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Comentário sobre a nudez sagrada

Swami_Bhaskarananda_Saraswati

“No que diz respeito à nudez sagrada, eu diria que ela se baseia na correspondência analógica entre o ‘mais exterior’ e o ‘mais interior’: o corpo é então considerado como o ‘coração exteriorizado’, e o coração, por seu lado, ‘absorve’, por assim dizer, a projeção corporal; ‘os extremos se tocam’. Diz-se, na India, que a nudez favorece a irradiação dos fluídos espirituais; e também que a nudez feminina em particular manifesta Lakshmî e, por esse fato, tem um efeito benéfico sobre o ambiente. De maneira totalmente geral, a nudez exprime – e ‘realiza’ virtualmente – um retorno à essência, à origem, ao arquétipo, portanto ao estado celeste: ‘E é por isso que, nua, eu danço’, como dizia Lallâ Yogeshwarî.”

(Carta de Frithjof Schuon de 6 de fevereiro de 1992.)

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Notas

a) Na foto acima, Swami Bhaskarananda Saraswati (1833-1899). Sannyasin e santo hindu. No Hinduísmo, a nudez representa a pureza.

b) Lallâ Yogeshwarî, ou Lalleshwari, viveu de 1320 a 1392. Foi uma mística e poeta espiritual hindu.

c) Numa das versões do mito da vinda de Pte-San-Win, a Mulher Bisão Branco, que trouxe aos índios das pradarias o rito do cachimbo sagrado, ela estava nua. Dois homens a viram. Um teve pensamentos impuros e foi transformado em cinzas. O outro, de alma pura, recebeu dela o cachimbo e o rito. Os dois homens podem representar os dois lados em cada um de nós – “são dois no homem”, disse São Paulo –, um que deve ser eliminado, outro que deve ser espiritualmente transformado.

Iniciação cristã

“Não se pode fazer uma distinção sistemática entre o sobrenatural e o espiritual, pois o primeiro intervém necessariamente no segundo, de diferentes formas. Também o intelecto tem um aspecto sobrenatural, mas isso está acima da perspectiva teológica comum, para a qual no homem só há a vontade e a razão.

“Não há que buscar nos padres nada que se situe fora de suas funções; portanto, há que se dirigir somente a sua função sacramental e, se for o caso, a sua autoridade teológica; mas a teologia se encontra também nos livros. [Lembrete do editor: carta escrita antes do Concílio Vaticano II. Hoje tal conselho só se aplicaria, no Catolicismo, a padres tradicionalistas, e mesmo, acreditamos, com muitas reservas; no Cristianismo Ortodoxo, por outro lado, a teologia e os ritos estão preservados, embora a mentalidade moderna esteja presente em toda parte.]

“No Cristianismo, são o batismo, a confirmação e a comunhão que constituem o que se pode chamar de iniciação; o caráter total desses sacramentos exclui a existência, ao seu lado, de ritos iniciáticos mais ou menos secretos que se sobreporiam a eles, como os há no Orfismo, no Sufismo etc. A particularidade do Cristianismo é precisamente esse caráter aberto dos meios iniciáticos; é, ao menos, uma particularidade no mundo semítico e ocidental. Neste ponto, há divergência entre a tese de Guénon e a minha. Não se pode conceber, com efeito, que possa haver, no Cristianismo, uma fonte de graças mais profunda e mais preciosa que o sangue do Cristo, ou que possa haver almas ou inteligências para as quais essa fonte não seria boa. A diferença exoterismo-esoterismo é, aqui, unicamente uma questão de perspectiva e de método. Por certo, há uma participação puramente exotérica nos sacramentos, de modo que não se poderia, sem abuso de linguagem, qualificar a massa dos cristãos de ‘iniciados’, mas os religiosos são iniciados, pelo fato de que seguem uma via espiritual; o mesmo vale para os padres santos, como o Cura d’Ars. Quanto à via intelectiva, a gnose, ela é representada sobretudo por Clemente de Alexandria, Mestre Eckhart e Angelus Silesius; mas é sempre uma gnose especificamente cristã, ou seja, que se mantém próxima à perspectiva do amor.

“Por consequência, os dois fatos (…) aos quais fazeis alusão em vossa carta não podem ser iniciações no sentido próprio e técnico do termo, pois o Céu não age nunca sem razão suficiente; por outro lado, tais fatos podem ser contatos ‘acidentais’ – e ao mesmo tempo ‘providenciais’ – com o mundo das Essências, quer o consideremos de uma maneira subjetiva ou de uma maneira objetiva e cósmica. Qual pode ser o valor prático de tais ‘encontros’ com os ‘estados superiores’? São chamados, vocações para uma vida contemplativa. Seria necessário, após ter experimentado tais ‘fissuras’ no endurecimento individual, fazer da vida uma prece contínua e secreta. Mas isso só é possível com a ajuda do Nome de Deus, ou seja, da invocação de Cristo, da ‘prece de Jesus’. Para trilhar uma tal via, é preciso ter, antes de tudo, os conhecimentos teóricos indispensáveis, e uma pureza de intenção que exclua todo individualismo, consciente e inconsciente. Em tal plano, há múltiplas ilusões. Mas, com Deus, tudo é possível.”

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Carta escrita em 31 de maio de 1955. Extraída do livro de cartas de Frithjof Schuon: Vers l’Essentiel – Lettres d’un Maître Spirituel, Ed. Les Sept-Flèches, Lausanne, 2013., pp. 15 e 16.

Dez mil acessos

Este website chegou a 10 mil acessos. Não sabemos quantos desses são de pessoas que se detiveram para ler alguma coisa, com maior ou menor atenção, com interesse profundo ou meramente acadêmico, e quantos são de pessoas que apenas examinaram superficialmente o conteúdo. Além disso, o número em si não diz muito. Perto de um website com dez acessos, dez mil é muito. Perto de um com um milhão, é pouco.

É somente a certeza da grande importância da Filosofia Perene que nos permite atribuir algum valor a esses dez mil acessos. E, mesmo assim, um valor ainda relativo. Pois, a bem dizer, o que importa de fato é o resultado: um único leitor que tire real proveito do que vai aqui já justificaria totalmente o esforço despendido neste trabalho. Isso sem nenhum exagero.

Seja como for, agradecemos aos leitores que aqui vêm e àqueles que divulgam o que aqui é publicado. Pelos poucos comentários, sabemos que a obra de Frithjof Schuon aqui exposta – e também os ensaios de Titus Burckhardt, em menor medida, e ainda os de outros autores – tem sido de ajuda não só para uma, mas para várias pessoas, e de diversas formas.

Agradecemos a Deus esta oportunidade de sermos útil a outros. O que recebemos da obra de Frithjof Schuon foi muito, e a gratidão nos leva a querer compartilhar isso com outros que possam estar interessados “no Verdadeiro, no Belo e no Bom” ou “na única coisa necessária”.

Uma carta: Espiritualizar o sofrimento

Carta de Frithjof Schuon de 13 de maio de 1949, publicada em Vers l’Essentiel, Sept Flèches, Lausanne, Suíça, 2013, pág. 15:

“Os fatos que vós relatais em vossa segunda carta são, com efeito, miraculosos. Eles põem em relevo o sentido espiritual e providencial das provações que se seguiram. Tais provações têm uma dupla causa: o esgotamento de nossos erros passados – que podem se situar numa vida anterior – e a reação cósmica contra nossa ignorância de fato; há também sofrimentos que têm o sentido de um martírio e que um santo homem pode assumir por outra pessoa. Em vosso caso, não há necessidade nenhuma de vos preocupar com vossa incapacidade de vos concentrar ou de meditar: teria bastado oferecer vossos sofrimentos a Deus e invocar Seu Nome sem concentração. Num grande sofrimento, como numa grande alegria, é a coisa vivida que faz função de meditação; e é a aceitação – em vista de Deus – de um sofrimento que faz função de concentração. Eu o sei por experiência, pois sofri atrozmente em minha vida.

“Na vida dos santos, na vida de Santa Teresa do Menino Jesus, por exemplo, o sofrimento por falta quase total de bem-estar físico e, sobretudo, também pelo frio e pela doença exerce um papel importante. Admitindo que Santa Teresa tivesse seguido uma via que exigisse a concentração intelectual, sua atitude em face do sofrimento teria sido a mesma. O sofrimento é, por “visão” direta, uma meditação da morte.

“Compreender e aceitar o sentido cósmico e espiritual da dor equivale provisoriamente a uma concentração. Poder-se-ia dizer que, em semelhante caso, e sob a única condição da atitude que acabo de definir, os anjos se concentram por nós – exatamente como se diz que os anjos rezam no lugar daquele que está impedido, por doença, de rezar, com a condição de que ele tenha a intenção de o fazer.”

Observações sobre o Zen

Publicamos hoje um ensaio de Frithjof Schuon contido no livro Tesouros do Budismo, ainda inédito em português. Trata-se de “Observações sobre o Zen”. Ele começa assim:

“O interesse suscitado nos países ocidentais pelo Zen resulta de uma reação compreensível contra a grosseria e a feiúra, e também de uma certa lassidão em relação a conceitos julgados inoperantes – correta ou erroneamente – e às logomaquias filosóficas habituais; mas ele se mistura facilmente com tendências antiintelectuais e falsamente ‘concretistas’ – já era de se esperar –, o que subtrai a esse interesse todo valor efetivo; pois uma coisa é situar-se além do mental, e outra coisa é permanecer abaixo de suas possibilidades mais elevadas, imaginando ter ‘superado’ aquilo de que não se compreende a primeira palavra.” (continue a ler)

Nota sobre a calúnia

“Em verdade, àqueles que gostam que se espalhe a calúnia em relação àqueles que creem, a eles caberá uma dolorosa punição neste mundo e no mundo vindouro.  Deus sabe. Vós não sabeis.” [Alcorão, 24:19]

Cristo foi caluniado. Moisés foi perseguido. O Profeta foi caluniado. O Buddha foi caluniado.

Santos e sábios foram caluniados e perseguidos. Vem-nos à mente São Pedro. Dante Alighieri. O Cura d’Ars. São Francisco de Assis. O Cheikh Al-Buzidi. O Cheikh Al-Alawî.

Mas cremos que a lista não teria fim.

Uma lenda budista conta que alguém veio ao Buddha para ofendê-lo. O Buddha, serenamente, lhe perguntou: “Quando alguém lhe traz um presente e você não o aceita, com quem fica o presente?” O ofensor respondeu: “Com quem o trouxe.” O Buddha lhe disse, então: “Pois bem, você me trouxe suas injúrias, mas não vou aceitá-las. Elas ficarão, então, com você mesmo.” [citamos de memória]

Um conto oriental diz que trouxeram uma velha caluniadora, que tinha difamado um homem honrado, para ser julgada. O juiz mandou que ela escrevesse o nome da vítima da calúnia num papel, picasse o papel em minúsculos pedacinhos e andasse pela cidade espalhando-os. Deveria voltar só quando tivesse terminado.

A caluniadora o fez, e foi trazida de volta à presença do juiz. Ele ordenou, então, que ela andasse por toda a cidade pegando de volta os pedacinhos de papel e, com eles, recompusesse o nome de sua vítima. “Mas isso é impossível, senhor!”, disse ela.

“Da mesma forma”, disse ele, “é impossível recompor inteiramente o nome honrado de quem foi caluniado”. E deu sua sentença de muitas chibatadas, dizendo que o caluniador não tem perdão.

Titus Burckhardt conta em Fez, Cidade do Islã, a história de um doutor em jurisprudência islâmica, na Idade Média, que condenou injustamente a obra de Al-Ghazali e ordenou que seus livros fossem queimados. À noite, sonhou que o grande sufi se queixava com o Profeta, e que o Profeta condenava o jurisconsulto a receber certo número de chibatadas. Ao acordar, de manhã, reparou, com grande temor, que suas costas doíam e apresentavam marcas de diversas chibatadas. Só então foi ele ler com a devida humildade a obra de Ghazali, e o resultado foi que revogou sua proibição. [citamos de memória]

Repetimos a terrível advertência do Alcorão: “Em verdade, aqueles que gostam que se espalhe a calúnia em relação àqueles que creem, a eles caberá uma dolorosa punição neste mundo e no mundo vindouro.  Deus sabe. Vós não sabeis.” [24:19]

E a seguinte frase, por todos nós conhecida, mas por muitos de nós esquecida:

“Bem-aventurados sereis quando vos caluniarem, quando vos perseguirem e disserem falsamente todo o mal contra vós por causa de mim. Alegrai-vos e exultai, porque será grande a vossa recompensa nos céus, pois assim perseguiram os profetas que vieram antes de vós.”

Em A Transfiguração do Homem, último de seus livros filosóficos, Frithjof Schuon aborda rapidamente a questão do trabalho, sob o aspecto de sua integração na espiritualidade:

O culto moderno do trabalho se baseia, por um lado, no fato de que o trabalho é necessário para a maioria dos homens, e, por outro lado, na tendência humana de fazer de uma coação inevitável uma virtude. No entanto, a Bíblia apresenta o trabalho como uma espécie de punição: “Comerás teu pão com o suor do teu rosto”; antes do pecado original e da queda, o primeiro casal humano ignorava o trabalho. Em todos os tempos e em toda parte houve santos contemplativos que, sem ser com isso preguiçosos, não trabalhavam, e todos os mundos tradicionais nos oferecem — ou nos ofereciam — o espetáculo de mendicantes a quem se davam esmolas sem nada exigir deles, salvo, eventualmente, orações; nenhum hindu pensaria em censurar um Râmâkrishna ou um Maharshi pelo fato de não exercerem nenhum ofício. Foram a impiedade generalizada, a supressão do sagrado na vida pública e as coações do industrialismo que tiveram por efeito que se faça do trabalho um “imperativo categórico” à margem do qual, crê-se, só há preguiça culpável e corrupção.

Seja como for, há trabalho e trabalho: há — desde sempre — a agricultura nobre e o artesanato no lar ou nas oficinas da antigas corporações, e há — desde o século XIX — a escravidão industrial nas fábricas; escravidão tanto mais embrutecedora, se não aviltante, por ser seu objeto a máquina e por não oferecer na maior parte do tempo nenhuma satisfação propriamente humana ao trabalhador. No entanto, mesmo este trabalho — em geral mais quantitativo que qualitativo — pode ter subjetivamente um caráter sagrado ou santificado graças à atitude espiritual do trabalhador, se este, sabendo que não pode mudar o mundo e que deve viver — e fazer viver os seus — segundo as possibilidades que lhe são acessíveis, se esforça por combinar seu labor com a consciência de nossos fins últimos e a “lembrança de Deus”; ora et labora.

Dito isto, é preciso acrescentar que a liberdade consiste bem mais em nossa satisfação com a situação que é a nossa do que na ausência total de coações, a qual não é praticamente realizável neste mundo e, além disso, não é sempre uma garantia de felicidade.

O extrato fala por si. Na edição brasileira, está nas páginas 56 e 57. No original francês, nas páginas 54 e 55.

A contradição do relativismo – agora inteiro

A pedido de um leitor, damos aqui a tradução completa do importante ensaio “A contradição do relativismo”, de Frithjof Schuon, capítulo de abertura da grande obra que é Lógica e Transcendência (Logique et Transcendance, Éditions Traditionnelles, Paris, 1982) e do qual tínhamos, em nota anterior, traduzido somente uma parte.

O texto pode ser encontrado na página de ensaios ou simplesmente clicando aqui.

Esperamos que todos tenham tempo para ler (ou reler !) esta grande, incrível peça de verdadeira filosofia e de verdadeira inteligência.

A recusa da Misericórdia

Mais um extrato de Schuon, complementando o do post anterior, ao qual se segue imediatamente no texto de origem:

Já se disse que o homem moderno perdeu o senso do pecado; podemos explicitar de que se trata sublinhando o fato de que ele não mais tem o sentimento de sua pequenez ou que ele é insensível a todas as violações que a decadência de sua natureza provoca – em suma, que ele se tornou insensível a ponto de estar contente com si mesmo e de não ter mais nenhuma consciência da ambiguidade de sua condição. A sombra vazia dessa consciência ele chama de “angústia”, e ele odeia todos aqueles que, tendo tal consciência e aceitando as consequências positivas que ela implica, escapam da “angústia” e por isso mesmo da “revolta”; esses dois complexos, ele os quereria universais, porque está na natureza do homem não querer se perder sozinho.

A responsabilidade pode ser total, mas não absoluta; é o que explica a intervenção da Misericórdia celeste; esta basta amplamente para satisfazer o argumento de nossa fragilidade. Há um ponto em que o homem é sempre inteiramente responsável: é a recusa da Misericórdia; e essa recusa, eco longínquo do orgulho de Lúcifer, é o que provoca o mais certamente a queda nos estados infernais. De resto, o que nos julga é nossa norma que trazemos em nós mesmos, e que é uma imagem do cosmo inteiro e ao mesmo tempo do Espírito divino que irradia em seu centro; o ímpio crê que basta fechar os olhos para lhe escapar, que basta fazer de conta que não é homem, em suma, viver abaixo de si mesmo; ele quer ignorar que ser homem é passar pela porta estreita, e ele recusa a Misericórdia que quer lhe abrir a passagem.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, p. 64 e 65, Nataraj, França, 1997.)

Homens, cabras e formigas

Uma questão que cria muitas dificuldades na consciência do homem atual é a da danação, mesmo quando tornada menos absoluta pelas reservas metafísicas que se impõem: como pode o ser humano merecer tal desgraça, e que interesse pode ter Deus no castigo? A imortalidade, seja qual for o seu conteúdo – ou sejam quais foram seus riscos – é a medida da majestade quase divina do homem; “a nobreza obriga” [noblesse oblige] . É no mínimo curioso que os homens que são mais preocupados com sua autonomia real ou ilusória queiram ser tratados como irresponsáveis quando se trata de pagar a dívida de sua liberdade; perante o Céu que revela normas e dá ordens, o homem chama atenção para sua liberdade e sua independência, ele reconhece, por consequência, sua responsabilidade; mas ele se declara irresponsável e transfere a culpa para a natureza e para o destino, portanto para Deus – “não fui eu quem criou o mundo” –, tão logo o Céu fale de juízo, ou tão logo seja questão de “reações concordantes”, de justiça imanente, de karma. Uma coisa que deveria fazer refletir – e que o orgulho, sob pretexto de inteligência, impede de levar em consideração – é o fato de que os homens aceitaram por milênios, e sem muita dificuldade, a ideia dos castigos póstumos, o que se explica por seu senso ainda suficientemente intacto da majestade teomórfica do gênero humano; eles sentiam que há algo de absoluto no homem, e também que Deus nos conhece melhor do que nós nos conhecemos a nós mesmos; que Ele não tem como não levar em conta a irresponsabilidade real que nossa natureza comporta. Mas o homem moderno vive abaixo de si mesmo, e ele gostaria de impor ao Céu sua própria avaliação, arbitrária e cômoda, da condição humana; ele gostaria, como sugeriu Voltaire, de “sentar-se sob sua figueira e comer seu pão sem se perguntar o que há nele”; ora, para fazer isso, não há necessidade de ser homem; todo animal consegue fazê-lo sem dificuldade. É nossa natureza deiforme que nos dita nossa conduta; nossa verdadeira natureza é o que Deus nos pede, ou o que, aos olhos do Absoluto, é nosso destino. O fato de que os melhores homens – para dizer o mínimo – nunca se limitaram a “comer seu pão sob uma figueira sem se perguntar nada” prova que o homem voltairiano se engana, que seu sonho é irrealizável e só compromete a ele mesmo; dado que Platão, Virgílio e Santo Agostinho existiram, não mais podemos dizer que o homem é uma cabra ou uma formiga.

(Frithjof Schuon, Trésors du Bouddhisme, p. 65, Nataraj, França, 1997.)

“Nenhuma Iniciativa sem a Verdade”

Publicamos hoje um novo ensaio de Frithjof Schuon traduzido para o português. Trata-se de “Nenhuma Iniciativa sem a Verdade”, do livro Le Jeu des Masques (O Jogo das Máscaras), de 1992.

Ele começa assim:

“No começo deste século, praticamente ninguém sabia que o mundo está doente – autores como René Guénon e Ananda Coomaraswamy pregavam no deserto –, ao passo que hoje em dia quase todos o sabem; mas estamos longe de todos conhecerem as raízes do mal e poderem discernir os remédios. Em nossos dias, ouvimos frequentemente que, para combater o materialismo, a tecnocracia e a pseudo-espiritualidade o que se impõe é uma nova ideologia, capaz de resistir a todas as seduções e a todos os ataques e de galvanizar os de boa-vontade; ora, a necessidade de uma ideologia, ou o desejo de opor uma ideologia a outra, já é uma admissão de fraqueza, e toda iniciativa que resulte deste preconceito é falsa e fadada ao fracasso.”

O texto pode ser lido clicando-se aqui.

Para quem preferir, o arquivo PDF, para impressão, pode ser descarregado clicando-se neste enlace.

“A beleza nos aproxima de Deus”

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“Estando compreendidos na mâyâ terrestre, devemos manter o equilíbrio entre as perturbações temporais e os valores eternos; mas devemos, tanto quanto, manter o equilíbrio entre as belezas deste mundo e as do outro: entre as projeções terrestres e os arquétipos celestes. Ou entre a analogia ou a semelhança e a abstração ou a incomparabilidade; a analogia referindo-se à imanência, e a abstração, à transcendência.

“O senso da beleza actualizado pela percepção visual ou auditiva do belo, ou pela manifestação corporal quer estática, quer dinâmica da beleza, equivale a uma ‘lembrança de Deus’, se ele se encontra em equilíbrio com a ‘lembrança de Deus’ propriamente dita, a qual, ao contrário, exige a extinção do perceptível. À percepção sensível do belo deve, portanto, responder o retirar-se em direção à fonte suprassensível da beleza; a percepção da teofania sensível exige a interiorização unitiva.

“Para uns, só o esquecimento do belo – da ‘carne’, segundo eles – nos aproxima de Deus, o que é, evidentemente, um ponto de vista válido sob certo aspecto operativo; segundo outros – e esta perspectiva é mais profunda –, a beleza sensível nos aproxima, também ela, e mesmo a priori, de Deus, sob a dupla condição de uma contemplatividade que pressinta os arquétipos através das manifestações sensíveis e de uma atividade espiritual interiorizante que elimine as sensações em vista da percepção intelectiva e unitiva da Essência.”

(Frithjof Schuon, O Jogo das Máscaras, capítulo “Em face da contingência”. A pintura aqui incluída é de autoria de Schuon.)

Cartas de un Maestro Espiritual

Capa Olaneta CartasA seleção de cartas espirituais de Frithjof Schuon a seus discípulos de diversas tradições, publicada em livro na Suíça, e que já foi por nós comentada neste espaço, ganhou agora uma versão espanhola, da editora Olañeta, com a capa acima.

Repetimos aqui dois extratos que publicamos em nota anterior:

Carta de 7 de fevereiro de 1980: a absurdez à nossa volta

Uma das coisas mais difíceis de suportar é a absurdez humana; aceitá-la a título de necessidade ontológica faz parte do Islã. Há pessoas que creem que é virtuoso não ver o mal e fingir que o que é negro é branco, o que é a própria negação da inteligência; na realidade, trata-se de discernir exatamente entre o bem e o mal ao mesmo tempo em que se se resigna, não ao mal enquanto tal, mas à existência metafisicamente inevitável do mal. Tudo isto é evidente, mas eu o escrevo porque o espetáculo do mal faz sofrer e porque já é um tanto de santidade saber combinar um discernimento implacável com uma serenidade inalterável; a qual não exclui, aliás, a santa cólera, quando for o caso.

Carta de 1991: a vida espiritual

Em suma, a vida é simples: estamos de pé diante de Deus desde o nascimento até a morte; o que realmente conta é ter consciência disso e tirar daí todas as consequências. A consciência do Sumo Bem é a maior das consolações, ela deveria sempre nos manter em equilíbrio. Resulta dela, em primeiro lugar, a qualidade de resignação, a aceitação constante da vontade de Deus; esta virtude é difícil na medida em que queremos forçar o mundo a ser algo diferente do que ele é, a ser lógico, por exemplo. O complemento da resignação é a confiança; Deus é bom, e tudo está em suas mãos. Há também a gratidão, pois todo homem tem razões para ser reconhecido para com Deus; é preciso que nos lembremos dos bens de que desfrutamos, e não que nos esqueçamos deles porque nos falta alguma coisa. Enfim, é preciso fazer alguma coisa na vida, pois o homem é um ser agente; e a melhor das ações é a que tem Deus por objeto: é a prece.

A leitura deste livro abre uma perspectiva inédita, para os leitores externos, da atividade de Schuon como guia de almas no caminho do Verdadeiro, do Belo e do Bom.

A edição espanhola pode ser encontrada à venda, por exemplo, neste website. O livro tem 242 páginas e custa 19 euros.

Um novo ensaio de Schuon

Oferecemos ao leitor a tradução inédita, do francês, de um pequeno mas muito bonito ensaio de Schuon que faz parte do livro O Jogo das Máscaras (Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Suíça, 1992).

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Ter consciência do Real

A razão de ser da inteligência humana e, consequentemente, do homem é a consciência do Absoluto, além, mas também no interior, da consciência das contingências. Se é para se distrair em futilidades ou para levar uma vida de formigas, não valeria a pena nascer no estado humano, e o fenômeno da inteligência humana – reduzida a um luxo inútil – não seria explicável.

Em conexão com a vocação do homem, é necessário compreender corretamente o argumento ontológico de Santo Anselmo: ele não significa que a capacidade de imaginar não importa o quê prove a existência da coisa imaginada; ele significa que a capacidade de conceber Deus prova uma envergadura espiritual que só se explica pela realidade de Deus. Segundo o mesmo Doutor, a fé vem antes do conhecimento (credo ut intelligam); em suma, a fé é apresentada aqui como a qualificação para a intelecção, o que quer dizer que, a fim de poder compreender, é preciso ter o senso do transcendente e do sagrado. Mas o inverso também é verdade: “Eu compreendo a fim de que eu acredite” (intelligo ut credam) – o que ninguém jamais disse – poderia significar que antes de possuir uma certeza quase existencial das realidades transcendentes é importante apreender a doutrina. Sob certo aspecto, a predisposição do coração é a chave para a verdade metafísica refletida na mente; sob outro aspecto, este conhecimento conceitual é a chave da ciência do coração.

“Bem-aventurados os que terão acreditado sem ter visto”: trata-se aqui do homem exterior, imerso no dédalo dos fenômenos. A fé é a intuição do transcendente; a incredulidade provém da camada de gelo que cobre o coração e exclui essa intuição. Em linguagem mística, o coração humano é seja “líquido”, seja “endurecido”; ele também já foi comparado a um espelho que está seja polido, seja enferrujado. “Os que terão acreditado”: os que colocam a intuição do sobrenatural acima de um raciocínio rasteiro e separado de suas raízes.

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A vocação do homem, dissemos, é a consciência do Absoluto; a parábola da viúva perseverante e do juiz injusto nos lembra que esta consciência, que é “agora”, deveria ser “sempre”, ou seja, que seu próprio conteúdo exige a totalidade; ela deveria ser “sempre”, sob pena de não ser “nunca”. Contudo, “orar sem cessar”, como quer São Paulo, não poderia implicar uma continuidade perfeita, irrealizável na vida terrena; de fato, a perseverança opera por ritmos – rigorosos ou aproximativos –, e são eles que fazem o papel de perpetuidade. Os vazios inevitáveis entre os atos espirituais são recipientes da graça – os anjos fazem por nós o que não podemos fazer –, de modo que a vida de oração não sofre nenhuma descontinuidade.

Nada nos dá o direito de esquecer o Essencial; por certo, nossa existência terrena está tecida de prazeres e de labores, de alegrias e de pesares, de esperanças e de temores, mas nada disto tem medida comum com a consciência do Absoluto e com nosso dever quase-ontológico de praticá-la. “Deixai os mortos enterrarem seus mortos”, disse Cristo, e acrescentou: “E sigai-me”; a saber, na direção do “reino de Deus que está dentro de Vós” [1].

A fim de sermos assim fiéis a nós mesmos, necessitamos de argumentos irrecusáveis: chaves que nos permitam permanecer na consciência do Sumo Bem a despeito dos problemas do mundo e da alma. O argumento fundamental é que “Brahma é real, o mundo é ilusório” (Brahma satyam jagan mithyâ), o que põe um fim a todas as artimanhas da mâyâ terrena; sem dúvida, este argumento é intelectual e psicologicamente dos mais exigentes, dado que ele pressupõe uma intuição concreta do Real, não apenas uma ideia abstrata; assim, ele deve se acompanhar de outras ideias-chaves, mais próximas de nossa experiência terrena e cotidiana.

No plano de nosso relacionamento humano com Deus, o primeiro argumento que se impõe é a evidência de que o mundo não pode ser diferente do que ele é e que não podemos mudá-lo; que é preciso, portanto, resignarmo-nos ao que não pode não ser, e resistir a toda tentação de revolta – mesmo que inconsciente – contra o destino e contra a natureza das coisas; é o que se chama “aceitar a vontade do Céu”. À qualidade de resignação se junta a de confiança; a Divindade é substancialmente benevolente, sua bondade intrínseca tem primazia em relação a seu rigor quase acidental; estar consciente disto é permanecer na paz e saber que tudo está nas mãos de Deus.

Em muitos casos, pouco importa que nosso justo direito seja salvaguardado; o egoísmo – ou, digamos, a parcialidade de não suportar nenhuma injustiça – é um sério obstáculo em nosso relacionamento com o Céu, e é por isto que Cristo prescreveu amar os inimigos[2]  e oferecer a face esquerda. Em poucas palavras, é preciso saber esquecer-se de si mesmo diante de Deus e em vista de nossos fins últimos, e isto tanto mais quanto, em última análise, é só neste clima de desapego que podemos ter acesso à certeza ao mesmo tempo transcendente e imanente de que “a alma não é senão Brahma” (jivo brahmaiva nâparah) [3].

Às qualidades de resignação e confiança deve se juntar a de gratidão: com frequência, a recordação das boas coisas de que gozamos – e das quais, eventualmente, outros não gozam – pode atenuar uma provação e contribuir para a serenidade exigida pela consciência do Absoluto. Outro argumento, por fim, é baseado em nossa liberdade: somos livres para fazer o que queremos fazer, para ser o que queremos ser; nenhuma sedução ou provação pode nos impedir de recorrer à consciência salvífica do Sumo Bem.

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Em nossa consciência de Deus, nosso desejo de libertação se encontra com a vontade de Deus de nos libertar; a oração é ao mesmo tempo uma questão e uma resposta. Se “a beleza é o esplendor do verdadeiro”, o mesmo pode-se dizer da bondade; se o bem tende a se comunicar, é porque ele tende também a nos libertar.

A injunção de Cristo para “amar a Deus com todo o teu coração, com toda o tua alma, com toda a tua força e com toda a tua mente” nos relembra que a consciência do Absoluto é absoluta: que não podemos conhecer e amar Aquilo que é a única coisa que é senão com tudo o que somos. A unicidade do objeto exige a totalidade do sujeito; o que indica que, em última análise, o objeto e o sujeito se encontram na Realidade pura, ao mesmo tempo Essência indiferenciada e Causa suprema, portanto Origem de todas as diferenciações. Quem diz Absoluto, diz Infinito e, por consequência, manifestação e diversidade; e a projeção do Bem implica ontologicamente o retorno ao Bem.

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Discernimento e contemplação; concentração e perseverança; resignação e confiança; humildade e caridade. A espiritualidade é o que é o homem: feita de inteligência, de vontade e de sentimento – as três faculdades tendo a qualidade principial de objetividade, sob pena de não serem humanas –, a espiritualidade tem como elementos constitutivos a Verdade, a Via e a Virtude; esta dando origem a dois polos complementares, a humildade e a caridade, precisamente. A Via está ligada à Verdade; a Virtude está ligada à Verdade e à Via.

A humildade prolonga – em modo moral – o elemento Verdade ou Conhecimento porque este nos ensina a proporção das coisas; o homem não poderia conhecer a Realidade metafísica sem se conhecer a si mesmo. A Caridade, por sua vez, prolonga o elemento Via ou Realização porque este elemento apela essencialmente para a Graça; o homem não poderia merecer a misericórdia sem ser ele mesmo misericordioso. Aquele que se eleva indevidamente a si mesmo será abaixado, e aquele que se abaixa – em conformidade com a natureza das coisas – será elevado; e isto por participação na elevação do Real. E do mesmo modo: aquele que rejeita injustamente seu próximo será rejeitado por Deus, e aquele que aceita seu próximo – em conformidade com a justiça e com a generosidade –,  Deus o aceitará; Ele que está oculto no “próximo” em virtude da onipresença do Si. Ter-se-á compreendido que a caridade se refere mais particularmente à imanência, e a humildade, à transcendência.

A priori, a metafísica é abstrata; mas ela não seria o que é se não desse origem a posteriori a prolongamentos concretos no plano de nossa existência humana e terrena. O Real engloba tudo o que é; a consciência do Real implica tudo o que somos.


[1] O mesmo significado nesta outra sentença: “Quanto a ti, quando orares, retira-te em teu quarto, fecha a porta e ora a teu Pai que está no segredo…” E também: “Todo aquele que põe a mão no arado e olha para trás não está apto para o Reino de Deus.” [2]. É a condenação, não da defesa de um direito vital, mas do excesso na defesa desse direito; justiça não é vingança. [3] Consciência que, por um lado, transcende o ego e, por outro, pertence a sua essência transpessoal.

“A corrupção do que é melhor é a pior corrupção”

“A animalidade pode manifestar modos de decadência tanto quanto modos de perfeição, mas a espécie animal não pode decair; só o homem, participando da liberdade divina e criado para escolher livremente Deus, pode fazer mal uso de sua liberdade, sob a influência desse modo cósmico que é o mal. Seja como for – se se pode usar um simbolismo um pouco insólito –, assim como o bumerangue, por sua própria forma, está predestinado a retornar para junto daquele que o lançou, assim também o homem está predestinado, por sua forma, a retornar para junto de seu protótipo divino; quer ele o queira ou não, o homem está ‘condenado’ à transcendência.

“Humanamente falando, o raio cósmico privativo e subversivo não é senão o princeps hujus mundi; a pior das perversões é a do homem, pois que corruptio optimi pessima. A tendência “tenebrosa” e “descendente” não somente se afasta do Sumo Bem, mas também se volta contra ele; de onde a equação entre o diabo e o orgulho. E isto nos permite inserir aqui a seguinte consideração: muito próximos do orgulho estão a dúvida, a amargura e o desespero; o grande mal, para o homem, não é somente afastar-se de Deus, é também duvidar da Misericórdia. É ignorar que mesmo no fundo do abismo a corda de salvamento está sempre presente: a Mão divina está estendida, contanto que tenhamos a humildade e a fé que nos permitem apanhá-la. A projeção cósmica afasta de Deus, mas esse afastamento não pode ter nada de absoluto; o Centro está presente em toda parte.

“Está na natureza do mal insinuar-se em todas as ordens, na medida do possível: toda criatura tem, certamente, o direito de viver na ambiência que a natureza lhe reservou, mas no homem esse direito dá origem aos vícios de exterioridade, de superficialidade, de mundanidade, em suma, de ‘horizontalidade’ ingênua e irresponsável. Mas o obstáculo não está somente na ambiência tentadora, ele já está na condição humana em si, e trata-se do abuso da inteligência: poder-se-ia caracterizá-lo pelos termos titanismo, icarismo, babelismo, cientificismo, civilizacionismo. De resto, não há excesso que não tenha sua fonte indireta em alguma verdade ou realidade: assim, o niilismo e o desespero poderiam se referir, muito abusivamente, à ilusão universal; ou, digamos, ao aspecto de ilusão da projeção cosmogônica. De uma maneira inversamente análoga, o aspecto de identidade, que reduz – ou remete – Mâyâ a Atmâ, dá origem, indireta e caricaturalmente, à “autolatria” de certos pseudo-vedantisnos, e também à idolatria em geral; toma-se a imagem pela coisa real, o eu empírico pelo Si imanente, o psíquico pelo espiritual; quod absit.”

(Frithjof Schuon, Le Jeu des Masques, Editions L’Age d’Homme, Lausanne, 1992.)