O reconhecimento das religiões estrangeiras

O reconhecimento das religiões estrangeiras depende de diversas contingências psicológicas ou mesmo simplesmente geográficas, e, sobretudo, não tem em si nenhum aspecto de necessidade espiritual (1): nenhuma revelação o sugere de maneira direta, para dizer o mínimo; sábios como Plotino e Porfírio, apesar de seu esoterismo pitagórico e seu conhecimento metafísico, não compreenderam o Cristianismo. Continuar lendo

20 mil acessos, e um excerto

Completamos vinte mil acessos. Curiosamente, depois do Brasil, o maior número de visitantes, no último ano, veio dos Estados Unidos, não de Portugal como nos anos anteriores.

Continuamos esperando que esta humilde iniciativa ajude àqueles que, em meio ao deserto espiritual do mundo de hoje, amam a Verdade, a Oração, a Virtude e a Beleza.

A seguir, um excerto do primeiro capítulo de Tesouros do Budismo, de Schuon, ainda inédito em português.

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Frithjof Schuon

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Quando contemplamos uma paisagem, apreendemos-lhe as principais características sem sermos distraídos por tal ou qual detalhe que, se demasiado perto, de certa forma nos encerraria em seus traços particulares; de maneira análoga, quando consideramos uma das grandes tradições espirituais de forma a poder abarcar com o olhar tudo o que lhe pertence fundamental e exclusivamente, nenhuma de suas expressões essenciais nos escapa, e nenhuma esconde as outras. Continuar lendo

Os fenômenos positivos manifestam os tesouros celestes

“O reino de Deus está dentro de vós”, ou seja, na subjetividade espiritual e, portanto, transpessoal; se é assim, qual pode ser o significado de nossa vida exterior, de nossos contatos com os seres e as coisas? É que os fenômenos positivos manifestam os tesouros celestes que trazemos em nós mesmos, e nos ajudam a descobri-los e a realizá-los; aquilo que nós amamos, nós no fundo o somos, e é por isso que nós o amamos; o sujeito mais profundo alcança as margens mais felizes. É preciso ter o senso da beleza e o senso do sagrado, e também – num plano muito mais modesto – o senso do perfume divino dos prazeres naturais que nos oferece a vida deste mundo, o que implica que nós disponhamos deles com nobreza. “Eles não têm vinho”, disse a Santíssima Virgem em Caná; esta sentença pode ser entendida em diversos níveis, indo de nosso direito à vida terrestre até nossos deveres em vista da vida celeste.

(Frithjof Schuon, Raízes da Condição Humana, Kalon, 2014, pp. 67 e 68)

“O que dizemos”

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“Nós dizemos que há uma Realidade absoluta, transcendente, não perceptível pelos sentidos, além do espaço e do tempo; mas cognoscível pelo Intelecto puro, pelo qual ela se torna presente; uma Realidade que, sem sofrer jamais a menor mudança, dado que ela é incondicional, dá lugar — em razão de sua própria Infinitude — a uma dimensão de contingência ou de relatividade a fim de poder realizar o mistério de sua irradiação. Pois ‘é da natureza do Bem querer se comunicar’: ou seja, Deus quer ser conhecido não somente em si mesmo, mas também ‘desde fora’ e a partir de ‘outro que não ele’; é a própria substância da Onipossibilidade divina.

“É isso o que dizemos, ou lembramos, a priori. Nós o dizemos não somente porque nisso acreditemos, mas porque o sabemos, e nós o sabemos porque nós o somos. Nós o somos em nosso Intelecto transpessoal, o qual veicula intrinsecamente a Presença imanente do Real absoluto, e sem o qual não seríamos homens.”

(Frithjof Schuon, texto inédito)

Derrubar as religiões desde dentro

“…Antigamente, o príncipe das trevas combatia as religiões sobretudo desde fora, fazendo-se abstração da natureza pecadora dos homens; em nossa época, ele acrescenta a essa luta um estratagema novo, ao menos quanto à ênfase, o qual consiste em se apoderar das religiões desde dentro, e ele em grande parte já o conseguiu, tanto nos mundos do Judaísmo e do Cristianismo quanto no do Islã. Isso nem lhe é difícil — o uso de artimanhas seria quase um luxo inútil —, dada a prodigiosa falta de discernimento que caracteriza a humanidade de nossa época; uma humanidade que tende cada vez mais a substituir a inteligência pela psicologia e o objetivo pelo subjetivo, e mesmo a verdade por ‘nosso tempo’.”

Frithjof Schuon, Christianisme/Islam, Visions d’Oecuménisme ésotérique, Arché-Milano, 1981, p.78. Note-se que estas linhas foram escritas há mais de 35 anos.

O culto moderno do trabalho

“O culto moderno do trabalho se baseia, por um lado, no fato de que o trabalho é necessário para a maioria dos homens, e, por outro lado, na tendência humana de fazer de uma coação inevitável uma virtude. No entanto, a Bíblia apresenta o trabalho como uma espécie de punição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”; antes do pecado original e da queda, o primeiro casal humano ignorava o trabalho. Em todos os tempos e em toda parte houve santos contemplativos que, sem ser com isso preguiçosos, não trabalhavam, e todos os mundos tradicionais nos oferecem – ou nos ofereciam – o espetáculo de mendicantes a quem se davam esmolas sem nada exigir deles, salvo, eventualmente, orações; nenhum hindu pensaria em censurar um Râmâkrishna ou um Maharshi pelo fato de que eles não exerciam nenhum ofício. É a impiedade generalizada, a supressão do sagrado na vida pública e as coações do industrialismo que tiveram por efeito que se faça do trabalho um “imperativo categórico” à margem do qual, crê-se, só há preguiça culpável e corrupção.

“Seja como for, há trabalho e trabalho: há – desde sempre – a agricultura nobre e o artesanato no lar ou nas oficinas das antigas corporações e há – desde o século XIX – a escravidão industrial nas fábricas; escravidão tanto mais embrutecedora, se não aviltante, por ser seu objeto a máquina e por não oferecer na maior parte do tempo nenhuma satisfação propriamente humana ao trabalhador. No entanto, mesmo este trabalho – em geral mais quantitativo que qualitativo – pode ter subjetivamente um caráter sagrado ou santificado graças à atitude espiritual do trabalhador, se este, sabendo que não pode mudar o mundo e que deve viver – e fazer viver os seus – segundo as possibilidades que lhe são acessíveis, se esforça por combinar seu labor com a consciência de nossos fins últimos e a “lembrança de Deus”; ora et labora.

“Dito isto, é preciso acrescentar que a liberdade consiste bem mais em nossa satisfação com a situação que é a nossa do que na ausência total de coações, a qual não é praticamente realizável neste mundo e, além disso, não é sempre uma garantia de felicidade.”

(Extraído do ensaio “O Sentido Espiritual do Trabalho”, do livro A Transfiguração do Homem, de Frithjof Schuon – Sapientia, 2009.)

Tolice e pretensão, humildade e modéstia

“A opinião popular assimila espontaneamente, e não sem razão, o orgulho à tolice. De fato, pode-se ser pretensioso por tolice, como se pode ser tolo por pretensão; as duas coisas se combinam. Certamente, a falta de inteligência não obriga à pretensão, mas esta não tem como não prejudicar a inteligência; e, se a tolice, como se admite comumente, é a incapacidade de discernir entre o essencial e o secundário ou entre a causa e o efeito, ela comporta por isso mesmo uma parte de orgulho; uma tolice combinada com uma perfeita humildade e um perfeito desapego já não seria tolice, mas sim uma simplicidade de espírito que não incomodaria nenhum homem inteligente e virtuoso.

“Muito próxima da pretensão está a arrogância; mas esta é passiva, e aquela, ativa. É arrogante não aquele que, com direito e muita humildade, está consciente do valor daquilo que sabe ou daquilo que faz, mas aquele que está imbuído de seu próprio valor imaginário e o projeta sobre seu pequeno saber e sua atividade medíocre. Continuar lendo

O mal não é o que faz sofrer

Segundo a convicção unânime da cristandade antiga e de todas as outras humanidades tradicionais, a causa do sofrimento no mundo é a desarmonia interna do homem – o pecado, se se quiser – e não uma simples falta de ciência e de organização. Nenhum progresso e nenhuma tirania chegará jamais ao fim do sofrimento; só a santidade de todos chegaria a esse ponto, se fosse possível de fato realizá-la e transformar assim o mundo numa comunidade de contemplativos e num novo paraíso terrestre. Isso não quer dizer, certamente, que o homem não deva, em conformidade com sua natureza e com o simples bom senso, buscar vencer os males que se apresentam em sua vida; para isto, ele não tem necessidade de nenhuma injunção divina nem humana.

Mas procurar estabelecer num país um certo bem-estar com vistas a Deus é uma coisa, e procurar realizar a felicidade perfeita na terra fora de Deus é outra; este segundo objetivo, de resto, está destinado de antemão ao fracasso, precisamente porque a eliminação durável de nossas misérias depende de nossa conformidade ao Equilíbrio divino, ou de nossa fixação no “Reino dos Céus que está dentro de vós”. Enquanto os homens não tiverem realizado a “interioridade” santificante, a abolição das provações terrestres não é somente impossível, ela não é nem mesmo desejável; pois o pecador – o homem “exteriorizado” – tem necessidade de sofrimentos para expiar suas faltas e para se desenraizar do pecado, ou para escapar à “exterioridade” da qual o pecado deriva [1].

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O homem é uma medida

O que nós vemos tem um sentido. Há uma proporção envolvida. E a medida disso é o homem. Se não houvesse o homem, não haveria este mundo.

Vejamos, a este respeito, dois extratos de Schuon:

“Quando Deus cria o homem à sua imagem, ele cria uma medida; a percepção humana do mundo corresponde à intenção criadora de Deus. O homem é por definição um centro, ou ‘o centro’ num dado universo; ele o é, não por acidente, mas em função da própria natureza do Ser, e é por isso que o que é grande ou pequeno para o homem é grande ou pequeno na intenção divina; o homem percebe as coisas como elas se apresentam no Intelecto divino.” [Frithjof Schuon, “O Véu de Ísis”, Raízes da Condição Humana.] Continuar lendo

Dois anos

Esta publicação fez dois anos em dezembro, e vai atingindo 15 mil vistas de página.

Que o Céu permita que seja útil a muitos.

Para marcar a data, trazemos a pintura acima, de autoria de Frithjof Schuon.

E o seguinte trecho do autor:

“Eu sou eu mesmo, não um outro; e eu estou aqui, da forma como estou; e isto se passa agora, forçosamente. Que devo fazer? A primeira coisa que se impõe, e a única que se impõe de forma absoluta, é minha relação com Deus. Eu me lembro de Deus, e nessa e por essa lembrança tudo está bem, porque é a lembrança de Deus. Tudo o mais está em Suas Mãos.”

A feminilidade

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“A mulher, sintetizando a natureza virgem, o santuário e a companhia espiritual, é para o homem o que há de mais digno de amor; ela é, sob certo aspecto, a projeção da Interioridade misericordiosa na exterioridade árida; ela assume, sob o aspecto em questão, uma função sacramental ou quase divina.” (Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, p.215; pintura do autor.)

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“La femme, synthétisant la nature vierge, le sanctuaire et la compagnie spirituelle, est ce qu’il y a pour l’homme de plus aimable, elle est sous un certain rapport la projection de l’Intériorité miséricordieuse dans l’extériorité aride ; elle assume, sous le rapport envisagé, une fonction sacramentelle ou quasiment divine.” (Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, p.215)

 

Ligação com o mundo

O homem sábio, o homem nobre:
ambos deveriam se encontrar em toda alma.
O sábio olha para o Interior, para o Ser;
o nobre deve se ligar ao mundo.

Pois, quer queiramos, quer não,
vivemos neste mundo e entre outros seres —
Somos parentes, devemos ler nosso eu
também no si-mesmo de outros homens.

A sabedoria habita também em Mâyâ — em nossa alma;
E a nobreza está no Espírito, que vê Âtmâ.

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Der weise Mensch, der edle Mensch: sie beide
Sollten in jeder Seele sich befinden.
Der Weise schaut nach Innen, nach dem Sein;
Der Edle muss sich mit der Welt verbinden.

Denn ob wir wollen oder nicht, wir leben
In dieser Welt und unter andern Wesen —
Wir sind Verwandte, müssen unser Ich
Auch in der Selbstheit andrer Menschen lesen.

Weisheit wohnt auch in Māyā — im Gemüt;
Und Adel ist im Geist, der Ātmā sieht.

[Poema alemão de Frithjof Schuon, traduzido para o português]

Correções

Por sugestão do amigo Nuno Almeida, de Portugal, a quem agradecemos, alteramos a tradução de biais, na página 33, de “desvio” para “viés”, acrescentando uma nota explicativa.

Parece-nos claro o que o autor quer dizer: o Cristianismo “não é deste mundo” e, portanto, não vê as coisas deste mundo em sua integralidade humana, como vê o Islã; sua perspectiva é outra. O casamento, na perspectiva do “humano integral”, é normal em si, mas não na do Cristianismo, o qual então recorre a uma “sacramentalização” do casamento para que esteja a par com sua perspectiva própria.

A palavra “desvio”, como notou Nuno Almeida, poderia ser vista de forma negativa ou pejorativa. O original, biais, tem o sentido de “obliquidade” e de “solução de um problema”.

Em leitura com outro amigo, Fernando Borgomoni, do capítulo “Escatologia universal”, notamos também dois pequenos erros:

Na nota 87, na página 47, em vez de “nos somos”, deve-se ler “nós somos”;

No último parágrafo desse capítulo, na página 49, onde se lê “tempo de Delfos”, deve-se ler “templo de Delfos”.

Fizemos as modificações no PDF, mas alertamos o leitor que a numeração de página mudou. Na nova edição, corrigida, essas passagens estarão em outras páginas.

Fizemos também as modificações nos arquivos web.

Sugestões de correções por parte de nossos leitores são bem-vindas.

Um extrato sobre a gnose cristã

A fim de tornar mais claro que a diferença entre o Islã e o Cristianismo é realmente uma diferença de perspectiva metafísica e de simbolismo – ou seja, que as duas espiritualidades convergem – procuraremos caracterizar sucintamente a gnose cristã, partindo da ideia-chave de que o Cristianismo consiste no fato de que “Deus se fez o que nós somos, para nos tornar aquilo que ele é” (Santo Irineu); o Céu tornou-se terra, a fim de que a terra torne-se Céu; o Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que ocorre, o tempo todo, no mundo interior da alma.

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