Arquivo da categoria: Religio Perennis

A hipótese evolucionista desconhece o que é o homem

Shri Chandrasekharendra Saraswati Mahaswamigal (1894 – 1994)

Aqueles que sustentam o argumento evolucionista de um progresso intelectual gostam de explicar as ideias religiosas e metafísicas por meio de fatores psicológicos inferiores, como o medo do desconhecido, a esperança infantil de uma felicidade perpétua, o apego a um conjunto de imagens que se tornou querido, a evasão nos sonhos, o desejo de oprimir o outro sem ter de pagar por isso et caetera; como não se vê que tais suspeitas, apresentadas sem vergonha como fatos demonstrados, comportam inconsequências e impossibilidades psicológicas que não escapam a nenhum observador imparcial? Se a humanidade foi tola durante milênios, não se explica como ela pôde deixar de sê-lo, tanto mais quanto isso teria se dado num tempo relativamente muito curto; e se explica menos ainda quando se observa com que inteligência e que heroísmo ela foi tola durante um tempo tão longo e com que miopia filosófica e que decadência moral ela se tornou por fim “lúcida” e “adulta”.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 18


Ceux qui soutiennent l’argument évolutionniste d’un progrès intellectuel aiment à expliquer les idées religieuses et métaphysiques par des facteurs psychologiques inférieurs, tels que la peur de l’inconnu, l’espoir infantile d’un bonheur perpétuel, l’attachement à une imagerie devenue chère, l’évasion dans les rêves, le désir d’opprimer autrui à bon compte, et caetera ; comment ne voit-on pas que de tels soupçons, présentés sans vergogne comme des faits démontrés, comportent des inconséquences et impossibilités psychologiques qui n’échappent à aucun observateur impartial ? Si l’humanité a été stupide pendant des millénaires, on ne s’explique pas comment elle a pu cesser de l’être, d’autant que ce fut dans un laps de temps relativement très court ; et on se l’explique d’autant moins quand on observe avec quelle intelligence et quel héroïsme elle a été stupide pendant si longtemps et avec quelle myopie philosophique et quelle décadence morale elle est devenue enfin « lucide » et « adulte ».

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 18

Uma antecipação da extinção em Deus

O Emir ‘Abd Al-Qadr, guerreiro e místico.

Entre as qualidades que são indispensáveis para a espiritualidade em geral, citaremos em primeiro lugar uma atitude mental que poderíamos designar, na falta de um melhor termo, como “objetividade”: é uma atitude da inteligência totalmente desinteressada, portanto livre de ambição e de partidarismo e, por este fato, marcada pela serenidade. Em segundo lugar, mencionaremos uma qualidade que diz respeito à vida psíquica do indivíduo: é a nobreza, ou seja, a elevação da alma em relação às coisas mesquinhas; no fundo, é um discernimento, em modo psíquico, entre o essencial e o acidental, ou entre o real e o irreal. Por fim, há a virtude da simplicidade: o homem está livre de toda crispação inconsciente que tenha por base o amor-próprio; em relação aos seres e às coisas, ele tem uma atitude completamente original e espontânea, ou seja, desprovida de todo artifício; ele está livre de toda pretensão, ostentação ou dissimulação; numa palavra, ele não tem orgulho. Todo método espiritual exige antes de tudo uma atitude de pobreza, de humildade, de simplicidade ou de autoapagamento, atitude que é como uma antecipação da extinção em Deus.

Schuon, L’Œil du Cœur, éd. L’Harmattan, 2017, p. 154


Parmi les qualités qui sont indispensables pour la spiritualité en général, nous nommerons d’abord une attitude mentale que nous pourrions désigner, faute d’un meilleur terme, par le mot « objectivité » : c’est une attitude parfaitement désintéressée de l’intelligence, donc libre d’ambition et de parti pris et, de ce fait, empreinte de sérénité. En second lieu, nous nommerons une qualité concernant la vie psychique de l’individu : c’est la noblesse, c’est-à-dire l’élévation de l’âme par rapport aux choses mesquines ; c’est au fond un discernement, en mode psychique, entre l’essentiel et l’accidentel, ou entre le réel et l’irréel. Enfin, il y a la vertu de simplicité : l’homme est libéré de toute crispation inconsciente à base d’amour-propre ; il a, vis-à-vis des êtres et des choses, une attitude parfaitement originale et spontanée, c’est-à-dire dépourvue de tout artifice ; il est libre de toute prétention, ostentation ou dissimulation ; en un mot, il est sans orgueil. Toute méthode spirituelle exige avant tout une attitude de pauvreté, d’humilité, de simplicité ou d’effacement, attitude qui est comme une anticipation de l’extinction en Dieu.

Schuon, L’Œil du Cœur, éd. L’Harmattan, 2017, p. 154

A divindade do Tennô não pode ser abolida

Imperador Kanmu, séc. XVI.

Dissemos […] que o Tennô [1] é como a encarnação do Shintô, pelo fato de que e ele descende, através de Jimmu Tennô, Fundado do Império, da Deusa solar Amaterasu-Omikami; resta-nos falar das prerrogativas espirituais que esta origem e esta função implicam. Podemos, por analogia, fazer uma ideia dessas prerrogativas referindo-nos ao caso muito semelhante, no Islã, dos xerifes — os descendentes do Profeta —, que gozam de uma situação humana e mesmo escatológica privilegiada: Deus os perdoou de antemão graças à barakah [2] de seu sangue mohammediano [3]; deve-se aceitar suas faltas eventuais como se aceitam decretos divinos, com paciência e mesmo, se possível, com gratidão; sua bênção é benéfica, sua cólera traz infelicidade; se são piedosos, têm todas as chances de atingir a santidade.

Privilégios como estes, que não têm nada de arbitrário, por mais surpreendentes que possam parecer à primeira vista, ligam-se a toda linhagem de origem “avatárica” [4], portanto tambem à de Jimmu Tennô, que, este, tem incontestavelmente a qualidade de “Profeta”; mas, como “noblesse oblige” [5], a qualidade de xerife ou de Tennô exige as virtudes de que o Ancestral respectivo era como a encarnação.

Segundo o que acabamos de dizer, é plausível que a divindade do Tennô não poderia ser “abolida” nem por um decreto qualquer, nem pelo próprio Imperador, cujo pensamento individual não tem poder sobre a qualidade imperial e as virtualidades que ela comporta.

Notas

[1] O Imperador do Japão. (N. do E.)
[2] Palavra árabe que significa “bênção”, “força espiritual”. (N. do E.)
[3] “De Mohammed”, ou seja, “de Maomé”. (N. do E.)
[4] Um avatâra é, no Hinduísmo, uma encarnação divina. (N. do E.)
[5] Provérbio francês: “a nobreza obriga”, ou seja, “cria uma obrigação”. (N. do E.)

Schuon, Images de l’esprit, Le Courrier du Livre, Paris, 1982, pp. 50-51.

“Por que choras?”

“E Maria estava chorando fora, junto ao sepulcro. Estando ela, pois, chorando, abaixou-se para o sepulcro e viu dois anjos vestidos de branco, assentados onde jazera o corpo de Jesus, um à cabeceira e outro aos pés. E disseram-lhe eles: ‘Mulher, por que choras?’ Ela lhes disse: ‘Porque levaram o meu Senhor, e não sei onde o puseram.’ E, tendo dito isso, voltou-se para trás e viu Jesus em pé, mas não sabia que era Jesus. Disse-lhe Jesus: ‘Mulher, por que choras? Quem buscas?’ Ela, cuidando que era o hortelão, disse-lhe: ‘Senhor, se tu o levaste, dize-me onde o puseste, e eu o levarei.’ Disse-lhe Jesus: ‘Maria!’ Ela, voltando-se, disse-lhe: ‘Raboni (que quer dizer Mestre)!’ Disse-lhe Jesus: ‘Não me detenhas, porque ainda não subi para meu Pai, mas vai para meus irmãos e dize-lhes que eu subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus.’ Maria Madalena foi e anunciou aos discípulos que vira o Senhor e que ele lhe dissera isso.”

João, 20, 11-18.

Realizar em si mesmo a Paixão

Cruz de San Damiano (séc. XII): o crucifixo que falou com São Francisco de Assis.

Nesta passagem, Schuon comenta os episódios da vida de Cristo em relação à vida espiritual do homem que segue o método da Invocação do Nome divino. Embora várias referências possam parecer soltas, por estar a passagem fora de seu contexto maior, entendo que mesmo assim vale a pena publicar este texto aqui, por ocasião desta Semana Santa. [N. do E.]


Em termos iniciáticos, a Anunciação é a entrada de Deus no homem, tal como acontece nos Sacramentos, que conferem o Espírito Santo ou Cristo; Deus se tornou verdadeiro homem para que o homem possa se tornar verdadeiro Deus. A Visitação é a conformidade da alma à “Presença real”, a consciência que tem o homem de “portar” a Divindade, a concentração devocional e alegre de todo o ser na “Semente divina”. A Natividade de Cristo é a invocação do Nome salvífico — aquela que actualiza a virtualidade espiritual implicada na “Presença”. A seguir vem a apresentação de Cristo no Templo: o homem, purificado e santificado por esta Presença de Deus, não deixa de se considerar um mero homem e permanece sempre consciente, a despeito dos êxtases da Graça, de suas limitações como criatura e também das limitações que o suporte divino — o Nome — contém em sua “materialidade” [1]. E o encontrarem o Menino Jesus no Templo: depois da “secura” em que o Nome divino deixou a alma, o Nome é revelado como a fonte misteriosa de toda sabedoria.

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Reformar o homem é religá-lo ao Céu

Índio das pradarias da América do Norte.

O mundo é infeliz porque os homens vivem abaixo de si mesmos; o erro dos modernos é querer reformar o mundo sem querer nem poder reformar o homem; e essa contradição flagrante, essa tentativa de fazer um mundo melhor com base numa humanidade pior, só pode levar à própria abolição do humano e, por consequência, também da felicidade. Reformar o homem é religá-lo ao Céu, restabelecer o elo rompido; é arrancá-lo do reino da paixão, do culto da matéria, da quantidade e da esperteza, e reintegrá-lo no mundo do espírito e da serenidade; diríamos mesmo: no mundo da razão suficiente.

Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, pp. 34-35.
Há edição brasileira: Para Compreender o Islã, Nova Era.

Toda religião é, interiormente, a doutrina do “Si” único

Compreender-se-á melhor a natureza da pura intelecção levando em conta isto: o Intelecto, que é Um, apresenta-se sob três aspectos fundamentais — ao menos na medida em que nos situamos na “ilusão separativa”, o que é caso para toda criatura enquanto tal —, a saber, primeiramente, o Intelecto divino, que é Luz e puro Ato; em segundo lugar, o Intelecto cósmico, que é receptáculo ou espelho em relação a Deus e luz em relação ao homem; e, em terceiro lugar, o Intelecto humano, que é espelho em relação aos dois precedentes e luz em relação à alma individual [1]; é preciso ter o cuidado, por consequência, de distinguir no Intelecto — exceto no Intelecto divino — um aspecto “incriado”, que é essencial, e um aspecto “criado”, que é “acidental” ou antes “contingente” [2].

Esta visão sintética das coisas “resulta”, se assim podemos dizer [3], do princípio da não-alteridade: o que não é “outro” de forma nenhuma é “idêntico” sob o aspecto considerado, de modo que a inteligência enquanto tal — tanto a de um homem que se conforma à verdade como a de uma planta que se volta irresistivelmente para a luz — “é” a de Deus; a inteligência só é “humana” ou “vegetal” sob o aspecto de seus limites específicos, e o mesmo vale, aliás, para todas as qualidades positivas, portanto para todas as virtudes, que são sempre as de Deus, não em sua acidentalidade redutora, está claro, mas em seu conteúdo ou sua essência.

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As provações da vida são aspectos de nós mesmos

A via espiritual abrange todos os acontecimentos da vida; não há nada que não lhe diga respeito de alguma maneira. As provações da vida não são perturbações sem sentido, mas aspectos seja de nós mesmos, seja da Realidade, portanto elementos necessários e inevitáveis da via. Para fazê-las frutificar, elas devem ser aceitas como vindas de Deus: com gratidão e louvor. Só então o homem pode esperar entender completamente o significado da provação, ou, quando se trata de uma situação aparentemente sem saída, esperar ser liberto dela, se Deus quiser.

Mesmo as distrações, na medida em que um ambiente inevitável as impõe, devem ser aceitas, não como obstáculos ou problemas que vieram por acaso, e dos quais temos de nos queixar, mas como provações enviadas por Deus; devemos integrá-las em nossa vida espiritual e tirar delas o melhor partido. Uma espiritualidade verdadeira não pretende situar-se, como um artigo de luxo, à margem dos desmandos da vida, pois ela não considerará esta última de maneira totalmente egoísta e profana; todos os acontecimentos estão bem enquanto vindos de Deus, e todo o mal como tal vem da natureza humana; isto quer dizer que, para o contemplativo, os fatos não podem deixar de ter um significado espiritual.

Schuon, carta de 18 de julho de 1951.

Trad. de Mateus S. Azevedo.

A palavra sagrada deve marcar a alma do homem

Arabescos no Alhambra, Espanha.

Só o homem possui o dom da palavra, pois só ele, entre todas as criaturas terrestres, é “feito à imagem de Deus” de uma maneira direta e total; e como é em virtude dessa semelhança — contanto que ela seja levada a dar frutos pelos meios apropriados — que o homem é salvo, portanto em virtude da inteligência objetiva [*], da vontade livre e da palavra verídica, articulada ou não, compreender-se-á sem dificuldade o papel capital que exercem na vida do muçulmano estas palavras por excelência que são os versículos do Alcorão; eles são não somente sentenças que transmitem pensamentos, mas de certa forma seres, forças e talismãs; a alma do muslîm está como que tecida de fórmulas sagradas, é nelas que ele trabalha e que ele repousa, que ele vive e que ele morre.

[*] Objetividade que permitiu a Adão “nomear” todas as coisas e todas as criaturas, ou, em outros termos, que permite ao homem conhecer os objetos, as plantas e os animais, enquanto que eles não o conhecem; mas o conteúdo por excelência dessa inteligência é o Absoluto; quem pode mais, pode menos, e é porque o homem pode conhecer Deus que ele conhece o mundo. A inteligência humana é à sua maneira uma “prova de Deus”.

Schuon, Comprendre l’Islam, Éditions du Seuil, 1976, p. 65

O Verbo deve “encarnar-se” na alma “virgem”

A Virgem-Mãe e o Menino (pintura de Frithjof Schuon).

Deus tornou-se homem, a fim que o homem se torne Deus. O primeiro mistério é a Encarnação, e o segundo, a Redenção.

Contudo, assim como o Verbo, encarnando-se, estava já, de certo modo, crucificado, assim também o homem, ao retornar a Deus, deve participar dos dois mistérios: o ego é crucificado em relação ao mundo, mas a graça salvadora se encarna no coração; a santidade é o nascimento e a vida de Cristo em nós.

Esse mistério da Encarnação tem dois aspectos: o Verbo, por um lado, e seu receptáculo humano, por outro; o Cristo e a Virgem-Mãe. A fim de poder realizar em si mesma este mistério, a alma deve ser como a Virgem, pois, assim como o Sol só pode se refletir na água quando ela está calma, da mesma forma a alma só pode receber Cristo na pureza virginal, na simplicidade original, e não no pecado, que é perturbação e desequilíbrio.

Por “mistério” entendemos não algo de incompreensível em princípio — a menos que seja no plano puramente racional —, mas algo que desemboca no Infinito, ou que é considerado sob esse aspecto, de forma que a inteligibilidade torna-se ilimitada e humanamente inesgotável. Um mistério é sempre “algo de Deus”.

Schuon, extrato do ensaio “Mistérios Crísticos e Virginais”, in Sentiers de Gnose, La Place Royale,1987, pp. 163-194.

“A Virgem identifica-se àquele que invoca…”

Pintura de Catherine Schuon.

A representação, nas imagens da Natividade, do boi, animal dócil, e do asno, animal teimoso, é suscetível da seguinte interpretação: o boi, que, aliás, era sagrado para os antigos semitas, está armado de chifres e alia em si a doçura e a força; ele representa, na invocação (*), o “guardião do santuário”: é o espírito de submissão, de fidelidade, de perseverança, o esforço de concentração; o asno, animal “profano”, cujo zurro é chamado de “invocação de Satã” (dhikr ash-Shaytân), é a testemunha satânica na invocação, ou seja, o espírito de insubmissão e de dissipação.

Nesta mesma representação, a Virgem (…) identifica-se àquele que invoca; São José, pai adotivo de Cristo, representa a presença invisível do mestre espiritual na invocação; os visitantes, resumidos de certa forma nos Reis magos, representam o que se poderia chamar “homenagem cósmica” que aflui em direção ao homem santificado, e de que as Escrituras hindus falam ao dizer que “os Céus resplendecem da glória do Mukta” (“libertado”), o que sugere uma aproximação com a adoração de Adão pelos anjos, no Alcorão; por fim, a noite que envolve a cena da Natividade, mas que é iluminada pela estrela, a testemunha divina, representa a morte iniciática ou a solidão, ou ainda a extinção da mente, estado cujo suporte ritual é a khalwah ou o “retiro” das escolas súfis. Por outro lado, a noite da Natividade, assim como a khalwah, correspondem à Laylat al-qadr do Alcorão.

(*) A invocação de um Nome Divino ou de uma fórmula revelada, conhecida como dhikr no Islã e japa-yoga no Hinduísmo, e presente em todas as tradições.

Schuon, extrato do artigo “Comunhão e Invocação”, inédito em português.


La figuration, sur les images de la Nativité, du boeuf, animal docile, et de l’âne, animal têtu, est susceptible de l’interprétation suivante: le boeuf, qui était d’ailleurs sacré chez les anciens Sémites, est armé de cornes et allie en lui la douceur et la force; il représente, dans l’invocation, le “gardien du sanctuaire”: c’est l’esprit de soumission, de fidélité, de persévérance, l’effort de concentration; l’âne, animal “profane” dont le cri est appelé “invocation de Satan” (dhikr esh-Shaytân), est le témoin satanique dans l’invocation, c’est-à-dire l’esprit d’insoumission et de dissipation.

Dans cette même figuration, la Vierge (…) s’identifie à celui qui invoque; Saint-Joseph, père adoptif du Christ, représente la présence invisible du maître spirituel dans l’invocation; les visiteurs, résumés en quelque sorte dans les Rois mages, représentent ce qu’on pourrait appeler “l’hommage cosmique” qui afflue vers l’homme sanctifié, et dont parlent les Écritures hindoues en disant que “les Cieux resplendissent de la gloire du Mukta” (“délivré”), ce qui suggère un rapprochement avec l’adoration d’Adam par les anges dans le Qoran; enfin, la nuit qui enveloppe la scène de la Nativité, mais qui est illuminé par l’étoile, le témoignage divin, représente la mort initiatique ou la solitude, ou encore l’extinction du mental, état dont le support rituel est la khalwah ou “retraite” des écoles çûfiques. D’autre part, la nuit de la Nativité ainsi que la khalwah correspondent à la Laylat el-qadr du Qoran.

Schuon, extrait de l’article “Communion et Invocation”.

O símbolo religioso está também dentro de nós

O mito da Criação.

Um exemplo clássico do dogma ingênuo é a história bíblica da criação, e então a do primeiro par humano: se somos céticos, choca-nos a infantilidade do texto literal, mas, se somos intuitivos — e todo homem deveria sê-lo —, somos sensíveis às verdades irrefutáveis das imagens; sentimos que portamos essas imagens em nós mesmos, que elas têm uma validade universal e intemporal. A mesma observação se aplica aos mitos e mesmo aos contos de fadas: ao descrever os princípios — ou situações — que dizem respeito ao universo, eles descrevem ao mesmo tempo realidades psicológicas e espirituais da alma; e, nesse sentido, pode-se dizer que os simbolismos da religião ou da tradição popular são, para nós, algo de experiência corrente, na superfície e em profundidade.

Frithjof Schuon, Approches du phénomène religieux, Le Courrier du Livre, 1984, p. 66.


Un exemple classique du dogme naïf est l’histoire biblique de la création, puis celle du premier couple humain : si nous sommes des sceptiques, nous nous heurtons à l’infantilisme du mot-à-mot, mais si nous sommes des intuitifs – et tout homme devrait l’être – nous sommes sensibles aux vérités irréfutables des images ; nous sentons que nous portons ces images en nous-mêmes, qu’elles ont une validité universelle et intemporelle. La même remarque s’applique aux mythes et même aux contes de fées : décrivant les principes – ou des situations – qui concernent l’univers, ils décrivent en même temps des réalités psychologiques et spirituelles de l’âme ; et en ce sens on peut dire que les symbolismes de la religion ou de la tradition populaire sont pour nous d’expérience courante, à la surface et en profondeur.

Frithjof Schuon, Approches du phénomène religieux, Le Courrier du Livre, 1984, p. 66.

Cremos na Mensagem porque ela é o que somos

Shiva Nataraja, séc. X ou XI, Instituto de Arte de Chicago.

O valor de um homem está em sua consciência do Absoluto, e por consequência na integralidade e profundidade dessa consciência; tendo perdido isso de vista ao mergulhar no mundo dos fenômenos considerados em si mesmos, o homem tem necessidade, para voltar a lembrá-lo, da Mensagem celeste. No fundo, essa Mensagem vem “dele mesmo”; não de seu eu empírico, está claro, mas de sua ipseidade imanente, que é a de Deus e sem a qual não haveria eu humano, nem angélico, nem outro; a credibilidade da Mensagem resulta do fato de que ela é o que nós somos, ao mesmo tempo em nós mesmos e além de nós mesmos. No fundo da transcendência está a imanência, e no fundo da imanência, a transcendência.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 152.


La valeur de l’homme est dans sa conscience de l’Absolu, et par conséquent dans l’intégralité et la profondeur de cette conscience ; l’ayant perdu de vue en s’enfonçant dans le monde des phénomènes envisagés en tant que tels, l’homme a besoin, pour le lui rappeler, du Message céleste. Au fond, ce Message vient de « lui-même » ; non de son moi empirique bien entendu, mais de son immanente ipséité, qui est celle de Dieu et sans laquelle il n’y aurait pas de moi humain, ni angélique, ni autre ; la crédibilité du Message résulte du fait qu’il est ce que nous sommes, à la fois en nous-mêmes et au-delà de nous-mêmes. Au fond de la transcendance est l’immanence, et au fond de l’immanence, la transcendance.

Schuon, Du Divin à l’humain, Le Courrier du Livre, 1981, p. 152.

A pobreza não justifica a impiedade

Mendigo marroquino, c. 1910.

Uma variante bem “atual” do sentimentalismo ideológico que temos em vista, e muito difundida entre os próprios crentes, é a obsessão demagógica pelo “social”. Em outro tempo, quando todo o mundo era religioso, a pobreza preservava os pobres da hipocrisia, ou de certa hipocrisia; em nossos dias, a pobreza engendra com demasiada frequência a descrença e a inveja — nos países industrializados ou atingidos pela mentalidade industrialista —, de modo que ricos e pobres estão quites; à hipocrisia dos primeiros responde a impiedade dos últimos.

É profundamente injusto preferir este novo vício dos pobres ao vício habitual — e tradicionalmente estigmatizado — dos ricos, desculpar a impiedade dos pobres por sua pobreza sem desculpar a hipocrisia dos ricos por sua riqueza; se os pobres são vítimas de seu estado, os ricos são da mesma forma do seu e, se a pobreza dá direito à impiedade, a riqueza dá direito ao simulacro de piedade. Se é preciso, espiritualmente, ter compaixão pelos pobres, é preciso, da mesma forma, ter compaixão pelos ricos e desculpá-los, tanto mais quanto a diferença só reside em situações de todo exteriores e facilmente reversíveis, e não na natureza fundamental dos homens; não se pode preferir os pobres a não ser quando são melhores que os ricos por sua sinceridade espiritual, sua paciência, seu heroísmo secreto — tais pobres existem sempre, assim como ricos desapegados de sua riqueza — e não quando são piores por sua descrença, sua inveja ou seu ódio.

Os cristãos perseguidos sob Nero sofriam mais do que sofrem hoje os trabalhadores mal pagos, sem que nenhuma teologia lhes concedesse o direito de não mais crer em Deus e de desprezar sua Lei; a tradição nunca admitiu essa espécie de chantagem econômica para com Deus.

Schuon, A Transfiguração do Homem, livro disponível neste website, pp. 28-29.

O que amamos, no fundo nós o somos

Pintura de Schuon.

“O reino de Deus está dentro de vós”, ou seja, na subjetividade espiritual e, portanto, transpessoal; se é assim, qual pode ser o significado de nossa vida exterior, de nossos contatos com os seres e as coisas? É que os fenômenos positivos manifestam os tesouros celestes que trazemos em nós mesmos, e nos ajudam a descobri-los e a realizá-los; aquilo que nós amamos, nós o somos no fundo, e é por isso que nós o amamos; o sujeito mais profundo alcança as margens mais felizes. É preciso ter o senso da beleza e o senso do sagrado, e também — num plano muito mais modesto — o senso do perfume divino dos prazeres naturais que nos oferece a vida deste mundo, o que implica que nós disponhamos deles com nobreza.

Schuon, Raízes da Condição Humana, livro publicado neste website.