar efetivo. (N. do T.)

* * *

Este ensaio continua, por muitas páginas, explicando esta visão do Cristianismo. Quem sabe um dia possamos publicá-lo aqui, na íntegra. O trecho reproduzido acima, no entanto, contém algumas noções que, nos parecem, justificam publicá-lo como extrato. O tema do upâya é abordado muitas vezes por Schuon, para explicar as limitações das formas religiosas. Este é um ponto central para entender a Religio Perennis, e não à toa já está no primeiro livro de Schuon, Da Unidade Transcendente das Religiões, no capítulo “Limitações do Exoterismo”.

O presente extrato foi retirado de Christianisme/Islam: Visions d’Oecuménisme ésotérique, Archè, Milão, 1981, pp. 79-81.

Novo livro de Schuon

capa roots

Lançado estes dias o livro de Frithjof Schuon acima indicado.

Trata-se de um dos últimos livros do autor, publicado no original francês em 1990.

Ele inclui os seguintes capítulos:

  • Da Inteligência
  • O Véu de Ísis [sobre os limites da ciência moderna]
  • Problemas do Espaço-Tempo
  • Mahâshakti [um profundo capítulo sobre o aspecto feminino da Divindade]
  • O Enigma da Subjetividade Diversificada
  • Sinais do Ser, Provas de Deus
  • Dimensões Salvadoras
  • O Homem em Face do Sumo Bem
  • Esquema da Mensagem Crística
  • Esquema da Mensagem Islâmica
  • Pilares da Sabedoria
  • O Duplo Discernimento
  • Sombras Cósmicas e Serenidade
  • Virtude e Via
  • Do Amor

À venda na Estante Virtual.

O significado espiritual da Divina Comédia

dante-and-beatrice-granger

Publicamos hoje neste espaço um profundo e surpreendente artigo de Titus Burckhardt a respeito da Divina Comédia, intitulado “É Porque Dante está Certo”.

Ele começa assim:

Entre os traços que atestam a grandeza incomparável da Divina Comédia, não é dos menos importantes o fato de que, a despeito de a amplitude e a variedade de sua influência terem sido excepcionalmente grandes — ela chegou mesmo a moldar a língua de uma nação —, tal obra foi raramente compreendida na totalidade de seu significado. Já durante a vida de Dante, aqueles que se aventuraram no oceano do espírito na trilha de sua nau (Paradiso, II, 1 ss.) estavam destinados a ser uma companhia reduzida. Eles mais ou menos desapareceram com o Renascimento; o modo de pensamento individualista desse período, oscilando entre a paixão e a razão calculista, já estava muito afastado do espírito de Dante, voltado para o interior. Mesmo Miquelângelo, embora tivesse por seu conterrâneo florentino a mais alta consideração, já não o podia compreender (continue a ler clicando aqui).

Orientação sobre as virtudes

Publicamos hoje ensaio de Schuon, inédito em português, a respeito das virtudes. Este ensaio é um belo exemplo da profundidade e a precisão do aconselhamento espiritual do grande mestre alemão. O texto, que foi publicado em Résumé de Métaphysique Intégrale (Le Courrier du Livre, Paris, 1985), começa assim:

Segundo Santo Agostinho, “todos os outros vícios se ligam ao mal para que ele se faça; só o orgulho se liga ao bem para que ele pereça”. E, do mesmo modo, o Cura d’Ars: “A humildade está para as virtudes como o cordão está para o rosário; retira o cordão, e todas as contas escapam; elimina a humildade, e todas as virtudes desaparecem.” Isso quer dizer que o orgulho consiste em se glorificar por suas virtudes, quer diante dos outros, quer diante de si mesmo somente; o que destroi as virtudes por duas razões: em primeiro, porque elas são tomadas de Deus, a quem na realidade elas pertencem, e porque assim a pessoa se põe – como Lúcifer – no lugar da Fonte divina; e, em seguida, porque se atribui de facto um valor desproporcional a um fenômeno necessariamente relativo. “Quando deres esmola, que tua mão esquerda não saiba o que faz a direita.”

Leia mais aqui.

Um extrato de correspondência

Extrato de correspondência com orientação espiritual de Frithjof Schuon, publicado no livro A Transfiguração do Homem (Sapientia, 2009).

* * *

O Jardim

Um homem vê um jardim florido, mas sabe: ele não verá sempre essas flores e esse verde, pois morrerá um dia; e ele sabe também: esse jardim não estará sempre lá, pois o mundo, por sua vez, desaparecerá. E ele sabe ainda: esta relação com o belo jardim é dada pelo destino, pois, se o homem se encontrasse no meio do deserto, ele não veria o jardim; ele o vê somente porque o destino o colocou, ele, homem, ali e não em outro lugar.

Mas na região mais interior de nossa alma mora o Espírito, e nele o jardim está contido como em germe; e se nós amamos esse jardim — e como não o amaríamos, visto ser de uma beleza paradisíaca? —, faremos bem em buscá-lo lá onde ele sempre esteve e onde sempre estará, a saber, no Espírito; mantém-te no Espírito, em teu próprio centro, e terás o jardim e por acréscimo todos os jardins possíveis. E do mesmo modo: no Espírito não há morte, pois nele tu és imortal; e no Espírito a relação entre o contemplador e o contemplado não é somente uma possibilidade frágil, mas, ao contrário, reside na natureza mesma do Espírito e é eterna como ele.

O Espírito é consciência e vontade: consciência de si mesmo e vontade em relação a si mesmo. Mantém-te no Espírito pela consciência, e aproxima-te do Espírito pela Vontade ou pelo Amor, e nem a morte nem o fim do mundo podem te tirar o jardim ou anular tua visão. O que és agora no Espírito, tu o serás depois da morte; e o que possuis agora no Espírito, tu o possuirás depois da morte. Diante de Deus, não há ser nem propriedade a não ser no Espírito; o que era exterior deve tornar-se interior, e o que era interior será exterior: busca o jardim em ti mesmo, em tua indestrutível Substância divina, e esta te dará um jardim novo e imperecível.

Um conhecimento que fere nossa natureza

Um extrato do livro de Schuon intitulado Perspectives Spirituelles et Faits Humains (Maisonneuve & Larose, Paris, 1989, pp. 185/186):

“O conhecimento só salva com a condição de engajar tudo o que somos: quando ele é um caminho que labora e que transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere a terra.

“Isso quer dizer que a inteligência e a certeza metafísica não salvam por si mesmas, e não impedem por si mesmas quedas de titãs. É o que explica as precauções psicológicas e outras de que toda tradição espiritual cerca o dom da doutrina.

“Quando o conhecimento metafísico é efetivo, ele produz o amor e destrói a presunção. Ele produz o amor: a saber, o direcionamento espontâneo da vontade para Deus, e a percepção de ‘mim mesmo’ — e de Deus — no próximo.

“Ele destrói a presunção: pois o conhecimento não permite ao homem se superestimar, nem subestimar os outros; ao reduzir a cinzas tudo o que não é Deus, ele ordena todas as coisas.

“Tudo o que São Paulo diz da caridade se refere à sabedoria efetiva, pois esta é amor; ele a opõe à teoria enquanto conceito humano. O Apóstolo quer que a verdade seja contemplada com todo o nosso ser; ele chama de ‘amor’ esta totalidade da contemplação.

“O conhecimento metafísico é sagrado. É próprio das coisas sagradas exigir do homem tudo o que ele é.”

Um problema de tradução

No primeiro parágrafo da tradução espanhola de Comprendre l’Islam, objeto da nota anterior, só agora vejo que está escrito: “El Islam es el encuentro entre Allâh como tal y el hombre como tal. Allâh como tal, es decir,…” No entanto, o original francês não usa o termo Allâh, mas a palavra Deus: “O Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal. Deus como tal, ou seja…”

Se o autor quisesse usar o termo Allâh, ele o teria usado, como faz muitas vezes em outros de seus escritos. Mas aqui ele optou por usar o termo Deus, e devemos respeitar essa opção. Um tradutor não deve achar que sabe mais que o autor, nem deve querer “adaptá-lo” para determinados leitores.

O próprio Frithjof Schuon, num ensaio sobre a tradução, diz que ela deve ser literal sempre que possível. É preciso ter em mente que Schuon escreve com total precisão e economia no uso das palavras, diferentemente da maior parte dos escritores de hoje. Mudar seus termos e suas estruturas desnecessariamente, diz ele, implica possíveis perdas de nuances, quando não a falsificação de ideias importantes.

No caso em questão, “o Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal”. Se substituímos Deus por Allâh, damos à afirmação uma conotação restritiva. Não é ao Deus Pessoal em sua Face voltada ao Islã que o autor se refere, mas, como ele mesmo diz, a Deus em si mesmo, a “Deus como tal”.

Que a tradução conste de um sítio eletrônico islâmico pode explicar isso, mas, como se diz popularmente, “explica, mas não justifica”.

Louvamos a publicação do texto, a disponibilização de uma tradução na internet. Mas pensamos ter o direito de fazer estas observações.

Outro problema: falta nesta tradução espanhola o prefácio do autor.

Compreender el Islam, na internet

O livro Comprendre l’Islam, de Frithjof Schuon, em sua versão espanhola, intitulada Compreender el Islam, está disponível na internet para leitura ou descarregamento em formato PDF.

Este livro, por suas profundas comparações com o Cristianismo, nos fornece não só uma visão magistral do Islã como, também, uma compreensão muito bonita e profunda da fé cristã.

Clique aqui para aceder ao sítio onde ele está.

Um conhecimento doutrinal é suficiente?

Gostaria de trazer à atenção do leitor dois extratos do livro de Titus Burckhardt intitulado Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam, publicado por Dervy-Livres, Paris, em 1985.

Os dois extratos tratam da seguinte questão: o conhecimento doutrinal basta para a realização espiritual? O grande sábio suíço diz que não, e que, se não há uma via espiritual, a compreensão das verdades espirituais despertada pelo estudo da doutrina pode facilmente, aos poucos, se desvanecer.

Vejamos o que diz Burckhardt:

“O presente trabalho é uma introdução ao estudo da doutrina sufi. Mas é importante antes de tudo definir o ponto de vista segundo o qual abordamos este tema: este ponto de vista não é o da erudição pura e simples, seja qual for o interesse científico dos resumos doutrinais que figuram neste estudo; queremos sobretudo contribuir com os esforços daqueles que, no mundo moderno, procuram compreender as verdades permanentes e universais de que toda doutrina sagrada é um modo de expressão.

“Digamos logo de início que a ciência acadêmica é uma ajuda totalmente secundária e muito indireta para que se assimile o conteúdo intelectual das doutrinas orientais, e, aliás, nem é esse o objetivo de um método científico, que aborda as coisas necessariamente desde o exterior, portanto sob seu aspecto puramente histórico e contingente. Há doutrinas que só se compreendem ‘desde o interior’, por um trabalho de assimilação ou de penetração cujas modalidades, que são essencialmente intelectuais [1], superam, por isso mesmo, o pensamento discursivo; este chega mesmo a se tornar um obstáculo na medida em que ele está marcado por convenções mentais, sem falar das ideias preconcebidas agnósticas e evolucionistas que determinam o espírito da maioria dos ocidentais. É por esta razão que quase todos os eruditos europeus que estudaram o Sufismo se enganam a respeito de sua verdadeira posição: o homem de cultura moderna, com efeito, não mais está habituado a pensar em símbolos (…) a formação universitária e o saber livresco autorizam aqui a ocupar-se de coisas que, no Oriente, estão naturalmente reservadas àqueles que são dotados de intuição espiritual e que se consagram ao estudo dessas coisas em virtude de uma afinidade real e sob a direção dos herdeiros de uma tradição viva.” (pp. 9-10)

“A assimilação das verdades doutrinais é indispensável; contudo, ela não opera por si só uma transformação na alma, salvo em certos casos muito excepcionais, em que a alma está tão bem disposta à contemplação que elementos de doutrina bastam para a fazer nela [na contemplação] mergulhar, como uma solução supersaturada que, sofrendo um mínimo impulso, pode subitamente se transmutar em cristais. Em si, a inteligência doutrinal é puramente estática; ela pode livrar a alma de certas tensões, mas não pode realmente transformá-la sem o concurso da vontade, a qual representa o elemento dinâmico da via. Ocorre mesmo, muito facilmente, que a intuição das verdades metafísicas, a princípio despertada pelo estudo da doutrina, se esfarele pouco a pouco no espírito daquele que, crendo possuir essas verdades, só adere a elas mentalmente, como se a vontade não devesse tomar nisso nenhuma parte. Ora, a vontade deve tornar-se ‘pobre’ perante Deus, o que equivale a dizer que ela deve se conformar à virtude espiritual: esta representa uma espécie de concentração latente da alma, uma base sólida e natural da concentração diretamente operativa, cujo objetivo é transpassar o véu da consciência continuamente absorvida pela corrente das formas. ‘A virtude espiritual (al-ihsân) – disse o Profeta – é que tu adores a Deus como se tu O visses, e, se tu não O vês, Ele no entanto te vê’.

“Conforme a natureza particular do ‘caminho’ (…) a compreensão doutrinal exerce um papel mais ou menos importante; ela não exige necessariamente um saber doutrinal muito extenso, pois é em profundidade, não na superfície, que ela deve se desenvolver.” (pp. 115-117)

Nota [1]: Por ‘intelecto’ entendemos não a razão ou o pensamento discursivo, mas o ‘órgão’ do conhecimento imediato, da certeza, ou seja, a pura inteligência, que supera a razão. Este ‘órgão’, a teologia ortodoxa, particularmente Máximo, o Confessor, chama de Noûs.

Uma distinção fundamental

Repetimos aqui uma nota que publicamos em dezembro de 2011 no blogue Vera Philosophia.

* * *

Frithjof Schuon faz uma distinção fundamental entre metafísica, filosofia e teologia.

Ela está no começo de seu primeiro livro em francês, De l’unité transcendante des religions (Éditions du Seuil, Paris, 1979), publicado em 1948. Há uma tradução para o português, recém-lançada: A Unidade Transcendente das Religiões, IRGET, 2011. (Há uma tradução brasileira anterior, de Fernando Guedes Galvão, publicada na década de 1950, mas com muitos erros sérios.)

Vamos ao texto:

    “… na realidade, esta [a metafísica] tem um caráter transcendente que a torna independente de um pensamento puramente humano, seja este qual for. Para bem definir a diferença que há entre os dois modos de pensamento, diremos que a filosofia procede da razão, faculdade totalmente individual, enquanto a metafísica está ligada exclusivamente ao Intelecto; este último, Mestre Eckhart assim definiu, com pleno conhecimento de causa: ‘Há na alma algo que é incriado e incriável; se toda a alma fosse assim, ela seria incriada e incriável, e esse algo é o Intelecto.’ Encontra-se no esoterismo muçulmano uma definição análoga, mas mais concisa ainda e mais rica em valor simbólico: ‘O sufi (ou seja, o homem identificado ao Intelecto) não é criado.’
    “Se o conhecimento puramente intelectual supera por definição o indivíduo, se, portanto, ele é de essência supra-individual, universal ou divina e está ligado à Inteligência pura, isto é, direta e não-discursiva, é evidente que esse conhecimento não somente vai além da raciocinação, mas também além da fé no sentido comum deste termo; dito de outro modo, o conhecimento intelectual supera igualmente o ponto de vista especificamente teológico, o qual, por sua vez, é no entanto incomparavelmente superior ao ponto de vista filosófico ou mais precisamente racionalista, pois, como o conhecimento metafísico, ele emana de Deus e não do homem; mas, enquanto a metafísica procede inteiramente da intuição intelectual, a religião procede da Revelação; esta é a palavra de Deus enquanto Ele se dirige às suas criaturas, enquanto a intuição intelectual é uma participação direta e ativa no conhecimento divino, não uma participação indireta e passiva como é a fé. Em outros termos, dir-se-á que na intuição intelectual não é o indivíduo enquanto tal que conhece, mas enquanto ele, em sua essência profunda, não é distinto de seu Princípio divino; assim, a certeza metafísica é absoluta em razão da identidade entre o conhecedor e o conhecido no Intelecto.”
* * *

Esquematicamente:

Metafísica
Conhecimento pela intuição intelectual; participação direta no conhecimento divino; certeza absoluta; não é o indivíduo que conhece, mas sua essência divina. Emana de Deus.

Teologia
Tem origem na Revelação e se baseia na fé; a fé é uma participação indireta e passiva no conhecimento divino. Emana de Deus.

Filosofia
Procede da razão. Conhecimento indireto. Emana do homem.

Cristianismo e Budismo, por Schuon

Publicamos também hoje novo ensaio de Frithjof Schuon, intitulado “Cristianismo e Budismo”, contido no livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur), livro este não existente em português. Esta tradução foi publicada há mais de vinte anos na Revista Thot, de São Paulo. A versão que aqui apresentamos foi revisada.

Um grande e belo ensaio de Frithjof Schuon que temos a honra de oferecer aos leitores de língua portuguesa.

Leia-o seguindo este enlace.