Um extrato de correspondência

Extrato de correspondência com orientação espiritual de Frithjof Schuon, publicado no livro A Transfiguração do Homem (Sapientia, 2009).

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O Jardim

Um homem vê um jardim florido, mas sabe: ele não verá sempre essas flores e esse verde, pois morrerá um dia; e ele sabe também: esse jardim não estará sempre lá, pois o mundo, por sua vez, desaparecerá. E ele sabe ainda: esta relação com o belo jardim é dada pelo destino, pois, se o homem se encontrasse no meio do deserto, ele não veria o jardim; ele o vê somente porque o destino o colocou, ele, homem, ali e não em outro lugar.

Mas na região mais interior de nossa alma mora o Espírito, e nele o jardim está contido como em germe; e se nós amamos esse jardim — e como não o amaríamos, visto ser de uma beleza paradisíaca? —, faremos bem em buscá-lo lá onde ele sempre esteve e onde sempre estará, a saber, no Espírito; mantém-te no Espírito, em teu próprio centro, e terás o jardim e por acréscimo todos os jardins possíveis. E do mesmo modo: no Espírito não há morte, pois nele tu és imortal; e no Espírito a relação entre o contemplador e o contemplado não é somente uma possibilidade frágil, mas, ao contrário, reside na natureza mesma do Espírito e é eterna como ele.

O Espírito é consciência e vontade: consciência de si mesmo e vontade em relação a si mesmo. Mantém-te no Espírito pela consciência, e aproxima-te do Espírito pela Vontade ou pelo Amor, e nem a morte nem o fim do mundo podem te tirar o jardim ou anular tua visão. O que és agora no Espírito, tu o serás depois da morte; e o que possuis agora no Espírito, tu o possuirás depois da morte. Diante de Deus, não há ser nem propriedade a não ser no Espírito; o que era exterior deve tornar-se interior, e o que era interior será exterior: busca o jardim em ti mesmo, em tua indestrutível Substância divina, e esta te dará um jardim novo e imperecível.

Um conhecimento que fere nossa natureza

Um extrato do livro de Schuon intitulado Perspectives Spirituelles et Faits Humains (Maisonneuve & Larose, Paris, 1989, pp. 185/186):

“O conhecimento só salva com a condição de engajar tudo o que somos: quando ele é um caminho que labora e que transforma, e que fere nossa natureza como o arado fere a terra.

“Isso quer dizer que a inteligência e a certeza metafísica não salvam por si mesmas, e não impedem por si mesmas quedas de titãs. É o que explica as precauções psicológicas e outras de que toda tradição espiritual cerca o dom da doutrina.

“Quando o conhecimento metafísico é efetivo, ele produz o amor e destrói a presunção. Ele produz o amor: a saber, o direcionamento espontâneo da vontade para Deus, e a percepção de ‘mim mesmo’ — e de Deus — no próximo.

“Ele destrói a presunção: pois o conhecimento não permite ao homem se superestimar, nem subestimar os outros; ao reduzir a cinzas tudo o que não é Deus, ele ordena todas as coisas.

“Tudo o que São Paulo diz da caridade se refere à sabedoria efetiva, pois esta é amor; ele a opõe à teoria enquanto conceito humano. O Apóstolo quer que a verdade seja contemplada com todo o nosso ser; ele chama de ‘amor’ esta totalidade da contemplação.

“O conhecimento metafísico é sagrado. É próprio das coisas sagradas exigir do homem tudo o que ele é.”

Um problema de tradução

No primeiro parágrafo da tradução espanhola de Comprendre l’Islam, objeto da nota anterior, só agora vejo que está escrito: “El Islam es el encuentro entre Allâh como tal y el hombre como tal. Allâh como tal, es decir,…” No entanto, o original francês não usa o termo Allâh, mas a palavra Deus: “O Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal. Deus como tal, ou seja…”

Se o autor quisesse usar o termo Allâh, ele o teria usado, como faz muitas vezes em outros de seus escritos. Mas aqui ele optou por usar o termo Deus, e devemos respeitar essa opção. Um tradutor não deve achar que sabe mais que o autor, nem deve querer “adaptá-lo” para determinados leitores.

O próprio Frithjof Schuon, num ensaio sobre a tradução, diz que ela deve ser literal sempre que possível. É preciso ter em mente que Schuon escreve com total precisão e economia no uso das palavras, diferentemente da maior parte dos escritores de hoje. Mudar seus termos e suas estruturas desnecessariamente, diz ele, implica possíveis perdas de nuances, quando não a falsificação de ideias importantes.

No caso em questão, “o Islã é a junção entre Deus como tal e o homem como tal”. Se substituímos Deus por Allâh, damos à afirmação uma conotação restritiva. Não é ao Deus Pessoal em sua Face voltada ao Islã que o autor se refere, mas, como ele mesmo diz, a Deus em si mesmo, a “Deus como tal”.

Que a tradução conste de um sítio eletrônico islâmico pode explicar isso, mas, como se diz popularmente, “explica, mas não justifica”.

Louvamos a publicação do texto, a disponibilização de uma tradução na internet. Mas pensamos ter o direito de fazer estas observações.

Outro problema: falta nesta tradução espanhola o prefácio do autor.

Compreender el Islam, na internet

O livro Comprendre l’Islam, de Frithjof Schuon, em sua versão espanhola, intitulada Compreender el Islam, está disponível na internet para leitura ou descarregamento em formato PDF.

Este livro, por suas profundas comparações com o Cristianismo, nos fornece não só uma visão magistral do Islã como, também, uma compreensão muito bonita e profunda da fé cristã.

Clique aqui para aceder ao sítio onde ele está.

Um conhecimento doutrinal é suficiente?

Gostaria de trazer à atenção do leitor dois extratos do livro de Titus Burckhardt intitulado Introduction aux Doctrines Ésotériques de l’Islam, publicado por Dervy-Livres, Paris, em 1985.

Os dois extratos tratam da seguinte questão: o conhecimento doutrinal basta para a realização espiritual? O grande sábio suíço diz que não, e que, se não há uma via espiritual, a compreensão das verdades espirituais despertada pelo estudo da doutrina pode facilmente, aos poucos, se desvanecer.

Vejamos o que diz Burckhardt:

“O presente trabalho é uma introdução ao estudo da doutrina sufi. Mas é importante antes de tudo definir o ponto de vista segundo o qual abordamos este tema: este ponto de vista não é o da erudição pura e simples, seja qual for o interesse científico dos resumos doutrinais que figuram neste estudo; queremos sobretudo contribuir com os esforços daqueles que, no mundo moderno, procuram compreender as verdades permanentes e universais de que toda doutrina sagrada é um modo de expressão.

“Digamos logo de início que a ciência acadêmica é uma ajuda totalmente secundária e muito indireta para que se assimile o conteúdo intelectual das doutrinas orientais, e, aliás, nem é esse o objetivo de um método científico, que aborda as coisas necessariamente desde o exterior, portanto sob seu aspecto puramente histórico e contingente. Há doutrinas que só se compreendem ‘desde o interior’, por um trabalho de assimilação ou de penetração cujas modalidades, que são essencialmente intelectuais [1], superam, por isso mesmo, o pensamento discursivo; este chega mesmo a se tornar um obstáculo na medida em que ele está marcado por convenções mentais, sem falar das ideias preconcebidas agnósticas e evolucionistas que determinam o espírito da maioria dos ocidentais. É por esta razão que quase todos os eruditos europeus que estudaram o Sufismo se enganam a respeito de sua verdadeira posição: o homem de cultura moderna, com efeito, não mais está habituado a pensar em símbolos (…) a formação universitária e o saber livresco autorizam aqui a ocupar-se de coisas que, no Oriente, estão naturalmente reservadas àqueles que são dotados de intuição espiritual e que se consagram ao estudo dessas coisas em virtude de uma afinidade real e sob a direção dos herdeiros de uma tradição viva.” (pp. 9-10)

“A assimilação das verdades doutrinais é indispensável; contudo, ela não opera por si só uma transformação na alma, salvo em certos casos muito excepcionais, em que a alma está tão bem disposta à contemplação que elementos de doutrina bastam para a fazer nela [na contemplação] mergulhar, como uma solução supersaturada que, sofrendo um mínimo impulso, pode subitamente se transmutar em cristais. Em si, a inteligência doutrinal é puramente estática; ela pode livrar a alma de certas tensões, mas não pode realmente transformá-la sem o concurso da vontade, a qual representa o elemento dinâmico da via. Ocorre mesmo, muito facilmente, que a intuição das verdades metafísicas, a princípio despertada pelo estudo da doutrina, se esfarele pouco a pouco no espírito daquele que, crendo possuir essas verdades, só adere a elas mentalmente, como se a vontade não devesse tomar nisso nenhuma parte. Ora, a vontade deve tornar-se ‘pobre’ perante Deus, o que equivale a dizer que ela deve se conformar à virtude espiritual: esta representa uma espécie de concentração latente da alma, uma base sólida e natural da concentração diretamente operativa, cujo objetivo é transpassar o véu da consciência continuamente absorvida pela corrente das formas. ‘A virtude espiritual (al-ihsân) – disse o Profeta – é que tu adores a Deus como se tu O visses, e, se tu não O vês, Ele no entanto te vê’.

“Conforme a natureza particular do ‘caminho’ (…) a compreensão doutrinal exerce um papel mais ou menos importante; ela não exige necessariamente um saber doutrinal muito extenso, pois é em profundidade, não na superfície, que ela deve se desenvolver.” (pp. 115-117)

Nota [1]: Por ‘intelecto’ entendemos não a razão ou o pensamento discursivo, mas o ‘órgão’ do conhecimento imediato, da certeza, ou seja, a pura inteligência, que supera a razão. Este ‘órgão’, a teologia ortodoxa, particularmente Máximo, o Confessor, chama de Noûs.

Uma distinção fundamental

Repetimos aqui uma nota que publicamos em dezembro de 2011 no blogue Vera Philosophia.

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Frithjof Schuon faz uma distinção fundamental entre metafísica, filosofia e teologia.

Ela está no começo de seu primeiro livro em francês, De l’unité transcendante des religions (Éditions du Seuil, Paris, 1979), publicado em 1948. Há uma tradução para o português, recém-lançada: A Unidade Transcendente das Religiões, IRGET, 2011. (Há uma tradução brasileira anterior, de Fernando Guedes Galvão, publicada na década de 1950, mas com muitos erros sérios.)

Vamos ao texto:

    “… na realidade, esta [a metafísica] tem um caráter transcendente que a torna independente de um pensamento puramente humano, seja este qual for. Para bem definir a diferença que há entre os dois modos de pensamento, diremos que a filosofia procede da razão, faculdade totalmente individual, enquanto a metafísica está ligada exclusivamente ao Intelecto; este último, Mestre Eckhart assim definiu, com pleno conhecimento de causa: ‘Há na alma algo que é incriado e incriável; se toda a alma fosse assim, ela seria incriada e incriável, e esse algo é o Intelecto.’ Encontra-se no esoterismo muçulmano uma definição análoga, mas mais concisa ainda e mais rica em valor simbólico: ‘O sufi (ou seja, o homem identificado ao Intelecto) não é criado.’
    “Se o conhecimento puramente intelectual supera por definição o indivíduo, se, portanto, ele é de essência supra-individual, universal ou divina e está ligado à Inteligência pura, isto é, direta e não-discursiva, é evidente que esse conhecimento não somente vai além da raciocinação, mas também além da fé no sentido comum deste termo; dito de outro modo, o conhecimento intelectual supera igualmente o ponto de vista especificamente teológico, o qual, por sua vez, é no entanto incomparavelmente superior ao ponto de vista filosófico ou mais precisamente racionalista, pois, como o conhecimento metafísico, ele emana de Deus e não do homem; mas, enquanto a metafísica procede inteiramente da intuição intelectual, a religião procede da Revelação; esta é a palavra de Deus enquanto Ele se dirige às suas criaturas, enquanto a intuição intelectual é uma participação direta e ativa no conhecimento divino, não uma participação indireta e passiva como é a fé. Em outros termos, dir-se-á que na intuição intelectual não é o indivíduo enquanto tal que conhece, mas enquanto ele, em sua essência profunda, não é distinto de seu Princípio divino; assim, a certeza metafísica é absoluta em razão da identidade entre o conhecedor e o conhecido no Intelecto.”
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Esquematicamente:

Metafísica
Conhecimento pela intuição intelectual; participação direta no conhecimento divino; certeza absoluta; não é o indivíduo que conhece, mas sua essência divina. Emana de Deus.

Teologia
Tem origem na Revelação e se baseia na fé; a fé é uma participação indireta e passiva no conhecimento divino. Emana de Deus.

Filosofia
Procede da razão. Conhecimento indireto. Emana do homem.

Cristianismo e Budismo, por Schuon

Publicamos também hoje novo ensaio de Frithjof Schuon, intitulado “Cristianismo e Budismo”, contido no livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur), livro este não existente em português. Esta tradução foi publicada há mais de vinte anos na Revista Thot, de São Paulo. A versão que aqui apresentamos foi revisada.

Um grande e belo ensaio de Frithjof Schuon que temos a honra de oferecer aos leitores de língua portuguesa.

Leia-o seguindo este enlace.

Da Sacralidade das Águas

Publicamos hoje um novo texto de Titus Burckhardt, intitulado Da Sacralidade das Águas. Este ensaio já foi publicado antes com o título O Simbolismo da Água, em tradução feita a partir da excelente tradução inglesa de William Stoddart. Esta versão que aqui oferecemos é traduzida do original alemão.

Embora hoje já se dê maior atenção ao problema da contaminação das águas do que na época em que o autor escreveu o texto, este continua plenamente válido, não só por tratar acima de tudo de princípios e da relação simbólica entre a água e a alma, mas também porque, se hoje se dá mais atenção a este assunto, nem por isso se conseguiu deter essa contaminação ou deterioração, muito ao contrário, excetuando-se alguns casos isolados.

Leia o texto seguinto este enlace.

Inteligência ou bom caráter?

Reproduzimos aqui nota que publicamos anteriormente no blogue Vera Philosophia.

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Extrato do ensaio “Da Inteligência”, em Racines de la Condition Humaine, La Table Ronde, Paris, 1990, pp. 20 e 21.

À questão de saber se vale mais ter inteligência ou um bom caráter, responderemos: um bom caráter. Por quê? Porque, quando se faz essa pergunta, não se pensa nunca na inteligência integral, que implica essencialmente o conhecimento de si; inversamente, um bom caráter implica sempre uma porção de inteligência, com a condição, evidentemente, de que a virtude seja real, não comprometida por um orgulho subjacente, como no caso do “zelo da amargura”.

O bom caráter se abre para a verdade (1), exatamente como a inteligência fiel à sua substância desemboca na virtude; poderíamos dizer também que a perfeição moral coincide com a fé, que ela não poderia ser um perfeccionismo social desprovido de conteúdo espiritual.

Se a faculdade cognitiva consiste em discernir entre o essencial e o secundário e, por via de consequência, ela implica a capacidade de apreender as situações e adaptar-se a elas, será concretamente inteligente o homem que apreende o sentido da vida e, por isso mesmo, o da morte; o que quer dizer que a consciência da morte deve determinar o caráter da vida, como, a priori, a consciência dos valores eternos vem antes da dos valores temporais.

Se nos perguntarem: o que é que prova a realidade dos valores eternos? — mas isto é uma digressão —, responderemos: entre outros o próprio fenômeno da inteligência, o qual seria de fato inexplicável — porque desprovido de razão suficiente — sem seus conteúdos mais fundamentais ou mais elevados. É o mistério do fenômeno da subjetividade, tão estranhamente incompreendido dos modernos, ao passo que ele é, precisamente, um sinal irrecusável de realidade imaterial e de transcendência.

Nota (1): “Errar é humano”, diz São Jerônimo, e Santo Agostinho acrescenta: “Mas é diabólico perseverar, por paixão, no erro”. A paixão coincide, aqui, com o orgulho, o qual anula na prática todas as virtudes; do mesmo modo, o erro corrompe a inteligência, em profundidade e com as reservas que se impõem no plano das coisas práticas ou profanas.

O Homem Conservador

Publicamos hoje mais um belo ensaio de Titus Burckhardt, intitulado “O Homem Conservador”. Este ensaio, em tradução nossa, já está na internet há muitos anos, publicado por outros, mas achamos que vale a pena reproduzi-lo também neste espaço.

Eis o começo:

“Deixando de lado quaisquer matizes políticos que a palavra possa ter, o conservador é alguém que procura conservar. E para dizer se ele está certo ou errado deveria ser suficiente analisar o que é que ele quer conservar. Se as formas sociais que defende – pois sempre se trata de formas sociais – estão em conformidade com o objetivo mais elevado do homem e correspondem à suas necessidades mais profundas, por que não deveriam elas ser tão boas quanto – ou mesmo melhores que – qualquer coisa de novo que a passagem do tempo possa trazer à luz? Pensar desta maneira seria normal, mas o homem de hoje já não pensa normalmente. Mesmo quando não despreza  automaticamente o passado e vê o progresso técnico como fonte de todo bem da humanidade, ele normalmente tem um preconceito contra qualquer atitude conservadora, pois, consciente ou inconscientemente, está influenciado pela tese materialista de que todo ‘conservar’ é inimigo de uma vida que está em constante mudança, e portanto leva à estagnação.”

 

Para lê-lo, siga este enlace.

Ensaio de Coomaraswamy

Publicamos hoje neste espaço um importante e genial ensaio de Ananda K. Coomaraswamy — considerado por Martin Lins como possivelmente o maior scholar do século XX — sobre o preconceito da civilização ocidental moderna em relação aos povos desprovidos de escrita, preconceito esse que nos fez não só desconhecer, mas realmente destruir, legados milenares da literatura sagrada e popular antes transmitida oralmente.

O ensaio se chama O Bicho-Papão da Alfabetização.

Ensaio de Burckhardt sobre a Odisseia

Publicamos hoje um belíssimo ensaio de Titus Burckhardt, extraído do livro Symboles (Arché, Milão, 1980), com uma interpretação simbólica da Odisseia. Seu título é: “O Retorno de Ulisses”. Veja o começo:

“Toda via que conduz a uma realização espiritual exige que o homem se despoje de seu eu comum e habitual a fim de se tornar verdadeiramente ‘si mesmo’, transformação que não acontece sem o sacrifício de riquezas aparentes e de pretensões vãs, portanto sem humilhação, nem sem combate contra as paixões das quais o ‘velho eu’ é tecido. É por isso que se encontra na mitologia e no folclore de quase todos os povos o tema do herói real que volta ao seu próprio reino sob a aparência de um estrangeiro pobre ou mesmo de um saltimbanco ou de um mendigo, para reconquistar, depois de muitas provas, o bem que lhe pertence legitimamente e que um usurpador lhe havia roubado.”

Siga este enlace para ler o ensaio inteiro.

Para ler sobre Burckhardt, siga este enlace.

Por que há diversas religiões?

Em Sentiers de Gnose, Frithjof Schuon inicia o capítulo “Diversidade da Revelação” com um parágrafo incrivelmente simples, profundo e completo ao mesmo tempo. Passagens como esta estão em toda a parte na obra schuoniana e são um claro sinal de que esta obra se situa no mais alto plano de intelectualidade.

Dado que só há uma Verdade, não se deveria concluir que só há uma Revelação, só uma Tradição possível? A esta questão, responderemos em primeiro lugar que Verdade e Revelação não são termos absolutamente equivalentes, pois a Verdade se situa além das formas, e a Revelação, ou a Tradição que dela deriva, é de ordem formal, e isto por definição mesmo; ora, quem diz forma, diz pluralidade; a razão de ser e a natureza da forma são a expressão, a limitação, a diferenciação.

O que entra na forma, entra por isso mesmo no número, portanto na repetição e na diversidade; o princípio formal — inspirado pela infinitude da Possibilidade divina — confere a esta repetição a diversidade.

Poder-se-ia conceber, é verdade, que só haja uma Revelação ou Tradição para o nosso mundo humano e que a diversidade se realize através de outros mundos, desconhecidos para os homens ou mesmo incognoscíveis para eles; mas isso seria não compreender que o que determina a diferença das formas da Verdade é a diferença dos receptáculos humanos.

Já há muitos milênios, a humanidade se divide em vários ramos fundamentalmente diferentes, que constituem uma série de humanidades totais, portanto mais ou menos encerradas em si mesmas; a existência de receptáculos espirituais tão diferentes e tão originais exige a refração diferenciada da Verdade una.

Notemos que não se trata de raças, mas as mais das vezes de grupos humanos talvez muito variados, mas apesar disso submetidos a um conjunto de condições mentais que fazem deles recipientes espirituais suficientemente homogêneos, o que não poderia impedir que os indivíduos possam sempre sair desses marcos, pois o coletivo humano não tem nunca nada de absoluto.

Isto posto, diremos que as diversas Revelações não se contradizem realmente, pois elas não se aplicam ao mesmo receptáculo, e Deus não dirige jamais uma mesma mensagem a dois ou mais receptáculos de características divergentes, ou seja, que correspondem analogicamente a dimensões formalmente incompatíveis; só se podem contradizer entre si coisas que se situam num mesmo plano.

As aparentes antinomias das Tradições são como diferenças de linguagem ou de símbolo; as contradições estão do lado dos receptáculos humanos, não do lado de Deus; a diversidade do mundo é função de seu afastamento do Princípio divino, o que equivale a dizer que o Criador  não pode querer que o mundo seja, mas que ele não seja o mundo.

Se Deus é bom, por que o mal existe?

“Se Deus fosse bom, raciocinam os ateus e mesmo certos deístas, ele aboliria o mal. Temos para isto duas respostas, e conhece-se a primeira: Deus não poderia abolir o mal como tal, porque este é do domínio da Onipossibilidade, a qual é ontologicamente “anterior” ao Deus-Pessoa; por consequência, Deus não pode abolir determinado mal senão na medida em que, ao fazê-lo, ele leva em conta a necessidade metafísica do mal em si.(1) Nossa segunda resposta supera de certa forma a primeira, ao ponto de parecer contradizê-la: Deus sendo bom, ele abole de fato, não somente este ou aquele mal, mas o mal enquanto tal; este ou aquele mal porque todas as coisas têm um fim, e o mal enquanto tal porque este — estando submetido à mesma regra, no final das contas — desaparece em virtude dos ciclos cósmicos e pelo efeito da Apocatástase (2); assim, a fórmula vincit omnia Veritas se aplica não somente à Verdade, mas também ao Bem sob todos os seus aspectos. E isto significa igualmente que não poderia haver nenhuma simetria entre o Bem e o mal; (3) este não tem nenhum ser por si mesmo, enquanto aquele é o ser de todas as coisas. O Bem é O que é; o Ser e o Bem coincidem.

“É verdade que, à nossa segunda resposta, poder-se-ia objetar que seu alcance é somente relativo, porque os términos cíclicos não abolem a possibilidade do mal, o qual, de fato, deve reaparecer no curso de cada ciclo num grau qualquer. Isso é verdadeiro — sem ser realmente uma objeção — e nos leva mais uma vez ao problema da própria natureza do Infinito, a qual implica que a Onipossibilidade deva incluir, por definição, a possibilidade de sua própria negação, na medida, precisamente, em que esta negação é possível; e ela o é, não no próprio plano do Princípio, está claro, mas numa modalidade já muito relativa da contingência, portanto na extremidade inferior de Mâyâ, e, por consequência, de uma maneira “ilusória”, ou seja, irreal no nível do Absoluto.”

 Notas

(1) O que é ontologicamente necessário é “o que está escrito”, em linguagem semítica.
(2) Segundo a doutrina hindu, a “noite de Brahma” sucede ao “dia de Brahma“: depois da projeção vem a reintegração.
(3) É em virtude deste princípio que a beleza, por exemplo, é ontologicamente mais real que a feiúra — o que o espírito moderno nega com um furor bem característico, ele que relativiza, subjetiviza e inverte tudo — e é por isto ainda que a “idade de ouro” é muito mais longa que as outras idades, e particularmente do que a “idade de ferro”.

(Extraído do livro de Frithjof Schuon intitulado Résumé de Métaphysique Intégrale: Le Courrier du Livre, Paris, 1985, pp. 45 e 46.)

A distinção entre a Divindade e o Deus Pessoal é central na metafísica. Frithjof Schuon a expõe reiteradamente em seus escritos. Mestre Eckhart, no Catolicismo, foi um dos poucos a expor a mesma doutrina: a distinção entre Gottheit e Gott, para usar os termos alemães. Na metafísica hindu, ela aparece como a distinção entre Brahma Nirguna e Brahma Saguna.