Arquivo da categoria: Religio Perennis

O mal não é o que faz sofrer

Segundo a convicção unânime da cristandade antiga e de todas as outras humanidades tradicionais, a causa do sofrimento no mundo é a desarmonia interna do homem – o pecado, se se quiser – e não uma simples falta de ciência e de organização. Nenhum progresso e nenhuma tirania chegará jamais ao fim do sofrimento; só a santidade de todos chegaria a esse ponto, se fosse possível de fato realizá-la e transformar assim o mundo numa comunidade de contemplativos e num novo paraíso terrestre. Isso não quer dizer, certamente, que o homem não deva, em conformidade com sua natureza e com o simples bom senso, buscar vencer os males que se apresentam em sua vida; para isto, ele não tem necessidade de nenhuma injunção divina nem humana.

Mas procurar estabelecer num país um certo bem-estar com vistas a Deus é uma coisa, e procurar realizar a felicidade perfeita na terra fora de Deus é outra; este segundo objetivo, de resto, está destinado de antemão ao fracasso, precisamente porque a eliminação durável de nossas misérias depende de nossa conformidade ao Equilíbrio divino, ou de nossa fixação no “Reino dos Céus que está dentro de vós”. Enquanto os homens não tiverem realizado a “interioridade” santificante, a abolição das provações terrestres não é somente impossível, ela não é nem mesmo desejável; pois o pecador – o homem “exteriorizado” – tem necessidade de sofrimentos para expiar suas faltas e para se desenraizar do pecado, ou para escapar à “exterioridade” da qual o pecado deriva [1].

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O homem é uma medida

O que nós vemos tem um sentido. Há uma proporção envolvida. E a medida disso é o homem. Se não houvesse o homem, não haveria este mundo.

Vejamos, a este respeito, dois extratos de Schuon:

“Quando Deus cria o homem à sua imagem, ele cria uma medida; a percepção humana do mundo corresponde à intenção criadora de Deus. O homem é por definição um centro, ou ‘o centro’ num dado universo; ele o é, não por acidente, mas em função da própria natureza do Ser, e é por isso que o que é grande ou pequeno para o homem é grande ou pequeno na intenção divina; o homem percebe as coisas como elas se apresentam no Intelecto divino.” [Frithjof Schuon, “O Véu de Ísis”, Raízes da Condição Humana.] Continuar lendo →

Dois anos

Esta publicação fez dois anos em dezembro, e vai atingindo 15 mil vistas de página.

Que o Céu permita que seja útil a muitos.

Para marcar a data, trazemos a pintura acima, de autoria de Frithjof Schuon.

E o seguinte trecho do autor:

“Eu sou eu mesmo, não um outro; e eu estou aqui, da forma como estou; e isto se passa agora, forçosamente. Que devo fazer? A primeira coisa que se impõe, e a única que se impõe de forma absoluta, é minha relação com Deus. Eu me lembro de Deus, e nessa e por essa lembrança tudo está bem, porque é a lembrança de Deus. Tudo o mais está em Suas Mãos.”

A feminilidade

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“A mulher, sintetizando a natureza virgem, o santuário e a companhia espiritual, é para o homem o que há de mais digno de amor; ela é, sob certo aspecto, a projeção da Interioridade misericordiosa na exterioridade árida; ela assume, sob o aspecto em questão, uma função sacramental ou quase divina.” (Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, p.215; pintura do autor.)

* * *

“La femme, synthétisant la nature vierge, le sanctuaire et la compagnie spirituelle, est ce qu’il y a pour l’homme de plus aimable, elle est sous un certain rapport la projection de l’Intériorité miséricordieuse dans l’extériorité aride ; elle assume, sous le rapport envisagé, une fonction sacramentelle ou quasiment divine.” (Frithjof Schuon, Logique et Transcendance, p.215)

 

Ligação com o mundo

O homem sábio, o homem nobre:
ambos deveriam se encontrar em toda alma.
O sábio olha para o Interior, para o Ser;
o nobre deve se ligar ao mundo.

Pois, quer queiramos, quer não,
vivemos neste mundo e entre outros seres —
Somos parentes, devemos ler nosso eu
também no si-mesmo de outros homens.

A sabedoria habita também em Mâyâ — em nossa alma;
E a nobreza está no Espírito, que vê Âtmâ.

* * *

Der weise Mensch, der edle Mensch: sie beide
Sollten in jeder Seele sich befinden.
Der Weise schaut nach Innen, nach dem Sein;
Der Edle muss sich mit der Welt verbinden.

Denn ob wir wollen oder nicht, wir leben
In dieser Welt und unter andern Wesen —
Wir sind Verwandte, müssen unser Ich
Auch in der Selbstheit andrer Menschen lesen.

Weisheit wohnt auch in Māyā — im Gemüt;
Und Adel ist im Geist, der Ātmā sieht.

[Poema alemão de Frithjof Schuon, traduzido para o português]

Correções

Por sugestão do amigo Nuno Almeida, de Portugal, a quem agradecemos, alteramos a tradução de biais, na página 33, de “desvio” para “viés”, acrescentando uma nota explicativa.

Parece-nos claro o que o autor quer dizer: o Cristianismo “não é deste mundo” e, portanto, não vê as coisas deste mundo em sua integralidade humana, como vê o Islã; sua perspectiva é outra. O casamento, na perspectiva do “humano integral”, é normal em si, mas não na do Cristianismo, o qual então recorre a uma “sacramentalização” do casamento para que esteja a par com sua perspectiva própria.

A palavra “desvio”, como notou Nuno Almeida, poderia ser vista de forma negativa ou pejorativa. O original, biais, tem o sentido de “obliquidade” e de “solução de um problema”.

Em leitura com outro amigo, Fernando Borgomoni, do capítulo “Escatologia universal”, notamos também dois pequenos erros:

Na nota 87, na página 47, em vez de “nos somos”, deve-se ler “nós somos”;

No último parágrafo desse capítulo, na página 49, onde se lê “tempo de Delfos”, deve-se ler “templo de Delfos”.

Fizemos as modificações no PDF, mas alertamos o leitor que a numeração de página mudou. Na nova edição, corrigida, essas passagens estarão em outras páginas.

Fizemos também as modificações nos arquivos web.

Sugestões de correções por parte de nossos leitores são bem-vindas.

Um extrato sobre a gnose cristã

A fim de tornar mais claro que a diferença entre o Islã e o Cristianismo é realmente uma diferença de perspectiva metafísica e de simbolismo – ou seja, que as duas espiritualidades convergem – procuraremos caracterizar sucintamente a gnose cristã, partindo da ideia-chave de que o Cristianismo consiste no fato de que “Deus se fez o que nós somos, para nos tornar aquilo que ele é” (Santo Irineu); o Céu tornou-se terra, a fim de que a terra torne-se Céu; o Cristo retraça no mundo exterior e histórico o que ocorre, o tempo todo, no mundo interior da alma.

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Pérolas

Um trecho do livro Pérolas do Peregrino, de Frithjof Schuon, feito com excertos de seus outros livros.

* * *

“Para ser feliz, o homem deve ter um centro; ora, esse centro é antes de tudo a certeza do Um. A maior calamidade é a perda do centro e o abandono da alma aos caprichos da periferia. Ser homem, é estar no centro; é ser centro.”

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O que é a verdadeira intelecção

Uma prova não é convincente porque ela é absoluta – pois, isto, ela não poderia ser –, mas porque ela actualiza [traz da “potência” ao “ato”] no espírito uma evidência.

Uma prova só é possível em função de um conhecimento prévio. É preciso toda a artificialidade de um pensamento destacado de seu Princípio transcendente para querer enxertar uma prova num vazio; é como se se quisesse buscar no tempo a origem da eternidade.

É injusto rejeitar uma “prova de Deus” pela simples razão de que lhe ignoramos as premissas implícitas, e evidentes para o autor da prova.

Provar o Absoluto é ou a coisa mais fácil, ou a mais difícil, conforme as condições intelectuais do meio.

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“Quem vive na oração…”

“O homem ora, e a oração molda o homem. O santo tornou-se ele próprio oração, lugar de encontro entre a terra e o Céu; ele contém, com isso, o universo, e o universo ora com ele. Ele está em toda parte em que a natureza ora, ele ora com ela e nela: nos picos que tocam o vazio e a eternidade, numa flor que espalha suas pétalas, ou no canto perdido de uma pássaro. Quem vive na oração, não viveu em vão.”

[Frithjof Schuon, Perspectives spirituelles et faits humains, 1953, p. 287. Também a pintura é de Schuon.]

Três frases de Frithjof Schuon

“L’homme noble se maintient toujours au centre, il ne perd jamais de vue le symbole, le don spirituel des choses, le signe de Dieu, la gratitude à la fois ascendante et rayonnante.” (L’Ésotérisme comme principe et comme voie, p. 108)

“O homem nobre se mantém sempre no centro, ele não perde nunca de vista o símbolo, o dom espiritual das coisas, o sinal de Deus, a gratidão ao mesmo tempo ascendente e irradiante.”

“Ce qui importe chez l’homme et décide de son sort ultime, c’est sa Connaissance, sa foi, son caractère, et son activité. Or le fondement du caractère noble, c’est précisément l’effacement et la générosité.”

“O que importa no homem e decide seu destino último é seu Conhecimento, sua fé, seu caráter e sua atividade. Ora, o fundamento do caráter nobre é precisamente o auto-apagamento e a generosidade.” (L’Oeil du Coeur, p. 147)

“Pour le christianisme, l’ésotérisme est dans la sainteté, tandis que pour l’islam la sainteté est dans l’ésotérisme.” (Christianisme/Islam, p. 121)

“Para o Cristianismo, o esoterismo está na santidade, enquanto que, para o Islamismo, a santidade está no esoterismo.”

Schuon fala de dois livros

“Echoes of Japan acaba de ser lançado em francês, pela Dervy-Livres; esse pequeno livro é uma pérola. O que me faz pensar num grande livro, Honen, the Buddhist Saint ; para muitos de meus amigos, é uma de suas leitura favoritas; entre os livros de espiritualidade, é o que eu chamaria de chave da felicidade.

“É precisamente isso que importa na vida: saber combinar a ciência metafísica com um aspecto do real que nos faz felizes; ou melhor, descobrir nas realidades espirituais um aspecto vital que coincide com a felicidade. Ora, como o prova a noção de Ânanda, e como o prova a dimensão apaziguante e beatífica do Nirvâna, não se trata – a rigor – de um aspecto entre outros, trata-se, ao contrário, de uma realidade fundamental, à qual temos o direito – se assim posso dizer – em razão de nossa própria natureza; ou de nossa própria essência, a qual coincide com O que é.”

(Carta de Frithjof Schuon de 22 de julho de 1985, trinta anos atrás.)


Notas

a) Ânanda = beatitude; Nirvâna =  extinção; ambos termos sânscritos.

b) Echoes of Japan: livro de Hari Prasad Shastri. Tradução do título: Ecos do Japão. Há versões em diversas línguas.

c) Hônen, the Buddhist Saint: livro editado por Harper Coates e Ryugaku Ishizuka. Há uma versão mais recente, em que Joseph Fitzgerald editou o trabalho de Coates e Ishizuka, transformando-o, de cinco volumes, em um único, mas muito bom. Foi publicada pela World Wisdom Books, dos EUA.

Provação, injustiça, destino

“A injustiça é uma provação, mas a provação não é uma injustiça. As injustiças vêm dos homens, enquanto as provações vêm de Deus; o que, da parte dos homens, é injustiça e, por consequência, mal, é provação e destino da parte de Deus. Temos o direito, ou eventualmente o dever, de combater determinado mal, mas temos de nos resignar à provação e aceitar o destino; isso quer dizer que é preciso combinar as duas atitudes, dado que toda injustiça que sofremos da parte dos homens é ao mesmo tempo uma provação que nos chega da parte de Deus.

“Na dimensão horizontal ou terrestre, podemos escapar do mal combatendo-o e vencendo-o; na dimensão vertical ou espiritual, ao contrário, podemos escapar, senão à provação em si, ao menos ao seu peso, e isso aceitando o mal enquanto vontade divina, ao mesmo tempo em que o transcendemos interiormente enquanto jogo cósmico, como se pode transcender qualquer outra manifestação de Mâyâ. Pois o ruído do mundo não entra no Silêncio divino, que trazemos no fundo de nós mesmos e no qual se extinguem e se reabsorvem, como os acidentes na substância, tanto o mundo quanto o eu.

“O homem tem o dever de se resignar à vontade de Deus, mas ele tem da mesma forma o direito de superar espiritualmente o sofrimento da alma, na medida em que isso lhe é possível; e isso não é possível, precisamente, sem a atitude prévia de aceitação e de resignação, que é a única que liberta plenamente a serenidade da inteligência e que abre a alma ao socorro do Céu.”


Notas: (a) Mâyâ: desdobramento universal, arte divina, potência de ilusão; (b) épreuve, em francês, significa tanto “provação” quanto “prova”.

Carta de data desconhecida. Extraída do livro de cartas de Frithjof Schuon: Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître Spirituel, Ed. Les Sept-Flèches, Lausanne, 2013., pp. 198 e 199.