A partir de um certo grau de perversão, não há mais circunstâncias atenuantes, precisamente porque esse grau abole aquelas que poderia haver. Não há jamais nenhuma desculpa para o elemento satânico, e procurar uma desculpa provém desse mesmo elemento; desculpar a infâmia é gravíssimo.
E é importante saber que o homem que se tornou perverso carrega sempre a total responsabilidade por sua baixeza ou sua decadência; o que quer dizer: a infâmia de um não pode nunca ser culpa de outros. Um trauma tem limites que permitem desculpas; a infâmia supera esses limites.
As religiões não tinham escolha: a cisão, no homem comum da “idade de ferro”, entre o intelecto e uma inteligência extravertida e superficial obrigava-as a tratar os adultos como crianças, sob pena de ineficácia psicológica, moral e social. As ideologias profanas, ao contrário, tratam como adultos homens tornados quase irresponsáveis por suas paixões e suas ilusões, o que equivale a dizer que elas os incitam a brincar com fogo; é bem fácil ver os resultados sinistros disso em nossa época.
No exoterismo religioso, a eficácia assume por vezes o lugar da verdade, e com razão, dada a natureza dos homens aos quais ele se dirige; em outros termos, para o teólogo voluntarista e moralista, é verdadeiro o que dará bom resultado; para o metafísico nato, ao contrário, é eficaz o que é verdadeiro; “não há direito superior ao da verdade”. Mas nem todo mundo é um “pneumático”, e é preciso equilibrar as sociedades e salvar as almas como for possível.
Frithjof Schuon, “O pensamento: luz e perversão”, em A Transfiguração do Homem, Sapientia, 2008, pág. 18.
“Não são as ações que importam em primeiro lugar, são as intenções, nos diz tanto a sabedoria tradicional quanto o senso comum; muito bem, mas é evidente que isso não poderia significar, como alguns imaginam, que se possa desculpar toda ação imperfeita, ou mesmo má, supondo que a intenção foi boa ou mesmo alegando que toda intenção é boa no fundo, unicamente por ser subjetiva e, segundo alguns, a subjetividade ter sempre razão.”
“É equivocadamente que Pascal atribui aos jesuítas a ideia de que ‘o fim santifica os meios’ — citamos a versão que se tornou proverbial —, pois, de fato, eles tinham tido o cuidado de especificar: com a condição de que os meios não sejam intrinsecamente viciosos; se esta reserva não fosse suficiente, não haveria legítima defesa possível.”
“Eu acabo de tomar conhecimento da lista de suas publicações e constato que elas são em sua maioria de espírito racista, fascista, nazista, portanto de forma nenhuma tradicionalista no sentido próprio e autêntico do termo.
O monastério de Pecherska Lavra, em Kyiv (Kiev), na Ucrânia. [Foto: Jean & Nathalie, Wikimedia Commons]
“Concretamente, a pátria é, não necessariamente um Estado, mas a terra, ou a paisagem, onde se nasceu, e o povo ou o grupo étnico ou cultural ao qual se pertence; não é senão natural que o homem ame sua ambiência de origem, assim como é natural, nas condições normais, que o homem ame seus pais ou que os esposos se amem reciprocamente e amem seus filhos; e não é menos natural que todo homem contribua, segundo sua função e seus meios, à defesa de seu país ou de seu povo quando eles são atacados.”
A qualificação intelectual reside muito menos na capacidade — sempre relativa e frequentemente ilusória — de compreender determinadas concepções metafísicas do que na qualidade puramente contemplativa da inteligência; essa qualidade implica a ausência de elementos passionais, não no homem, mas em seu espírito **. A pureza da inteligência é infinitamente mais importante do que sua capacidade efetiva: “Bem-aventurados os que têm o coração puro”, disse Cristo, e não: “aqueles que são inteligentes”.
O “coração” significa o intelecto, e por extensão a essência individual, a tendência fundamental, do homem; nos dois sentidos, ele é o centro do ser humano.
Schuon, Perspectives Spirituelles et Faits Humains, 1989, p. 102.
** Nota do editor: esprit, em francês, significa aqui o “pensamento”.
Quando multiplicamos 3 por 4, o produto é 12; não é nem 11, nem 13, mas exprime exatamente as potências conjugadas do multiplicando e do multiplicador. Da mesma forma — metaforicamente falando —, quando se multiplica a religião cristã pela humanidade ocidental, o produto é a Idade Média; não é nem a época das invasões bárbaras, nem a do Renascimento. Quando um organismo vivo atingiu seu crescimento máximo, ele é o que ele deve ser; ele não deve nem deter-se no estado infantil, nem continuar a crescer. A norma não é a hipertrofia, ela é o limite exato do desenvolvimento normal. E o mesmo vale para as civilizações.
Quando se parte da ideia sumária — voltada unicamente para uma certa eficácia — de que o mundo é impermanente e nada mais, que ele é composto de “categorias” ou de “átomos” cambiantes e impermanentes e que só o Nirvana possui a permanência, esquece-se, estranhamente — a menos que se ache supérfluo pensar nisso — que seria impossível escapar à impermanência ou mesmo simplesmente conceber a ideia de impermanência e de libertação se não houvesse um elemento de permanência no impermanente ou de absolutez no relativo. Inversamente e a priori, é preciso que haja um elemento de relatividade no Absoluto, sem o que não existiriam nem o relativo, nem, com maior razão, a noção de relatividade e a saída do relativo; é o que mostra à sua maneira o símbolo do Yin-Yang, que mencionamos muitas vezes noutras ocasiões.
Ora, esse elemento de absolutez ou de permanência no seio mesmo do contingente e do impermanente é precisamente nossa própria essência, que é “natureza do Buda”; recuperar nossa própria natureza fundamental é realizar a Permanência e escapar à “roda da existência”.
Frithjof Schuon, “Observações elementares sobre o enigma do Koan”, capítulo do livro O Olho do Coração (L’Oeil du Coeur, Dervy Livres, Paris, 1974). Imagem: estátua de Buda em Gal Vihara, Sri Lanka. Foto de Bernard Gagnon, via Wikimedia Commons. #frithjofschuon #sophiaperennis
Ela que dá o silêncio à mente agitada —
Em que a alma a Paz divina encontrou.
Ela é Benares, cidade sagrada.
É a Ela que eu amo — é Ela que eu sou.
* * *
Sie, die des Denkens Fluss zum Schweigen bringt,
Göttlich besänftigend der Seele Sinn —
Sie ist Benares, ist die heilge Stadt;
Sie ist es, die ich liebe — die ich bin.
(Fiz uma tradução aproximada deste pequeno e belo poema alemão de Schuon, com ajuda da tradução francesa.) #frithjofschuon #sophiaperennis
Ci sono due momenti nella vita che sono tutto, e cioè il momento presente, in cui siamo liberi di scegliere quello che vogliamo essere, e il momento della morte, nel quale non abbiamo più scelta alcuna e dove la decisione spetta a Dio.
Ora, se il momento presente è buono, la morte sarà buona; se siamo adesso con Dio — nel presente che si rinnova senza posa ma resta sempre questo solo momento attuale — Dio sarà con noi nel momento della nostra morte.
Il ricordo de Dio è una morte nella vita, sarà una vita nella morte.
In maniera analoga: se entriamo in Dio, Dio entrerà in noi.
Se dimoriamo in quel centro che è il suo Nome, Dio abiterà il centro costituito dal nostro cuore. Nell’intera estensione del mondo non c’è nient’altro che questa reciprocità; poiché il centro è in ogni dove, come il presente è sempre.
Tra il momento presente, nel quale ci ricordiamo di Dio, e la morte, in cui Dio si ricorderà di noi — e tale reciprocità è già in ogni Invocazione — c’è il resto della vita, la durata che s’estende dal momento presente fino a quello estremo; ma la durata è soltanto una successione di momenti presenti, giacché viviamo sempre “ora”; è pertanto, in una prospettiva concreta e operativa, sempre il medesimo istante in cui siamo liberi di ricordarci di Dio e di trovare la nostra felicitá in quel Ricordo.
Non siamo liberi di sfuggire alla morte, lo siamo però di scegliere Dio, in questo momento presente che riassume qualsiasi momento possibile. É vero che solo Dio è libero in assoluto; ma la nostra libertà è tuttavia reale sul suo piano — altrimenti la parola non esisterebbe — visto che manifesta quella di Dio e perciò vi partecipa. In Dio siamo liberi quanto possiamo esserlo, e nella misura che Dio ci reintegra nella sua Libertà infinita.
(Frithjof Schuon, La Trasfigurazione dell’Uomo, Edizioni Mediterranee, Roma, 2016, pp. 135-136.) #frithjofschuon #sophiaperennis
(…) as prerrogativas do estado humano consistem essencialmente numa inteligência, numa vontade e num sentimento capazes de objetividade e de transcendência. A objetividade é a dimensão “horizontal”: é a capacidade de conhecer, de querer e de amar as coisas como elas são, portanto sem deformação subjetivista; a transcendência, por sua vez, é a dimensão “vertical”: é a capacidade de conhecer, de querer e de amar Deus e, ipso facto,todos os valores que superam nossa experiência terrestre e que se referem mais ou menos diretamente à Ordem divina.
La debolezza è la convinzione abituale d’essere deboli; esser deboli vuol dire ignorare che ogni uomo ha acesso alla forza, a qualunque forza esista. La forza non è un privilegio dei forti, ma una potenzialità di ciascun uomo; il problema sta nel trovare l’acesso a quella forza.
Essere deboli vuol dire essere passivamente sottoposti alla durata; essere forti equivale a essere attivamente liberi nell’istante, nell’Eterno Presente.
Essere deboli equivale a cedere a delle pressioni, e si cede a delle pressioni poiché non si vedono gli effetti nelle cause. Il peccato è una causa, il castigo è l’effetto concordante. L’uomo è debole giacché manca di fede; la sua fede è astratta, ipocrita e inoperante; egli crede al Cielo e all’Inferno, ma agisce quasi che non ci credesse. Ora noi dobbiamo fuggire il male come fuggiremmo un fuoco che vedessimo avventarsi su di noi, e dobbiamo aggrapparci al bene come ci attaccheremmo a un’oasi che scorgessimo in mezzo a un deserto.
Frithjof Schuon, La Trasfigurazione dell’Uomo, Edizioni Mediterranee, Italia, 2016, p. 113. Foto: Toro Seduto, in inglese Sitting Bull, in Lakota – Tatanka Yotanka. #frithjofschuon #sophiaperennis
Inteligência total, vontade livre, sentimento capaz de desinteressamento: eis as prerrogativas que colocam o homem no ápice das criaturas terrestres. Total, a inteligência toma conhecimento de tudo o que é, no mundo dos princípios bem como no dos fenômenos; livre, a vontade pode escolher mesmo o que é contrário ao interesse imediato ou ao agradável; desinteressado, o sentimento é capaz de se olhar desde fora e, não menos, de se pôr no lugar dos outros. Todo homem o pode em princípio, enquanto que o animal não o pode, o que derruba a objeção de que nem todos os homens são humildes ou caridosos: por certo, os efeitos da “queda” enfraquecem as prerrogativas da natureza humana, mas eles não as poderiam abolir sem abolir o próprio homem. Dizer que o homem é dotado de uma sensibilidade capaz de objetividade significa que ele possui uma subjetividade não encerrada em si mesma, mas aberta para as outras e para o Céu; de fato, todo homem normal pode se encontrar numa situação em que ele manifestará espontaneamente a capacidade humana de compaixão ou de generosidade, e todo homem é dotado, em sua substância, do que podemos chamar de “instinto religioso”.
Deus abriu uma porta no meio da criação, e esta porta aberta do mundo em direção a Deus é o homem; esta abertura é o convite de Deus para olharmos em direção a Ele, para tendermos a Ele, para perseverarmos junto a Ele e para retornarmos a Ele. E isto nos permite entender por que esta porta se fecha na morte quando foi desprezada durante a vida; pois ser homem não significa nenhuma outra coisa senão olhar para fora e atravessar a porta. Descrença e paganismo são tudo quanto dê as costas à porta aberta; em seu umbral, a luz e as trevas se separam.
A noção de inferno torna-se perfeitamente clara quando pensamos o quão insensato é — e o quanto é um desperdício e um suicídio — deslizar através do estado humano sem ser verdadeiramente homem, isto é, passar ao largo de Deus, e por consequência passar ao largo de nossa própria alma, como se tivéssemos direito às faculdades humanas independentemente do retorno a Deus e como se o milagre do estado humano tivesse uma razão suficiente independentemente do fim que está prefigurado no próprio homem; ou ainda: como se Deus não tivesse nenhum motivo ao dar-nos uma inteligência que discerne e uma vontade que escolhe.
Dado que esta porta é um centro — e ela tem de sê-lo, visto que leva a Deus —, ela corresponde a uma possibilidade rara e preciosa, que é única para a sua ambiência. E isto explica por que há uma danação; pois aquele que se recusou a passar pela porta não poderá nunca mais transpô-la. Daí a representação do pós-vida como uma alternativa implacável: para quem olha da porta — isto é, do estado humano —, não há escolha senão entre o interior e o exterior.
O que para o homem é tudo, é que a inteligência se torne de fato, graças ao conteúdo que lhe corresponde, aquilo que ela é em princípio, e, similarmente, que a vontade se torne realmente livre graças ao objeto que lhe corresponde. Em outros termos: a inteligência só é verdadeiramente inteligência na medida em que ela discerne entre o Real e o ilusório, e a vontade só é verdadeiramente livre na medida em que se esforça pelo Real.
Texto de Frithjof Schuon até onde sabemos ainda inédito no original francês, mas publicado em alemão em Perlen des Pilgers, Benziger Verlag, Dusseldorf e Zurique, 2000, pp. 68-69. #frithjofschuon #sophiaperennis