Segundo a convicção unânime da cristandade antiga e de todas as outras humanidades tradicionais, a causa do sofrimento no mundo é a desarmonia interna do homem – o pecado, se se quiser – e não uma simples falta de ciência e de organização. Nenhum progresso e nenhuma tirania chegará jamais ao fim do sofrimento; só a santidade de todos chegaria a esse ponto, se fosse possível de fato realizá-la e transformar assim o mundo numa comunidade de contemplativos e num novo paraíso terrestre. Isso não quer dizer, certamente, que o homem não deva, em conformidade com sua natureza e com o simples bom senso, buscar vencer os males que se apresentam em sua vida; para isto, ele não tem necessidade de nenhuma injunção divina nem humana.
Mas procurar estabelecer num país um certo bem-estar com vistas a Deus é uma coisa, e procurar realizar a felicidade perfeita na terra fora de Deus é outra; este segundo objetivo, de resto, está destinado de antemão ao fracasso, precisamente porque a eliminação durável de nossas misérias depende de nossa conformidade ao Equilíbrio divino, ou de nossa fixação no “Reino dos Céus que está dentro de vós”. Enquanto os homens não tiverem realizado a “interioridade” santificante, a abolição das provações terrestres não é somente impossível, ela não é nem mesmo desejável; pois o pecador – o homem “exteriorizado” – tem necessidade de sofrimentos para expiar suas faltas e para se desenraizar do pecado, ou para escapar à “exterioridade” da qual o pecado deriva [1].




